REBOOTS: O Fim dos Gibis de Super-Heróis ou sua Salvação?

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Por que as reformulações são necessárias para a sobrevivência das editoras de quadrinhos

por Ben Santana

A palavra reboot tem, como significado primário, “reiniciar o computador”. Mas, nos quadrinhos, é como são chamadas as reformulações que alteram as origens de personagens e universos de histórias. E, ultimamente, existe uma moda, tendência, vontade de falar mal de todo e qualquer reboot nos quadrinhos.

image002“Reboots são o câncer, a doença que está matando toda a indústria. Depois dos reboots, não sobrará nada. Os quadrinhos serão destruídos, apenas uma lembrança.”

Muitos dos leitores mais antigos acham que tais reboots são desnecessários, que basta uma boa história e tudo está certo.

“Ah, deixem na mão de fulano ou fulano que ele saberá fazer algo diferente, mas sem tocar na sacrossanta cronologia, que deve se manter pura como uma vestal”.

Só que não é bem assim. O reboot não é uma vicissitude moderna, criada pelos Jim Lees, Dan DiDios e Joe Quesadas da vida. Eles vêm acontecendo desde que os quadrinhos surgiram. E, principalmente, desde que os quadrinhos de super-heróis apareceram.

Para o Alto e Avante

Quando Jerry Siegel e Joe Shuster criaram o Superman, ainda na década de 1930, ele era pouco além de um homem mais forte que a maioria dos humanos. Não voava (“capaz de saltar prédios enormes com um único pulo”). Não existia nada da mitologia de Krypton. Não havia Supergirl. Argo City. Krypto. E muito menos Superboy. O bebê Kal-El foi mandado para um orfanato!

Com o tempo isso foi mudando e todos esses elementos clássicos foram sendo incorporadas ao Homem de Aço. E, ei… ninguém reclamou. Por algumas razões. Primeiro, porque existia (e eu acho que ainda existe) um tempo de validade para a grande maioria dos leitores. A esmagadora maioria dos leitores de Action Comics nos anos 1950 não eram os mesmos da década anterior. Segundo, porque tais mudanças ou retcons (inclusões ou alterações retroativas à continuidade) enriqueciam cada vez mais o personagem.

Não adianta tentar achar que o Batman de Detective Comics 27 é o mesmo da fase de Neal Adams. Ou o de Frank Miller. São personagens totalmente diversos e que, de certa forma, sofrem um (por falta de nome melhor) “soft reboot” a cada troca de escritor. Da mesma maneira que o James Bond de Sean Connery não é o mesmo de Roger Moore.

Infinitas Reformulações

A ideia de zerar tudo, começar com uma tábula rasa, ocorreu pela primeira vez em 1985. E na mesma DC que está sendo criticada hoje. Depois de cinquenta anos de personagens, retcons, multiversos e compra de personagens de outras editoras, a DC simplesmente achou que a bagunça estava grande demais. Não para aquele leitor fiel de décadas, mas para o novo leitor, aquele que poderia se interessar por um título e ficaria extremamente amedrontado de tentar entender um personagem com meio século de histórias.

image003A DC então precisava de um “jumping point”, um momento de entrada para os novos leitores. Ou mesmo para os mais antigos que tinham desistido porque se sentiam intimidados pela grandiosidade de uma cronologia e situações que vinham ocorrendo há mais tempo do que eles estavam lendo.

Surge então Crise nas Infinitas Terras, que prometia fazer que todo o universo DC fosse algo mais coeso. Que o novo leitor pudesse entender sem precisar do Who’s Who in the DC Universe – uma publicação que trazia fichas detalhadas sobre os personagens e suas histórias. Tudo seria novo. Não foi isso que aconteceu, como todos sabem. Logo teríamos Zero Hora, tentando aparar as arestas deixadas pela Crise. E depois o Hipertempo. E depois Crise Infinita… e assim por diante.

A DC, considerada a grande vilã dos reboots, estava simplesmente tentando tornar suas histórias mais acolhedoras aos leitores. E vender edições de número 1. Simples assim. E deixe-me contar uma coisinha para vocês: isso funciona. Pelo menos por algum tempo, até que seja necessário um outro (sim, vocês adivinharam) reboot.

Mais Crises

Senão, vejamos… quem mais reclamou das mudanças pós-Flashpoint, que desaguaram nos Novos 52, foram os leitores que se formaram com o Superman de John Byrne, que só existiu por causa da Crise nas Infinitas Terras, quase trinta anos atrás.

image008E vamos ser honestos, a Crise perdeu a sua validade bem cedo. Prova disso é a já citada Zero Hora, lançada apenas nove anos depois. Quando John Byrne remodelou Superman, os fãs de Curt Swan gritaram tanto quanto os leitores de hoje? Uhn… não. Eu sei, eu estava lá. Certo, na época de O Homem de Aço, a minissérie que definiu o novo Superman, não havia a internet, muito menos o Facebook, o grande muro das lamentações virtuais. Diabos, Mark Zuckerberg tinha um ano de idade quando ela foi publicada. Mesmo assim, as revistas especializadas da época estavam entusiasmadas com a mudança, como não poderia deixar de ser.Afinal, era John Byrne, que vendeu um caminhão de cópias de X-Men anos antes.

Com os Novos 52, a DC recebeu uma série de críticas. Algumas justificadas, outras não.O que eles estavam tentando fazer era simplesmente salvar seus quadrinhos. Não acho DiDio ou Jim Lee gênios, mas eles fizeram o que era possível no momento: criar interesse suficiente para trazer os fugazes leitores que se afastaram justamente porque não aguentavam mais a mesma coisa que vinha acontecendo desde que começaram a ler as histórias da editora. Se deu certo ou não, é discutível. E, ei… a série Convergence está aí para, mais uma vez, dar uma chacoalhada no status quo. Podem perder leitores. Aliás, vai acontecer, com certeza. Mas vão ganhar também. O objetivo é que, no frigir dos ovos, eles acabem com mais leitores do que tinham antes do reboot.

Até mesmo a Marvel, que sempre foi partidária do “soft reboot” (vejam, Tony Stark teve seu acidente durante… a Guerra doimage009 Vietnã? O foguete do Quarteto Fantástico foi lançado por causa da corrida espacial?) está, ao que tudo indica, querendo fazer algo muito parecido, com seu Secret War. Um reboot total. Depois de mais de cinquenta anos, parece  que a editora pode ter a sua própria “Crise”.

Nada novo sob o sol (de Krypton)

Ou seja, não importa se os reboots foram feitos por Julius Schwartz no início da Era de Prata, com o Flash e o Lanterna Verde, ou por DiDio e Jim Lee em Flashpoint. Eles estão aí. Sempre estiveram. E, por incrível que pareça, dão força para a indústria. Porque, querendo ou não, tentam dar um certo frescor a coisas que estamos vendo desde o final dos anos 1940.

Então, um conselho simples é: leiam e vejam se isso os atraí. Pode ser que sim, pode ser que não. Mas tenham certeza que seja qual for esse reboot, ele não é o primeiro. E não será o último.

BenBen Santana nasceu no final da Era de Prata, mas cresceu na Era de Bronze. Professor, tradutor e desocupado (quando sobra tempo), vem lendo e pesquisando quadrinhos desde sempre. Seu blog é http://prataebronzecomics.blogspot.com.br

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3 comentários sobre “REBOOTS: O Fim dos Gibis de Super-Heróis ou sua Salvação?

  1. Texto bastante esclarecedor… Tirou alguns questionamentos que eu tinha a respeito de reboots. Ao meu ver, a DC acertou em alguns pontos e errou em outros. De fato, foi muito legal adquirir uma revista número 1 sem ter tido que recorrer aos sebos (não que isso seja algo ruim).

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