Coluna ENQUANTO ISSO… Dois momentos de Star Wars

Uchoa Imagem 01

Na estreia da coluna de reminiscências nerds, duas lembranças tragicômicas sobre momentos distintos da saga de George Lucas

Por Fábio Ochôa

Momento I

O primeiro Star Wars a gente nunca esquece.

Eu, bem pequeno. Anos 80 e a Tela Quente ou Supercine (qual dessas duas sessões de cinema da Globo foi realmente, a areia do tempo escorreu e apagou da minha memória) anunciou seu super-lançamento. Começam as imagens. Naves espaciais, trilha empolgante e meu pai, como de hábito, se vira para explicar o que era o filme que íamos ver naquela noite.

Era comum meu pai me descrever os filmes que marcaram a infância e adolescência dele. Com o tempo comecei a perceber que o filme que eu formava na minha cabeça não tinha absolutamente nada a ver com as produções originais. Alguns até eram bem mais legais na minha cabeça, pra ser bem sincero.

Em sua descrição sobre Star Wars (então Guerra nas Estrelas naqueles tempos jurássicos), ele fez o melhor que podia para me empolgar a ver o filme. Segundo ele, o filme tinha o Indiana Jones, só que sem chicote e com arma laser (quer coisa mais legal que isso para uma criança de 7 anos?). Um guri (Luke Skywalker). Uma guria (Leia). Um monstro parecido com o King Kong só que “com tamanho de gente” (Chewbacca). Um robô que parecia um Oscar só que era um robô de verdade (C-3PO). “Movido a bateria, pai?”. “Isso, movido a bateria”. Chupa essa, Anthony Daniels. Um robô que era “igual ao Gorpo do He-man” (R2-D2… 30 anos depois ainda estou tentando fazer a conexão WTF entre uma coisa e outra.) “Ah, ele voa, pai?”. “Não, mas é igual ao Gorpo” (?????). E eles enfrentavam um robô negro que matava as pessoas com telepatia (ele sabia que eu amava os X-men na época, deve ter achado mais fácil me explicar assim). “Mas robô tem cérebro, pai?”. “Esse tem”. Quando ele falou robô negro, imaginei LITERALMENTE um negro. Mais: imaginei o Louis Gosset Jr., que era meio que o ator negro oficial do cinema dos anos 80, vestindo uma roupa de robô tipo o Cyborg dos Novos Titãs.

Agora, imaginem o puta puteiro do caralho que se formou na minha cabeça. Entra a trilha de abertura do Supercine (ou Tela Quente, sei lá); pipoca na mesa e eu lá, louco de expectativa para ver o Indiana Jones armado a laser, o King Kong anão, o Oscar e o Gorpo, uma turminha da pesada prontos para se meter em altas confusões contra o Louis Gosset Jr. telepata das galáxias. Cara, alguém DEVERIA ter feito esse filme. Mesmo.

Trilha a todo volume. Filme começando.

Na verdade, o filme daquela noite era o Jornada nas Estrelas III – à Procura de Spock.

Momento II

Em 1999, não era só He-man que tinha a força. Em todas as mídias, o setor de entretenimento era dominado pelo retorno da franquia de Star Wars. E as notícias eram ótimas, o filme ia ter Liam Neeson, antes de baixar o Charles Bronson nele, o cara que fez A Lista de Schindler e o bacanudo Darkman, de Sam Raimi. Ia ter o Ewan McGregor e na época eu estava bem na febre do Trainspotting. Ia ter Natalie Portman. Ia ter “o cara lá que não sei o nome” como Darth Maul, o vilão com um visual legal como há muito não se via. E, finalmente, ia ter direção de George Lucas! O pai da porra toda! Quer melhor aval de qualidade que esse?

Para quem estava há um jejum de quase duas décadas sem um filme novo passado em uma galáxia muito, muito distante, não tinha como descrever a comoção, era algo como Jack Kirby resolver reencarnar e trabalhar com Stan Lee de novo e ainda trazer John Lennon de brinde para os Beatles gravarem um novo álbum.

Mundinho nerd em polvorosa, especulações mil, tudo que é revista chutando para ver qual ia ser o nome do filme (infelizmente, a minha aposta, “Sith do Pica-Pau Amarelo”, sequer foi cogitada) até que, inevitáveis como sempre, os meses passaram e chegou o momento de finalmente ver o filme.

Cinema de rua ainda, fila gigantesca na estreia, população nerd da pequena cidade de Pelotas (todos os 17) ali, reunida em peso (ênfase nessa palavra), prontos para desvendar a história que Lucas demorou 16 anos para nos contar.

Cara…

Às vezes eu acho que vivo em algum episódio mal escrito de Além da Imaginação, um mundo no qual, por uma cognição qualquer, as pessoas simplesmente não veem o mesmo filme que estou vendo.

Que o filme era uma merda já virou conhecimento público e não vou numerar aqui todos os seus problemas para não fazer você passar por aquela experiência de novo. Mas, cara… a frustração!

Era que nem escrever Blowin’ in the Wind e descobrir que quem vai gravar ela é o Capital Inicial. Era que nem um hétero conseguir levar a Monica Bellucci pro motel e descobrir na hora H que ela é homem! Era como descobrir que você vai ganhar uma cinebiografia mas quem vai interpretar seu papel é o Nicolas Cage!

E o Anakinzinho? Cada vez que ele aparecia na tela eu tinha vontade de dar uma bifa na cara dele e dizer “pare de foder com a minha infância, seu moleque de merda! PLAF”. Vendo aquele filme eu entendo porque Vader usa uma máscara. É a vergonha daquela atuação. Ainda guardo esperanças no meu coração que Keanu Reeves resolva fazer o mesmo um dia.  Quanto a Jar Jar Binks, cada vez que ele aparecia na tela eu tinha vontade de enfiar duas moedas nos olhos, apenas para não ver aquilo e, se alguém perguntasse, eu ia dizer que estava brincando de Caronte.

O filme acabou, as luzes se acenderam e todo mundo foi para a pizzaria, falando sem parar, EMPOLGADOS com o filme! Se lembra o que eu comentei do tal episódio do Além da Imaginação? E eu me perguntando que diabos havia de errado comigo, que tinha achado o filme completamente aborrecido, opaco, sem nenhum personagem realmente interessante e uma trama desnecessariamente complicada. Sabe quando você quer gostar de alguma coisa e começa a forçar a barra e começa a cavucar argumentos mentais para justificar o filme abilolado que acabou de ver?

É um esforço inútil. Empatia é imediata. Ou você teve com a obra ou não. Ponto.

Perguntaram o que eu achei.

Até então, eu sempre tinha tido uma dificuldade crônica de expressar minha opinião – frequentemente conflituosa com o senso geral – e eu realmente não tinha nada de bom para falar daquele filme. Naquela pizzaria eu era mais minoria que um anão albino, pirata e fã da Yoko Ono.

De uma maneira muito estranha, aquele momento na pizzaria virou uma espécie de momento definidor. Ou eu desconversava e dizia que tinha gostado ou entrava em um longo debate contra a turba – contra a qual, talvez minha única vantagem fosse derrubar a mesa e sair correndo enquanto todos se recuperavam do choque.

Mas sabia também que simplesmente concordar com todos seria uma tremenda derrota pessoal como ser humano.

Olhei para os interlocutores, dei uma suspirada.

– Uma merda.

E voltei a comer a pizza.

Obrigado, George Lucas.

OchôaFábio Ochôa trabalha como redator publicitário. Conquistou prêmios, foi citado na TV, foi diretor de criação, já saiu na Zupi, fez campanhas políticas e, mesmo assim, ainda consegue gostar das pessoas e achar este mundo um lugar legal. É um exemplo, esse rapaz. Trabalha também como ilustrador freelance e roteirista eventual. Para saber mais acesse:  www.behance.net/fabioochoa

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11 comentários sobre “Coluna ENQUANTO ISSO… Dois momentos de Star Wars

  1. Não lembro se eu estava ou não na mencionada pizzaria, mas o fato é que eu era um dos impressionáveis que viu o filme várias vezes e que realmente acreditou que era um bom filme e sim, por pura nostalgia nerd, enquanto Fábio Ochôa reverberava seu senso crítico para tentar, tal como tentar Platão no mundo antigo, nos tirar da caverna da falta de senso crítico. Maldito Lucas que colocou todos os nerds da pequena localidade mencionada, a exceção de Ochôa no fundo da caverna da falta de senso crítico.

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  2. Ótimo texto.
    Basicamente, tua frustração com o Episódio I foi parecida com a minha assistindo TDKR pela primeira e última vez.
    Resta esperar que a trilogia nova consiga o impossível feito de apagar da memória aquele amontoado de bobagens românticas e com tanta graça quanto Lars Von Trier cantando rap.

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  3. Momento I
    Cara, Indiana Solo e os Caçadores do Spock Perdido seria um baita filme (meio esquizofrênico, é verdade, mas um épico)! Tuas histórias de família rendem um livro incrível (ou seriado do Netflix, acompanhando as tendências do momento) e tu sabe disso!

    Momento II
    Essa tua história me fez parar pra refletir sobre algumas coisas…
    Até hoje ainda tem gente que guarda um lugar no coração praquele filme (é duro acreditar, mas já testemunhei essa raridade, bem como papel higiênico em banheiro público e foto do Lombardi) mas não vejo como um problema. Acho muito saudável ter pontos de vista, argumentos e gostos diferentes, assim como o fato de sempre poder mudar de opinião, seja por meio de uma boa discussão (debate racional e não troca irracível de xingamentos) ou por análises próprias (o bom e velho “cair a ficha”). Coisas que parecem estar meio demodê em dias de redes sociais e suas vociferações impensadas. Hoje, mais do que nunca, parece que estar com a tocha na mão com frases feitas e respostas rápidas para execrar o outro é o que há.

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    • Cara, a jornada dos Ochôa seria um tremendo seriado do Netflix. O episódio de estreia poderia ser a crônica da galinha decapitada que saía correndo na cozinha.

      Concordo plenamente com tudo que tu disse, desde, claro, a gente não defenda o Michael Bay.
      Michael Bay é indefensável.

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      • Defender Michael Bay?!? Sua carreira é um estouro que fala por si!

        E, não adianta querer me enganar, trouxeste a explosão de talento Michael Benjamin Bay à baila somente para bombar nas ferramentas de pesquisa, seu serelepe!

        Curtido por 1 pessoa

  4. Estava eu e minha velha companheira: A Revista Set, cada nota e notícia sobre o Episódio I vibrava. Quando começou a sair as primeiras fotos do set e fotos oficiais foi aquela comemoração, lançaram o trailer da Ameaça Fantasma e explodiu milhares de cabeças, inclusive a minha.
    O Cine Capitólio dava voltas no quarterão para a grande Estreia do Episódio I, não era MODA os Cosplayer”s, mas existiam alguns jedis perdidos no meio da multidão. A última vez que houve um grande alvoroço numa estreia foi em Titanic, e depois em Spider-Man. Foi um ano bom, mas Matrix dominou!!!!O público estava deslumbrado naquela sala lotada, primeira aparição do Darth Maul iam ao delírio, corrida dos pods no cinema era bom de se ver. Tudo era “divertido”. Quando acabou o filme, começamos a nos perguntar e tentar achar respostas e o encanto ACABOU, vimos que o TIO Lucas nos enganou com uma história confusa e temas políticos, querendo explicar a ORIGEM da Força? Falhas e mais Falhas, como somos fãs HardCore de Star Wars foi bastante preocupante. No Episódio II conheci o Marco e o Anderson e a cada reunião falávamos sobre o futuro de Star Wars.

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  5. Fábio, faço minhas as suas palavras, mas quanto a este funesto episódio sete. Uma m… tão m… que faz do episódio um uma obra prima. Qualquer trailer de game de Star Wars é melhor do que esta reciclagem over do Jar Jar Abrams! Se o cara se diz fã de Star Wars, preferia então que fosse alguém que não gostasse da saga. Tenho certeza que faria algo melhor hoje! Ex: assista o cinematic de Old Republic no Youtube. É de fazer Jar Jar Abrams, humilhado de vergonha, se refugiar em algum arquipélago lost.

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