Coluna CHIQUE NORRIS: Ainda sobre a capa da Batgirl…

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Na estreia da coluna, nos perguntamos se a polêmica com a capa da Batgirl mostra que o pior inimigo que os quadrinhos já tiveram renasceu na era da internet

Por Carlos Alberto Bárbaro

Não conheço um só apreciador de quadrinhos que se ofenderia, dez anos atrás, com a capa variante (e isto é bem mais importante do que aparenta ser) que o Rafael Albuquerque fez para a Batgirl 41. Mas, antes de falar sobre isso, vamos a um pouco de história.

Chique WerthamInimigo dos Quadrinhos

Para além de seus grupos de interesse específicos, aficionados para alguns, fanboys para outros, os quadrinhos só chamaram a atenção do restante da humanidade nos tempos do infausto Frederick Wertham, aquele que, todos concordam, foi o maior e mais poderoso vilão a atacar a indústria em toda a sua história, e que para isso precisou apenas de um poder, o de incutir o medo nos corações dos pais americanos.

Não é exagero afirmar que, movido pelo seu obscuro desejo de proteger as CCA1criancinhas dos gibis de terror da EC Comics americana, o infame doutor atrasou em décadas a evolução do meio, obrigando as editoras americanas de quadrinhos – para sobreviver no clima da época, favorável às ideias do doutor – a se autocensurarem, evitando assim a intervenção externa e impositiva do governo. O que as editoras fizeram foi criar, em 1954, o Comics Code, um selo de controle de conteúdo que passou a ser impresso nas capas dos gibis como um alerta aos pais de que os gibis que o traziam estampado eram confiáveis. Foi esse selo que, durante décadas, impediu que histórias mais adultas fossem publicadas pelas grandes editoras.

Daredevil kills bullseyeSomente em 1978, passados mais de 25 anos de sua criação, é que teve início a reação a essa convenção, quando um jovem roteirista chamado Frank Miller assumiu o título do Demolidor, infundindo ao título aspectos até então inconcebíveis para histórias de super-heróis, como, entre outros, o de seu protagonista optar por matar os vilões que enfrentava.

A trilha estava aberta, e o caminho, graças aos cada vez mais crescentes índices de vendas do título do Demolidor, foi sem volta e sem grandes traumas, visto que a sociedade já parecia mais amadurecida e,  aparentemente, não se deixava mais levar por falsos moralistas que pregavam que histórias ou capas de gibi mais ousadas pudessem de algum modo perverso influenciar, negativamente ou de qualquer modo, o comportamento dos jovens de qualquer sociedade.

A ficção tinha voltado a ser ficção simplesmente.

Uma boa piada

À época de seu lançamento, as únicas reações à Piada Mortal, de Alan Moore, foram de júbilo e prazer pela qualidade do Chique Norris_Killing-Joke_4roteiro que aquela história do Coringa entregava aos leitores, e pela constatação de que, sim, era possível, com talento e ousadia, visitar e revisitar os mitos dos quadrinhos, a um só tempo permanecendo fiel a eles e aclimatando-os ao espírito da época.

O abandono formal do Comics Code pela Marvel somente se daria de fato em 2001. A DC, aparentemente a última a pular oficialmente do barco, só deixaria de imprimir o selo em suas capas em 2011 (o que, pensando bem, explica muita coisa). E este parecia ser o final feliz para uma indústria que já nem publicava mais finais tão felizes assim.

É bom lembrar que as atenções do doutor Wertham só foram atraídas para os quadrinhos por conta do sucesso absoluto dessa indústria, um sucesso tão avassalador que, como nos dias que correm, ultrapassava as fronteiras de seu público-alvo e começava a ampliar seu círculo de leitores.

Para mentes perturbadas como a do famoso psiquiatra, que só ficou famoso graças ao objeto de seus ataques, não era concebível apresentar sob a forma de quadrinhos histórias mais complexas ou violentamente gráficas, porque aquele formato, ilustrações com balões, era destinado unicamente a crianças e cabia a ele P1030059e a outros como ele, guardiões das pobres criaturas inocentes, preservá-las daquele tipo de histórias degeneradas. Era a cruzada de um falso moralista que não hesitou em forjar dados para corroborar suas afirmações.

Mas, passados mais de sessenta anos da publicação de A sedução dos inocentes, o livro mais conhecido de Wertham e a maior trolada assacada contra a indústria dos quadrinhos, a história começa a se repetir como farsa.

Legião de Werthams

Nos últimos dez anos, essa indústria, e isto é importante, vem novamente ampliando seu público e visibilidade. E vem se Batman_Death_in_the_Family_8001tornando objeto de atenção cada vez mais intensa e amplificada de um número sempre crescente de pessoas, para muito além dos suspeitos de sempre e agora com a ajuda inestimável dos grandes irmãos das redes sociais.

Coincidentemente, ou não, isso ocorre no mesmo fluxo temporal em que os dublês de Wertham, a sociedade da reclamação, se tornam legião.

Todos conhecemos pessoas que, hoje (e isto também é um dado importante), são sensíveis a reclamações de grupos ou indivíduos, normalmente de fora, ou mesmo à margem, da indústria, como era o caso do velho doutor, que se manifestam ofendidos com determinados desenhos ou por abordagens diferentes a determinados personagens clássico feitos por autores ou autoras contemporâneos. Some-se a esse ânimo a facilidade dos meios de comunicação instantânea e o resultado é que toda e qualquer queixa e descontentamento, embasados ou não, são replicados a uma velocidade assombrosa e com influência cada vez mais atemorizante nas decisões editoriais das duas grandes editoras de quadrinhos americanas. Estaríamos a testemunhar o reboot do Comics Code?

Finalmente, a capa da Batgirl

Chique 01Não há meio-termo. A capa do Rafael Albuquerque foi CENSURADA. Investir na versão de que foi uma decisão editorial é investir na aceitação de que a capa é ruim, que seria o motivo correto para o editor ou editores que contrataram o trabalho a recusarem.

Um dos argumentos dos que se sentiram ofendidos com essa capa específica (e que fique bem claro, ofender-se é permitido) foi o fato de que ela apresentava a imagem da heroína do título em situação indefesa, atemorizada. Em resumo, violentada. E que isto, principalmente em uma revista que tinha acabado de mudar sua equipe criativa, que trouxera ao título uma pegada mais adolescente e positiva, estaria levando a “mensagem errada” para o público alvo da revista, que agora, da noite para o dia, passara a ser formado somente por adolescentes do sexo feminino.

Em primeiro lugar, que importa que o novo arco da nova Batgirl não tenha relação direta com os eventos de A piada mortal quando a capa variante foi encomendada para comemorar os 75 anos do Coringa? Vou explicar de novo: CA-PA… VA-RI-AN-TE…! Se é variante, significa exatamente que não precisa ter, por princípio, relação com o conteúdo da revista.

Amazing_Spider-Man_Vol_1_597Depois, qualquer pesquisa descuidada pelo banco de imagens do Google vai revelar oWonder-Woman-The-Hiketeia-2002 que os velhos leitores já sabem: que as capas que apresentam heróis (homens e mulheres) em situações indefesas perante os vilões são o padrão da indústria, não a exceção. E, claro, que muitas não guardam relação alguma com o conteúdo da revista (na capa, vemos um herói morto, dentro da revista se revela que aquilo era um engano, claro).

“Ah, mas foram os próprios autores do arco que recusaram a capa!”. Por que então não recusaram ANTES de a polêmica ser iniciada? Justamente porque só notaram “seu erro” (apontado por quem fez questão de se ofender e levou outros juntos) após começar a campanha virtual contra a publicação da mesma. As pessoas que trabalham na indústria são normalmente sensíveis a esse tipo de pressão, notadamente os editores.

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Sem relação

O que poucos percebem é que essa tentativa de orientar o que pode ou não pode ser abordado, publicado ou concebido em uma história em quadrinhos – ou em qualquer outra manifestação artística – é um movimento que, em sua maioria, vem de pessoas que não têm nenhuma relação, afetiva ou profissional, com aquilo que acharam por bem monitorar. São esbirros do Frederick Wertham fora do seu tempo. São pessoas com agendas, mas sem livros. E são perigosas.

E o pior, com seu discurso de vitimização têm conseguido seduzir os inocentes do presente.

BraboCarlos Alberto Bárbaro, o Chique Norris, é tradutor, preparador de textos e criador de casos profissional. Acredita que todos têm direito a opinar sobre tudo, mas que devem estar preparados para quando o sangue começar a jorrar. E não, ele não acha que devamos sair por aí dizendo “Je Suis Batgirl”

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5 comentários sobre “Coluna CHIQUE NORRIS: Ainda sobre a capa da Batgirl…

  1. E como esse tipo de postura se repete. Por desconhecimento ou por um ativismo muitas vezes carente de conhecimento de causa, muitas pessoas interpretam coisas que não estão em questão. Quem conhece a HQ de Alan Morre, “A Piada Mortal” sabe que a capa é uma homenagem essa HQ, na qual o Coringa literalmente aleijou a Batgirl. A capa não faz qualquer apologia a violência contra as mulheres, mas sim a uma HQ impactante, não por sua violência, mas sim por mostrar a psique, a história e a trajetória do arqui inimigo do Batman até ponto em que a loucura e o desespero fizeram dele o Coringa. Enfim, muitas pessoas incorrem no super ativismo sem os devidos cuidados na hora de analisar aquilo que criticam. Ótimo texto para reflexão. Realmente existem muitos Wertham no mundo atual e mesmo que não estejamos vivendo no contexto da paranoia coletiva do macartismo, parece que vivemos no contexto da paranoia da ideia de necessidade de ultra ativismo virtual.

    Curtido por 2 pessoas

  2. Pra varias Bárbaro – A.K.A. Chique Norris – isso parece ser mais um exemplo de slacktivismo, ou, a arte de tentar mudar o mundo sem sair do sofá. Um mundo onde temos coisas imensas para resolver, mas, vamos protestar contra a capa da Batgirl no Facebook, certo? Dá pouco trabalho, náo muda nada de concreto e acabo o dia com a sensação de dever cumprido.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Concordo perfeitamente com o artigo. Já não é de agora que movimentos extra HQ se preocupam muito especialmente sobre o hipotético conteúdo sexual (com a violência quase não aparecem queixas) de uma imagem. Esta capa da Batgirl deu problema exactamente pelo hipotético conteúdo sexual que trazia (lol) da Piada mortal, porque hipoteticamente ela foi violada pelo Coringa, ou seja, era uma capa que trazia à ideia “violação”. A capa variante do Manara teve o mesmo tratamento por parte da Marvel e deu a confusão que toda a gente sabe. Felizmente isto só está a afectar as duas “grandes”, pois as editoras tipo Image, Dark Horse, Archaia/Boom, Zenescope, IDW, Top Cow, etc estão-se a borrifar para isto.
    O mundo está novamente a entrar numa era de obscurantismo de ideias em determinados países devido ao crescendo de influência religiosa na política. Os EUA são um deles, e infelizmente acho que só vai piorar.

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