Entrevista exclusiva: os criadores de PSICOPOMPO

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Um bate-papo exclusivo com a equipe criativa da graphic novel imaginada para fazer parte do universo da Turma da Mônica, mas que agora toma forma como um interessante projeto autoral

Por Wilson Simonetto

Psicopompo: palavra que tem origem no grego psychopompós, junção de psyché (alma) e pompós (guia), designa um ente cuja função é guiar ou conduzir a percepção de um ser humano entre dois ou mais eventos significantes. Um guia interior, o psicopompo pode ser de natureza humana, animal ou espiritual. Arquétipo presente na maioria dos registros mitológicos, sonhos, filmes e contos populares, ele surge espontaneamente e assume a tarefa de revelar um símbolo ou sentido orientador, necessário para a continuidade da trajetória individual de quem o encontra.

Se você prestou atenção na descrição acima, pode não ser difícil imaginar sobre qual personagem do universo de Mauricio de Sousa e da Turma da Mônica seria a graphic novel Psicopompo, oferecida originalmente para a Mauricio de Sousa Produções, para integrar a sua nova coleção de álbuns direcionados a um público mais velho. O projeto foi recusado no formato para o qual foi imaginado, mas ganhará nova vida como um álbum autoral que já se mostra muito interessante.

O Pastel Nerd conversou com Octavio Aragão (roteirista) Carlos Hollanda (desenhista) e Osmarco Valladão (colorista) sobre a gênese do projeto, o formato que ele tomará para chegar às mãos do público, os problemas do crowdfunding e o mercado de quadrinhos atual. Puxe uma cadeira e prepare-se para um papo aprofundado e esclarecedor sobre essa paixão que é fazer quadrinhos. (Dica do entrevistador: para ler ouvindo Surfing with the Alien, de Joe Satriani)

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Para começar, poderiam falar um pouco sobre cada um de vocês?

Carlos Hollanda: Vamos lá. 47 anos. Sou historiador, com mestrado em história comparada pela UFRJ e doutorado em artes visuais também pela UFRJ. Sou também ilustrador, fiz uns poucos livros infanto-juvenis e alguns quadrinhos independentes.

Octavio Aragão: designer gráfico, pesquisador e acadêmico. Doutor em artes visuais pela EBA-UFRJ, professor de Jornalismo Gráfico na ECO-UFRJ. Autor de dois romances, um álbum de HQ com Manoel Ricardo e um projeto de ficção científica chamado Intempol. Prêmios, só o Argos de Literatura Fantástica, por enquanto, mas publiquei contos na Argentina, em Portugal, no México. Inglaterra e EUA.

Osmarco Valladão: 50 anos e formação em design gráfico. Já publiquei três graphic novels no Brasil como roteirista e colorista com meu parceiro Manoel Magalhães. Já fui indicado ao HQ Mix duas vezes. Como colorista, já fiz e estou fazendo trabalhos para o exterior, e sou um colaborador (como roteirista e colorista) da Aces Weekly, publicação do David Lloyd.

Vocês são todos do RJ?

Octavio Aragão: Todos.

Nos falem sobre o Psicopompo.

Octavio Aragão: Era um projeto nosso oferecido à Mauricio de Sousa Produções. Eu propus o projeto. Eu e Manoel Ricardo tínhamos feito a HQ Para Tudo se Acabar na Quarta-Feira e achamos que poderíamos tentar algo. Falamos com o Sidney [Gusman, editor da MSP] e ele avisou que não estavam aceitando trabalhos não solicitados. Fizemos o projeto e apresentamos. Foi recusado. Beleza. É do jogo. Eu, porém, não tenho “semancol”. O Manoel desistiu do projeto, mas eu e o Osmarco convidamos o Hollanda. O plot da HQ, em minha opinião, é bom e se sustenta. Assim sendo, reescrevi tudo para contar a história que eu queria desde o início.

Osmarco Valladão: No primeiro encontro do time eu fiquei fascinado não apenas pelo traço do Hollanda, mas porque os conhecimentos dele sobre alguns temas importantes para o projeto complementavam bem os do Octavio…

Octavio Aragão: Hollanda tem um traço muito pessoal, cara. Decidimos que, para essa HQ, ele tentaria algo bem solto, a lápis mesmo, sem finalização. E a cor do Osmarco caiu muito bem! Ficou meio diferente do que se vê por aí.

Poderiam falar um pouco sobre a trama?Warriors-Movie-Poster

Octavio Aragão: Bom, se eu falar muito entrego os segredos! O plot é místico, mas tem relevância social. Fala de reencarnações e guerra de gangues nas comunidades menos abastadas. Fala dos séculos 19 e 21. Tem muita influência de romances que gosto muito: Os meninos da Rua Paulo e Capitães da Areia. E é muito devedor de um filme: Warriors, os Selvagens da Noite.

Osmarco Valladão: Nessa combinação de aventura, preocupação social e misticismo, sinto um sabor do realismo mágico latino. Talvez Jorge Amado…

Octavio Aragão: Digamos que é sobre o crescimento material e espiritual de um bairro/comunidade do Rio de Janeiro. Temos um elemento catalizador, uma pessoa que é o fiel da balança entre os dois extremos em conflito e que tem contas ancestrais a acertar com um mal transcendente.

Carlos Hollanda: A proposta da arte no projeto obedece um bocado à ideia do plot. Apesar dos pedidos do Octavio por um traço mais solto, tentei fazer um meio-termo entre leveza e peso. Leveza com os traços somente a lápis, mas um lápis 6b para intensificar o claro-escuro e a proposta de contrastes.  Muito sol, mas sombras intensas; um anjo protetor e um homem horrendo, um anjo negro, isso é genial! As polaridades. Tudo isso levou ao tipo de traço e o Osmarco fez um milagre com as cores. Eu estava com medo de dificultar a vida dele com isso, mas acabou que ele fez ficar ainda mais bacana.

Octavio Aragão: Sendo que tudo é meio metafórico, certo? Não há “anjos” ou “demônios”, há pessoas.

Carlos Hollanda: Isso, tudo é muito sutil Mas há carga emocional forte. Intensidade.

Osmarco Valladão: O traço do Hollanda na verdade me dava muito espaço para trabalhar, mas precisava sair de certos parâmetros. Por enquanto, já que considero tudo estudo ainda, tenho olhado muito as soluções de Bill Sienkievicz, mas com uma luz mais forte, mas ensolarada.

Octavio Aragão: Estou aqui pensando se vale a pena deixar [o Wilson] vivo depois dessas revelações…

paginas_06-07_color_#4Falando da parte que interessa a todos, como o projeto virá à tona? Web, editoras, independente, crowdfunding?

Octavio Aragão: Olha, se eu pudesse evitar o tal do crowdfunding, evitaria.

Carlos Hollanda: Tá complicado definir um único caminho. O melhor é sempre a parceria com uma boa editora com boa distribuição. Mas o crowdfunding não está de todo fora não. Independência me apraz. Mas acho que o Octavio é quem pode definir melhor. Por mim, o negócio é produzir.

Octavio Aragão: Não gosto de uma característica do crowdfunding: a não visibilidade. Você manda para quem pagou e isso está ok, mas e aquela parada de ver o material em outros lugares, ter o trabalho exposto?  Posso estar sendo pessimista, mas tenho a impressão que isso, em longo prazo, vai matar a entrada de novos leitores.

Mas, Octavio, você não acha que o crowdfunding ajuda na publicação? E, posteriormente, com outras condições, você pode divulgar normalmente.

Octavio Aragão: Ajuda, mas é uma insanidade! Acompanhei o sofrimento do Denis Melo com o Beladona. O menino quase surtou. Repetindo: não sou criança, tenho dois filhos para criar. Não da para roubar o tempo deles para ficar fazendo esse trabalho mix de editora e artista.

Carlos Hollanda: É, esse é o problema. A gente tem que fazer o papel de artista, roteirista, colorista, produtor, publicitário, distribuidor etc. Isso sem contar que tem família, filho, aulas, trabalhos por fora…

Osmarco Valladão: Já lancei um projeto no Catarse que não decolou, mas foi um ótimo aprendizado. Todo o sistema precisa ser refinado, mas eu acredito. Além da independência, pode ser até mais recompensador financeiramente para o autor. Sem que o leitor pague um preço absurdo por isso.

psicopompo4Octavio Aragão: É como restaurante self-service. ODEIO restaurantes self-service. Acho um exemplo bom para o fim da civilização. Esse papo do comensal pagar e ficar na fila, de pé, se acotovelando, pegando uma comida exposta. O Catarse é o restaurante self-service das publicações. Não, obrigado. Eu quero a minha mesa, um garçom, um cardápio decente e um ambiente civilizado. Quando como/faço uma HQ, eu quero concentração. Talvez o ponto seja que não estamos aqui brigando para vivermos disso. Somos profissionais com carreira, família, aluguel. Adoramos HQ, mas estamos nisso pelo prazer, não pela guerra. Bom, ao menos eu estou.

Considerando o que vocês disseram, quais alternativas vocês vislumbram, então?

Carlos Hollanda: Editora independente sempre me pareceu a meta. Mas creio que ainda não chegou a hora. É preciso uma dedicação integral a ela, algo que não seria possível, pelo menos a mim, nesse momento. Web, publicação online… Bom, o objetivo é impresso.

Octavio Aragão: Na real? Não sei qual será a saída ou a alternativa. Estamos fazendo e acho que o trabalho se sustenta. Claro que quero ver Psicopompo tomar forma, virar realidade, mas também não vejo “pressão” nisso. O importante, a prioridade, para mim, é a HQ ser finalizada.

Osmarco Valladão: Não tenho nada contra publicar de formas convencionais, digamos assim. Se uma boa casa se interessar, para mim está ótimo. Mas tenho uma visão mais otimista sobre o financiamento coletivo.

E quando vocês esperam terminar?

Carlos Hollanda: A produção é intercalada com outros trabalhos, portanto, é um pouquinho menos veloz do que gostaríamos.

Octavio Aragão: Creio que em três meses a coisa toda estará bem andada.

Carlos Hollanda: Isso.

psicopompo0Vamos falar sobre o mercado nacional de quadrinhos? Como enxergam o momento atual?

Octavio Aragão: Parece bom, mas sou um desconfiado por natureza. Livros excelentes, mas caros, voltados para um público com dinheiro. Mesmo as HQ infantis andam caras. Há projetos [com bons preços], mas não o suficiente.

Carlos Hollanda: Creio que esta em expansão, mas de um modo muito setorizado. Parece-me que o melhor mercado atualmente é o das HQs autorais. Enxergo as autorais como uma alternativa muito boa não só pra se tornar conhecido do publico, mas para chegar a um mercado que quer algo diferente, estilo, forma, ideia, arte. Quadrinho que satisfaça um público adulto, universitário, cinquentões e coisa do tipo.

Osmarco Valladão: Os temas tipicamente associados ao mangá, como guerreiros místicos e robôs gigantes, acho um saco. Mas os “adultos”, drama ou policial (não confundir com pornografia) são geniais.

Osmarco Valladão: Sobre o momento: muita coisa saindo e isso é estimulante. Mas isso tudo está vendendo? Não sei responder, mas não sou muito otimista. Não sei se estamos criando, salvo honrosas exceções, um mercado que sustente realmente um bom número de autores. A única indústria de quadrinhos efetiva ainda é o Mauricio de Sousa.

Octavio Aragão: Acho que, no fundo, estamos como algumas bandas dos anos 80, tocando para nos mesmos. Mas posso estar enganado, meio míope. E o Catarse, que esta sendo alardeado como a salvação da lavoura das HQs, ainda não me convenceu.

Osmarco Valladão: Concordo com o Octavio. A produção está crescendo, quantitativa e qualitativamente, é um fato. Mas, existem realmente condições (e falo de dinheiro) para uma profissionalização real? Parece que todo mundo faz quadrinhos no final de semana…

Octavio Aragão: Acredita que ainda não recebi nenhum dos projetos que apoiei no ano passado?

Algum recado final, da parte de vocês?

Octavio Aragão: Tem muita HQs nossas vindo por ai, mas a lição que tiro de Psicopompo é “never surrender, mas não com tanta força”. Vai sair e será ótimo, mas sem stress.

Carlos Hollanda: Acho que a turma pode esperar um trabalho caprichado da gente neste e noutros projetos. Somos perfeccionistas e chatos. Desse problema tem que sair alguma coisa boa. Sempre sai.

Osmarco Valladão: Quadrinhos é uma maravilhosa forma de contar histórias que fica na encruzilhada onde se encontram literatura, cinema e artes gráficas. Mas ainda tem vastos territórios a serem explorados, numa missão de quatro anos audaciosamente indo… Mas além de todas as habilidades óbvias, a maior qualidade de um autor nacional de quadrinhos ainda é ser imensa e irracionalmente teimoso.

Bom, para terminar, aproveitem o espaço para deixar seus contatos.

Octavio Aragão: Octavioaragao.blogspot.com . E tem o blog de Psicopompo! Psicopompohq.blogspot.com.

Carlos Hollanda:  hollandaarts.wordpress.com, http://www.historiaimagem.com.br

Osmarco Valladão: Meu portfolio está aqui Wilson: http://osmarcovalladao.blogspot.com.br

Mais uma vez, muito obrigado pela atenção de todos vocês. Sucesso a todos!

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WilsonWilson Simonetto é colaborador do site Chamando Superamigos e da revista Mundo dos Super Heróis. É colecionador de quadrinhos e prestigia todos os eventos nerds que pode, o que já rendeu a ele o apelido de “Homem-Evento”

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2 comentários sobre “Entrevista exclusiva: os criadores de PSICOPOMPO

  1. Muito legal.

    Interessante a visão dos criadores de quadrinhos com os financiamentos coletivos. O que fora do Brasil é o “empurrãozinho” que falta para um determinado projeto decolar é visto por aqui como sine qua non, até porque muita gente tem trabalho de qualidade sem nenhuma outra alternativa de publicação. Curioso pra ver o resultado final de Psicopompo.

    Curtido por 1 pessoa

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