Em defesa dos QUADRINHOS dos anos 1990

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Muitos dizem que nenhuma época foi tão negra para os quadrinhos quanto a década de 1990. Mas será que é verdade?

Por Ben Santana

Theodore Sturgeon, o decano da ficção científica, uma vez declarou que “noventa por cento de tudo é porcaria”.  Ele estava se referindo, obviamente, à ficção científica, mas isso é válido para basicamente todo o entretenimento: romances (de FC ou não), filmes, teatro, música. E é claro, quadrinhos.

Certos leitores tendem a endeusar determinadas décadas, principalmente a de 1980, dizendo que ela foi a última época spider-man-clone-sagados bons quadrinhos. E demonizam a década de 1990. Geralmente, eles sempre lembra de coisas como A Saga do Clone, que durou mais de dois anos (1994-1996) nas revistas do Homem-Aranha ou da ascensão da Image Comics, fundada em 1992, que gerou uma tendência, hã, “estética” que acabou sendo utilizada também na Marvel e DC. Eles lembram de Rob Liefeld.

É verdade, existem coisas dessa época que são indefensáveis. Mas elas se encaixam à Lei de Sturgeon. Esses mesmos leitores esquecem algumas pérolas publicadas na década de 1990, coisas que podem ter ficado fora de seus radares porque eles estavam ocupados demais criticando a saga Terra de Ninguém (1999), dos títulos do Batman, ou todo o fiasco que foi o projeto Heróis Renascem, da Marvel. (1996-1997).

Os anos noventa tiveram uma série de ótimos quadrinhos. Enquanto os medalhões da DC, Batman e Superman, tinham sua espinha quebrada ou eram mortos, respectivamente, títulos espetaculares foram publicados.

90-01O primeiro que vem a mente é The Golden Age (1993), de James Robinson e Paul Smith. Uma história que se passava depois da Segunda Guerra Mundial e mostrava o que se passou com os membros da Sociedade da Justiça. Nela, vemos um Homem-Hora junkie, viciado na pílula Milacro; um Lanterna Verde que foi perseguido pela comissão anticomunista do Senador McCarthy; um Homem-Robô que perdeu o senso de ética humana e se torna muito violento. Apesar de ser rotulado como um “Elseworld” (fora da continuidade regular da editora), The Golden Age foi o ensaio para outra obra de Robinson, possivelmente a sua melhor: Starman.

Starman (1994) é, sem dúvida, o título mais subestimado dos anos 90. E, na minha 90-02opinião, o melhor deles. Robinson e o desenhista Tony Harris pegaram um personagem terciário da DC e simplesmente o transformaram em um dos mais interessantes da editora. Pode ser chamado de “título de legado”, já que mostra a relação entre pai (Ted Knight, o primeiro Starman) e filho (o jovem Jack) em uma espetacular interpretação da jornada do herói de Joseph Campbell. Além disso, Starman usou, sem exceção, todos os StarmEn da editora, conseguindo, de forma brilhante, ligar todos eles pelo mesmo fio condutor. Só por Starman, a década de 90 já não seria perdida. Mas existe mais.

90-03Kurt Busiek escreveu uma das mais queridas histórias da Marvel dos últimos vinte e cinco anos, apropriadamente chamada de Marvels (1994). Longe de ser apenas um veículo para o ilustrador Alex Ross (que era iniciante na época), a série é escrita de maneira espetacular, mostrando os primórdios do Universo Marvel pela visão de um homem comum. Marvels acabou catapultando tanto Busiek quanto Ross ao estrelato.

Eles voltaram ao tema do super-herói visto pela ótica dos meros mortais em Astro 90-04City (1995), da Homage/Wildstorm. Astro City é, acima de tudo, uma declaração de amor à Era de Prata, quase um anti-Watchmen. Para o autor, a graça dos super-heróis é que eles são inverossímeis. E não existe nada de errado com isso.

Saindo dos super-heróis, talvez a editora que mais lançou títulos interessantes na década de 90 foi a Dark Horse. Ela teve diversos quadrinhos licenciados de franquias famosas, que vão de Star Wars até Aliens. Mas a Dark Horse se destacou mesmo com a sua política de publicar quadrinhos autorais. Dois deles merecem destaque: Hellboy (1993), de Mike Mignola,Sin City (1991), de Frank Miller.

90-05Hellboy tem influências assumidas de Lovecraft, dos quadrinhos de terror da EC e da Warren e muito, mas muito mesmo, folclore e mitologia. Mignola conseguiu transformar um personagem que é (sem tirar nem por) um demônio em um herói. A série gerou dois filmes, dirigidos por Guillermo Del Toro. 

Sin City, de Miller, é uma homenagem ao cinema e à literatura noir. É impossível não 90-06ver influências de Raymond Chandler e Ross MacDonald. Feita em belíssimo preto e branco e pontuais toques de cor, Sin City é tudo que Miller sempre quis fazer, desde que começou a escrever e desenhar o Demolidor para a Marvel. É uma grande brincadeira com os romances de detetives durões e gerou também dois filmes, dirigidos por Robert Rodrigues e o próprio Miller.

90-07Mas, antes de Sin City, Miller havia escrito Hard Boiled: À Queima-Roupa (1990) para a mesma Dark Horse. Com os desenhos insanamente detalhistas de Geoff Darrow, a minissérie em três números foi publicada em formato de álbum, o que permitia a melhor visualização da intrincada arte de Darrow. Essa mistura de ficção científica e história policial é injustamente esquecida por muitos.

Os anos 90 também foram pródigos em experimentação. A Vertigo, um selo da DC 952344-10Comics, foi criada em 1993. Além de anexar alguns títulos já existentes e que eram dedicados a leitores maduros, como Sandman e Monstro do Pântano, a Vertigo produziu uma série de novos títulos, a maioria deles pertencentes aos próprios autores, como Os Invisíveis (1994), de Grant Morrison.

Foram criados também subselos, como o Vertigo Voices (que dava ainda mais liberdade aos autores) e a Vertigo Verité (que trabalhava com os temas além do sobrenatural, associado desde sempre à Vertigo).

Em 1996, a DC  lançou o selo Helix, dedicado a histórias de ficção científica. Autores famosos da literatura desde gênero, como Michael Moorcock e Lucius Shepard, foram convocados para produzir histórias para o novo imprint que, infelizmente, teve uma curta duração.

Daredevil_by_Joe_Quesada_by_J_MaceEm 1998, foi a vez de a Marvel Comics lançar também um novo selo, o Marvel Knights, através da terceirização de vários títulos (Demolidor, JusticeiroInumanos e Pantera Negra) para a Event Comics, de Joe Quesada e Jimmy Palmiotti. Os novos títulos deram tão certo que Quesada logo seria elevado ao posto de editor-chefe de toda a Marvel.

Existe muito mais: Bone (1991), de Jeff Smith, uma homenagem a Carl Barks e Walt coleco-marvel-salvat-vingadores-eternamente-parte-1-713201-MLB20286273274_042015-OKelly (autor de Pogo); Vingadores Eternamente (1998), de Busiek, Roger Stern e Carlos Pacheco, uma das melhores histórias do grupo de todas as épocas (trocadilho intencional); e Arma X, de Barry Windsor-Smith (1991), a história definitiva do hoje aclamado Wolverine. A lista é grande.

Mas o fato é que a década de 1990 é injustiçada por nove entre dez fãs. Mais uma vez, a Lei de Sturgeon é facilmente aplicada. Não é apenas os anos 90 que tiveram coisas horríveis sendo publicadas. Os oitenta também, os sessenta… Todas as décadas tiveram coisas boas e coisas ruins nos quadrinhos.

Então, a próxima vez que escutar (ou ler) por aí que “os anos 90 foram a pior década para os quadrinhos”, lembrem-se do que leram aqui. Apostamos que tem muita coisa nesta lista que você gosta.

BenBen Santana nasceu no final da Era de Prata, mas cresceu na Era de Bronze. Professor, tradutor e desocupado (quando sobra tempo), vem lendo e pesquisando quadrinhos desde sempre. Seu blog é http://prataebronzecomics.blogspot.com.br

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10 comentários sobre “Em defesa dos QUADRINHOS dos anos 1990

  1. Foi uma pena que no Brasil a maioria dessas boas histórias noventista foram mal publicadas a maioria em pequenas editoras sem periodicidade definida e mal distribuídas.Ficavam restritas apenas a São Paulo e uma ou outra aparecia de forma bem irregular em outras praças brasileiras.Metal Pesado,Magnum Force,Mythos,Editora Globo,Pandora Books,Brainstore,foram as editoras da maioria dessas boas histórias enquanto a editora abril só publicava o filão da Marvel/Dc e não se importava com estas histórias,acho que eles publicaram Marvels que faltou o especial Marvels 0 e o Reino do Amanhã porque era do primeiro time da Marvel e da Dc porque senão acho que teria saído por outra editora menor e daquele jeito mal feito,caro e mal distribuído.Memorias de que passou de 1990 a 2000 comprando tudo e qualquer revista que saía nas bancas,não tinha internet,não tinha celular,facebook,watssap,mas eu era um nerd feliz…

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  2. Grato, pessoal. MUITA coisa faltou aí. Mas é isso mesmo… coloquei um bom número de obras no texto, mas mesmo assim outras coisas são lembradas. Então… Os Anos 90 foram tão ruins assim?

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    • Os anos 90 foram muito bons sim! Provavelmente, foram os heróis tradicionais e a falta de criatividade da Marvel e DC é que deixaram essa suposta marca negativa da década. Foram nos anos 90 que essas editoras alternativas ou braço alternativo das editoras Marvel e DC inovaram os quadrinhos. A distribuição irregular de graphic novels e minisséries também foram pontos que prejudicaram a apreciação de ótimas obras!

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  3. Concordo com vc quando diz que coisas ruins existiram em todas as épocas. Acho que o fato mais marcante nos anos 90 nos EUA é que os leitores muitas vezes compravam 4 ou mais revistas por mês para acompanhar uma saga em que desciam o pau todo mês na sessão de correspondência, fazendo com que o período só perdesse em vendas para a era de ouro dos quadrinhos. Acho que nunca antes ter um artigo de colecionador era tão ou mais importante que apreciar uma boa história.

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