Entrevista exclusiva: MIKE DEODATO, sua carreira, planos na MARVEL e a polêmica com TEX

deodato tex

Brigas, acusações, xingamentos. Em meio a uma exaltada troca de e-mails com um editor da Bonelli, Mike Deodato desistiu de desenhar o caubói Tex. Em nossa entrevista, conversamos com o artista sobre essa questão, sua carreira, a influência de seu pai e perguntamos se ele não tem medo que o considerem mercenário

Por Wilson Simonetto

IMG_2216b-1024x682É difícil achar um leitor de quadrinhos que nunca tenha ouvido falar de Mike Deodato Jr. Esse paraibano de 51 anos, nascido Deodato Taumaturgo Borges Filho, hoje pode se gabar de ser um artista renomado, com contrato de exclusividade com a poderosa Marvel Comics, para a qual já desenhou Os Vingadore, Homem-Aranha, Thunderbolts, Hulk e diversos outros personagens. Recentemente, Deodato esteve no centro de uma polêmica com a editora italiana Bonelli,  envolvendo sua possível participação em um álbum de Tex. Embora Deodato tenha demonstrado grande interesse em realizar um projeto com o caubói, as negociações com a Bonelli não deram certo principlmente por questões financeiras. Falamos sobre essa polêmica e muito mais, incluindo seus novos projetos, em um papo exclusivo. Divirtam-se.

Início da Carreira

Mike, antes de mais nada, muito obrigado por esta oportunidade.

É um prazer.

Primeiro, fale um pouco sobre o início de sua carreira e a influência inicial de seu pai, o também artista Deodato Borges, falecido em 2014 .A história da paraíba

Painho para mim é tudo, foi e ainda é a figura mais importante da minha carreira. Ele tentou viver de quadrinhos, mas não conseguiu. (Entre outros, Deodato Borges criou a revista As aventuras do Flama, em 1963).  Ele sempre comprava gibis para mim, quando era criança e, me ajudou a publicar fanzines, quando comecei, já que era uma ótima maneira de crescer como artista, publicando seu material. Meu primeiro trabalho pago foi A História da Paraíba em Quadrinhos, que foi uma idéia do meu pai. Na época, parei meu curso de comunicação e não voltei mais, já que não estava gostando mesmo, principalmente pela pressão de ser filho de Painho, que era muito conhecido.

300anosdepoisE como sua carreira deslanchou?

Ah, com certeza foi com 3000 anos Depois, que foi um divisor para mim. Fiz esse álbum de ficção científica –[em 1985], e enviei um exemplar para o Ziraldo, que era presidente da Funarte, esperando receber alguns elogios. Para minha surpresa, recebi um convite para participar da bienal de Angoulême, na França [a 13ª edição, em 1986]. Participar do evento, junto com Ziraldo, Luis Gê, Mauricio de Sousa, os irmãos Caruso, todos gênios, foi importante demais, principalmente psicologicamente. Foi um balde de confiança, fiz contatos na Europa, e tive o álbum publicado na Alemanha. Achava que iria viver de quadrinhos. Mas a realidade não foi bem assim, não falava inglês na época e, após a volta ao Brasil, perdi os contatos que fiz. Assim, fui aceitando tudo quanto era trabalho nas editoras do Brasil, ganhando pouco, até mais ou menos o ano de 1988. Ia casar e, como recebia pouco por quadrinhos, fechei a prancheta e fui trabalhar em jornal e agencia de publicidade, mas sabia que era questão de me organizar.

Artista Internacional

E como foi que você voltou para os quadrinhos?

Quando vi que estava estabilizado, comecei a desenhar nas horas vagas. Aí, em 1991, apareceu a Art & Comics. O Hélcio Noite+Mortal+-+Santa+Claws[de Carvalho] deve ter visto algum trabalho meu na época e perguntou se eu queria fazer um trabalho para os Estados Unidos [Santa Claws, a Editora Malibu, lançado como Noite Mortal no Brasil]. Depois que fiz esse trabalho, surgiram mais convites, para Malibu e para outras editoras nos EUA, como Innovation, Thundra, Continuity. Foi nessa época que surgiu o nome Mike Deodato Jr., por sugestão do editor, que acreditava que nome brasileiro não era bom no mercado. Ah, como curiosidade: Painho me chamava de Datinho.

Como foi trabalhar com Neal Adams, na Continuity, já que ele é uma lenda dos quadrinhos?

Ele é meu ídolo, mas não tive nenhum contato com ele na época. A primeira e única vez que encontrei com ele foi em 2012 e, fiquei bem receoso, pela lenda de ser exigente que ele tem. E ele disse que gostou do meu trabalho. Poxa, foi como ganhar um  Eisner, fiquei nas nuvens. Mesmo hoje em dia, ainda consigo absorver coisas dele, ele dá de dez em um monte de artistas.

E falando em “lendas”, como foi trabalhar com Rob Liefeld, em Glory?

Bom, tive vários problemas com Liefeld. Meu nome ou do meu estúdio eram colocado em várias revistas, mesmo quando eu náo estava envolvido e sem me pagar royalties. Durante muito tempo fiquei bem chateado, mas depois analisei a situação e relevei.  Eu mesmo resolvi me aproximar dele. Respeito ele, por ter continuado firme e forte, mesmo com várias críticas ao seu trabalho.

WWComo foi atingir o estrelato? E a sua “queda”?

O que catapultou minha carreira foi o trabalho em Mulher-Maravilha [em 1994]. Foi o auge da minha carreira e e durou até 1996. Depois fui aceitando vários trabalhos, sem critério, muitos feitos pelo Deodato Studios, por outros artistas contratados, o que trouxe uma superexposição. Boa no começo, mas que atrapalhou depois. Eu aceitava todo trabalho que aparecesse e, a qualidade do trabalho não era a mesma, me perdi e, a partir de 1998, ninguém me queria mais.

E como você se reencontrou?Avengers

Por volta de 2000, eu vi que precisava mudar. Então aprendi inglês, troquei de agência e passei a controlar minha carrreira. Hoje levo a vida de forma tranquila e posso ajudar a familia. Tô de boa, tentando trazer minha filha para o lado negro da força, ou seja, os quadrinhos. A idade traz tranquilidade, o trabalho tem que ser algo agradavel, algo que satisfaz.

Quais são seus planos na Marvel?

Pois é, agora encerro agora minha participação em Vingadores. Devo ser um dos desenhistas que mais trabalhou com os Vingadores, devo estar perdendo por pouco para o John Buscema (risos). Agora estou envolvido com Guardians of Knowhere, com Brian Michael Bendis, uma mini série em 5 partes, que sairá em junho. Trabalhar com ele  é sempre muito bom, existe um respeito muito grande um pelo trabalho do outro. Ele é bem generoso, tive a oportunidade de passar um dia com ele e a família.  Dos autores, é o que sou mais amigo.

deodato guardians-of-knowhere-02Como é seu processo de trabalho na Marvel. Te dão muita liberdade?

Hoje em dia não faço mais layout, tenho total liberdade de criação. Também, se apontam alguma correção, corrijo sem bufar. As vezes, com interpretação de texto, ocorre alguns probleminhas. Como por exemplo, uma vez que Bendis pediu um Multi Arm Spider-Man (um Homem-Aranha com muitos braços) e eu mandei um Homem Aranha armado (risos).

O problema com a Bonelli

Bom, vamos falar da Bonelli. O que ocorreu?

Sou fã de faroeste. O personagem que eu mais gosto é o Ken Parker, mas Tex, embora não seja um fã, representa um deodato texícone do genêro.  Ele tem histórias medianas comparadas com as do Ken Parker.  Mas, depois que vi a versão do Tex pelo Joe Kubert, vi que algo podia ser feito com o personagem. Estava em Lucca, em novembro passado, e pensei “Puxa vou falar com uns amigos meus que tinham contato com o editor da Bonelli, Mauro Boselli”. Aí arranjaram um encontro com esse filho da puta. Eu perdi o encontro, pois estava doente, foi a primeira vez em 30 anos que perdi um encontro. Aí a conversa foi por email mesmo e também telefonema. No meio dessas conversas, ele explicou os royaties e o pagamento, disse que pagam somente para criador e apenas a partir da segunda edição.

Ele falou os valores, que eu imaginava serem mais altos. Descobri que os caras top dele ganhavam menos que eu. De qualquer maneira, ele demonstrou que não me conhecia, e disse que precisava de amostras. Fiz mais de 20 amostras de graça, Devido ao contrato de exclusividade que tenho, falei com a Marvel, pedi uma exceção, para fazer nas horas vagas e, eles concordaram. Então, ele simplesmente cortou bruscamente a conversa. Foi uma falta de respeito, ele sempre queria ser o rei da cocada preta. Mas ele passou da conta. [Quando Boselli trouxe à publico a negociação entre eles. Segue o link em inglês: http://www.bleedingcool.com/2015/03/24/mike-deodato-vs-mauro-boselli-over-tex-the-e-mails]

E daí?

Ele se fudeu. Eu falei com o site Bleeding Cool e perguntei se eles estavam a fim de uma notícia e foi quando saiu na íntegra toda a discussão [aqui o link em inglês: http://www.bleedingcool.com/2015/03/25/mike-deodato-addresses-regarding-sergio-bonelli-editore ]. Embora minha reputação tenha sido afetada nesse episódio, também aumentou o respeito para comigo, em função do tratamento recebido. Eu sou a pessoa mais calma do universo, não tenho histórico de brigas, mas não me arrependo um segundo do que fiz, já que o cara é um fia da égua, fia da puta quenga e acha que pode tudo. É um escritor mediocre, que tem seus fãs lá na Itália. De qualquer forma, foda-se a Bonelli nesse episódio.

E sobre a sensação de que você foi mercenário? Qual sua opinião?

Olha, eu passei o valor e seria simples receber um “não”, como já ocorreu em outras oportunidades. Simples assim. De qualquer forma, nunca mais quero a Bonelli na minha vida. Foda-se se rolar processo.

O Futuro

Quais outros personagens que você gostaria de desenhar? E você faria o mesmo approach que com a Bonelli?

Tem vários. Tarzan, Conan, Principe Valente, Jonah Hex, Morcego Humano, Monstro do Pântano. E claro que faria o mesmo tipo de negociação.

Como você vê o mercado nacional atual?

Acho que tá num momento ótimo, novas editoras, eventos de quadrinhos, vemos até brigas de convenções. É um momento muito bom mesmo. Criativamente, temos muitos talentos, que acompanho sempre on line, ou quando alguém me envia o release e eu compro digital. E parece que muita gente está interessada em material novo, como a gente pode ver pelo Catarse e Kickstarter. Mauricio de sousa é um exemplo, um líder no mercado, que deu uma guinada com os projetos mais adultos, com uma geração nova de desenhistas, MSP 50 são uma vitrine para muita gente.

Pode falar um pouco sobre alguns de seus projetos autorais?deodato 1

Bom, eu pensei no quanto alguns artistas de minha geração evoluíram, como o Roger Cruz, e minhas mudanças ficaram dentro do meu trabalho. Aí, pensei que tinha que fazer algo. Então, abri um blog (http://mikedeodatojr.tumblr.com/) e, sempre que terminava meu trabalho, começava a trabalhar nele. Vi que tinha algo lá, adormecido. Pretendia um dia lançar via catarse, mas não me sentia confortavel com isso. Aí pintou a chance de publicar. A editora Mino [criada em 2014] estava trabalhando no Lavagem, com o também artista paraibano Shiko Chico. Quando eles vieram para João Pessoa, me procuraram, já que Shiko me conhece. Eles queriam publicar material antigo e, conversa vai, conversa vem, falei porque não publicar o Blog de Quadros? Eles toparam e Quadros será lançado em Julho, na Fest Comix e, minhas histórias antigas sairão no final do ano, provavelmente. Fora as histórias do blog, criei mais duas histórias inéditas.

Me identifiquei com o respeito e a falta de respeito que demonstraram comigo (risos). Além da confiança, gostei das soluções de design deles, com alguns formatos diferentes de desdobramento de páginas.  Já 3000 Anos Depois sairá via Franco de Rosa, pela Ópera Graphica. Eu falei para ele: “Vamos fazer e agora vai, com capa nova, duas paginas duplas, para me mostrar desenhando, mostrar as diferenças entre antigamente e agora. Pela Criativo será lançado um novo sketchbook e, finalmente, lançarei também um trabalho autoral, que não posso comentar ainda.

Realmente você é um cara que já enfrentou muita coisa em sua vida e sua carreira. Quer dizer mais alguma coisa para encerrar?

Eu espero sempre que minha última obra seja sempre a melhor obra. Mas se vier porrada e eu cair, eu sei que aguento mais. Quero ser o melhor, me dedicar. Elogio é bom, mas tem que tomar cuidado. Miro sempre no melhor e espero pelo pior, posso não ser um genio como um Eisner, mas sou insistente. A vida é assim, tem que pegar o pior da situação e tirar o melhor.

Muito obrigado, Mike.

WilsonWilson Simonetto é colaborador do site Chamando Superamigos e da revista Mundo dos Super Heróis. É colecionador de quadrinhos e prestigia todos os eventos nerds que pode, o que já rendeu a ele o apelido de “Homem-Evento”

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