A mais estranha GUERRA dos QUADRINHOS!

foto08

Conheça a revista em quadrinhos que mostrou que a guerra pode ser uma coisa do outro mundo

Por Ben Santana

“A Guerra é um Inferno”.

A frase, atribuída ao General Sherman, que lutou do lado da União na Guerra Civil americana é, claro, verdadeira. A guerra (chamado de “a diplomacia por outros meios”, segundo Clausewitz, um militar prussioano) é o momento mais barbárico da humanidade. Mas a mesma humanidade gosta da guerra. O amor por essa filha de Marte é histórico.

foto01E o entretenimento a adora também. Livros e filmes sobre conflitos foram escritos, alguns usando-o apenas como um pano de fundo. Outros a mostraram  como um elemento transformador. Uns a negaram da forma mais peremptória. Outros ainda a idealizaram. A Glória de um Covarde (1895), de Stephen Crane, mostra como ela transforma covardes em heróis. Nada de Novo no Front (1929), de Erich Maria Remarque, mostra a dificuldade dos soldados que voltam à sua terra depois de um conflito e como é quase impossível retornar a vida que existia antes. A guerra, parece, é como um vírus, que depois de inoculado, não sai nunca mais do sistema de uma pessoa, como mostrado em O Franco Atirador, filme 1978 dirigido por Michael Cimino. 

Obviamente, os quadrinhos também a mostraram. Até hoje o fazem. Exemplos mais foto02famosos são as propagandas americanas da época da Segunda Guerra Mundial. Personagens que estão aí até hoje foram criados por causa dos conflitos. O Capitão América, da Marvel, é o melhor exemplo. Obviamente, ele é a encarnação do desejo americano de vencer, levantar o moral das tropas e, principalmente, o moral daqueles que ficaram em casa.

Mas, desde que a Segunda Guerra Mundial começou, surgiram várias antologias que mostravam os feitos dos soldados em terras estrangeiras, em luta pela democracia, liberdade e o estilo de vida americano. Era típico da época. O curioso é que o grande boom dos quadrinhos de guerra aconteceu depois da Segunda Grande Guerra. Afinal, os americanos estavam para entrar em mais um conflito, dessa vez na Coréia.

Esses quadrinhos eram, é claro, propaganda. Mas vendiam muito bem. Assim como os filmes de Hollywood no período que mostravam que o esforço de guerra era o que importava, que cada bala contava, assim também ocorreu com os quadrinhos.

foto03A DC foi uma das editoras que mais investiu nas histórias de guerra. Títulos como Our foto04Army at War (1952),  Our Fighting Forces (1954) e Star Spangled War Stories (de 1952, quando foi renomeada da Star Spangled Comics, um título de super-heróis) venderam bem o suficiente para garantir uma longa vida. Eles foram publicados até o final dos anos setenta. Além disso, a GI Combat, que inicialmente era da Quality Comics, foi adquirida pela DC logo em 1957. A editora tinha nada menos que quatro antologias de guerra nos anos 50!

Nesses títulos, heróis galantes, membros de unidades de elite e simples soldados mostravam como uma guerra deveria ser travada, com um espírito quase que dos romances de cavalaria, onde a honra é sempre o mais importante.

foto05Mas, na metade da década de sessenta, a percepção da guerra havia mudado. O Vietnã chegou, foto06colocando os rapazes americanos em sacos pretos e envoltos na bandeira americana na sala de estar dos seus pais. O Vietnã  foi a guerra que desglamourizou todos os conflitos, aquela que mostrou que a guerra é, sim, um inferno. A Blazing Combat!, da Warren (lançada no Brasil como Combate Inglório, pela Gal Editora), em sua curta e polêmica existência mostrava que a guerra era algo que deveria ser evitado, e não tratada como uma justa entre cavaleiros medievais, saídos de um livro ilustrado da época vitoriana. A guerra é suja.

A Mais Estranha das Revistas de Guerra

foto07A DC sempre foi, na minha opinião, a casa das antologias. Histórias curtas, de oito páginas. Rápidas de serem lidas e, entre elas, algumas eram verdadeiras joias. E não apenas de guerra: a editora tinha duas grandes antologias de terror, a House of Mystery e a House of Secrets, revistas que estavam no mercado e faziam sucesso desde os anos 50.foto08

No começo da década de 1970, quando o famigerado Comics Code começou a ter menos peso, a editora decidiu fazer uma série de experiências. Em uma delas, simplesmente decidiram unir os dois dos gêneros, guerra e terror. Surgiu então a revista Weird War Tales, em setembro de 1971.

A ideia era mostrar o lado mais bizarro da guerra. Como dito acima, o famigerado Comics Code havia se tornado mais leniente na época, revisando alguns dos parâmetros estabelecidos duas décadas antes (como o uso de lobisomens, vampiros e monstros em geral). Isso permitiu que Weird War Tales tivesse histórias mais “maduras” que, por exemplo, a decana GI Combat.

foto09Os elementos de horror foram os que mais apareceram nesse título. Já na capa do foto10primeiro número vemos a Morte, vestida como um soldado nazista e atacando os soldados americanos.  Lá dentro, os conhecidos artistas e escritores de quadrinhos de guerra Joe Kubert, Russ Heath e Bob Kanigher produziram novas histórias curtas, complementadas por republicações de histórias já publicadas pela editora em Star Spangled War Stories.

A Morte, sempre vestida em algum uniforme, tinha o mesmo papel que o Tio Creepy ou o Primo Eerie, nas publicações da Warren. Ela era a anfitriã do título, e introduzia as histórias.

O título foi, por exemplo, onde Walt Simonson teve sua primeira história publicada, foto11“Cyrano’s Army” (O Exército de Cyrano),  no número 10 (1973). Ou a primeira colaboração de Roger McKenzie e Frank Miller (que viriam a trabalhar juntos novamente na revista do Demolidor), no número 68 (1978). A história, de duas páginas e sem diálogos se passa depois de uma guerra nuclear e seu personagem principal é uma barata  que sobreviveu ao holocausto. Essas histórias curtas apareciam com o cabeçalho de “The Day After Doomsday” (O Dia Após o Dia do Juízo Final) e mostravam sobreviventes do apocalipse nuclear. Lembrem-se que a publicação acontecia durante a época da Guerra Fria, quando o medo de uma hecatombe era real. E justificado.

foto12Próximo ao final do título, alguns personagens fixos começaram a aparecer em Weird War Tales. No foto13número 93 (1980), temos a bizarra “Creature Commandos” (Soldados Monstros), de JM Dematteis e Pat Broderick, que reunia monstros como um vampiro, um lobisomem e a criatura de Frankenstein na época da Segunda Guerra Mundial. No 101 (1982), somos apresentados a GI Robot, um robô que combatia os japoneses no Pacífico. Outra série que voltou brevemente na Weird War Tales foi “The War that Time Forgot” (A Guerra que o Tempo Esqueceu), que originalmente era publicada na Star Spangled War Stories.

O título durou 124 números, de 1971 a 1982. Como todas as antologias, tinha material de variada qualidade. Mas muita coisa interessante foi publicada nesse título.

O Retorno

Em 1997, a Vertigo lançou uma minissérie em quatro números com histórias de Brian Azzarello, David Lloyd, Peter Kuper, Grant Morrison, Frank Quitely, Richard Corben, entre outros. Uma outra edição one-shot saiu em 2000 pela Vertigo, com os talentos de Paul Pope, Garth Ennis e Greg Rucka. E em 2010, ainda outro especial, dessa vez com histórias de  Darwyn Cooke, Ivan Brandon e Steve Pugh.

O título é muito bom para ser deixado de lado, e volta e meia ele aparece de alguma forma. Assim como o seu “irmão” a Weird Western Tales. Mas isso é, literalmente, uma história para outra hora.

foto14 foto15 foto16 foto17

Serviço

Aqui no Brasil, algumas histórias da Weird War Tales foram publicadas pela EBAL em Terror em Combate, que durou doze números, entre 1979 e 1980.

Nos EUA, os primeiros 21 números foram encadernados em Showcase Presents Weird War Tales (2012). As vinhetas “The Day After Doomsday” apareceram em Showcase Presents: Atomic Knights (2014). E as histórias de Steve Ditko para o título foram reimpressas em Steve Ditko Omnibus (2011). Finalmente, as histórias de “Creature Commandos” ganharam seu encadernado com o mesmo título em 2014.

BenBen Santana nasceu no final da Era de Prata, mas cresceu na Era de Bronze. Professor, tradutor e desocupado (quando sobra tempo), vem lendo e pesquisando quadrinhos desde sempre. Seu blog é http://prataebronzecomics.blogspot.com.br

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s