MAD MAX, MANARA e BATGIRL: Por que damos atenção a quem reclama, mas não sabe do que está falando?

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Defender ou criticar àqueles que reclamam de uma obra de arte, mas são ignorantes de seu contexto, muitas vezes se torna um incentivo à censura

Por Maurício Muniz

Dizem que não tem nada que faça mais sucesso na internet que sexo e fotos de gatinhos. Mas esquecem de algo que talvez vença em popularidade: uma boa polêmica. E neste mundo com tanta gente que faz questão de ofender-se com qualquer coisa, é raro o dia em que não apareça uma nova controvérsia na tela do computador. E as polêmicas mais idiotas geralmente são aquelas ligadas à cultura pop.

mad max posterRecentemente, um site machista e de pouca expressão chamado Return of the Kings, publicou um texto no qual conclamava os seus leitores a evitar o filme Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller, alegando que a produção seria apenas uma peça de propaganda feminista que colocava o herói do sexo masculino em segundo plano. Mas, em vez de essa campanha furada e estapafúrdia ser solenemente ignorada como deveria, aconteceu o contrário. De repente, ela foi comentada em todo lugar:  em sites bacanas, em sites nem tão bacanas, em portais de jornais, revistas, redes sociais etc etc etc, com comentários inconformados com aquilo que o Return of the Kings pedia. Houve tanto choro e ranger de dente sobre essa questão, que fiz o que muita gente deve também ter feito: fui pessoalmente até o tal site machista para checar o que esses idiotas andavam escrevendo, qual era o discurso deles e porque se sentiam ameaçados por mulheres surgirem como protagonistas em um filme de ação.

(Pois é… imagino que tantos textos revoltados devem ter chamado muito a atenção para o site e devem ter aumentado bastante seu tráfego. Se havia algum conspirador machista perdido por aí e que ainda não o conhecia, agora deve ter achado sua turma, graças ao destaque que a campanha dos malucos recebeu. Parabéns, internet!)

De qualquer maneira, quando entrei no site e comecei a ler o texto que conclamava todos a não verem Mad Max, quais foram as duas primeiras coisas que notei?

A primeira, foi que eles reclamavam do filme após ler comentários sobre ele em matérias de algumas revistas. O autor do texto e os responsáveis pelo site nem mesmo tinham visto o filme ainda! Mas isso, claro, não os impediu de opiniar que a produção era feminista, diminuia os homens e tudo mais que suas mentes transtornadas acreditavam. Eles falavam sobre algo que, na verdade, nem conheciam, que não tinham experimentado em primeira mão! E quando notei isso, parei de ler o texto na mesma hora. Esses caras nem sequer tinham argumentos para defender suas ideias idiotas se nem viram pessoalmente a obra que comentavam.

A segunda coisa que notei, foi esta:Mad Max Imagem 1

Pois é. Bem ao lado do artigo contra Mad Max: Estrada da Fúria, havia um anúncio da Warner para o filme. Sim, o dono do site nem deve saber que esse anúncio específico aparece lá. Ele só programou um algoritmo para mostrar anúncios aleatórios, como tantos outros sites na internet. Mas ali estava a própria antítese do que ele pregava: “Não assista o filme, mas clique no banner do filme para que eu possa ganhar algum dinheiro”. Ridículo? Sem dúvida. E mais um exemplo de que quando alguém pede a proibição ou o boicote a um filme, história em quadrinhos, série de TV, ou livro, geralmente não sabe do que está falando.

E a Internet dá toda a atenção esse pessoal.

A Cruzada da Semana

Vivemos em um mundo no qual as pessoas gostam de se mostrar ofendidas. Um sujeito qualquer que não conhece o contexto de uma obra de arte, vê algo que não gosta e resolve reclamar. E, com seu discurso, convence outros tantos de que está certo. E esses, geralmente tão desinformados e ignorantes quanto o primeiro, adotam de coração a opinião do primeiro desinformado como se fosse a sua própria opinião, pois sentem que precisam se aliar a uma causa, precisam se unir à luta quixotesca da semana para ganharem voz, para serem notados. Precisam se mostrar alinhados a seus amigos mais próximos, que também pensam da mesma maneira.

Exemplos não faltam de que isso ocorre constantemente. Quer alguns, recentes?

SPIDERWOMAN001Manara-06299-600x853A capa da Mulher-Aranha por Milo Manara: o mundo caiu de pau sobre a Marvel quando apareceu na internet a capa sensual de Manara para uma heroína menor da editora. “Não tem a ver com a revista”; “Objetifica a personagem”, “Está sensualizando em vez de empoderar”, “A posição em que ela está é impossível”. É, talvez. Mas eu daria mais ouvidos a essas críticas se não fossem dirigidas a uma capa variante, que seria impressa apenas mil ou duas mil vezes (se tanto) nos EUA. Ninguém seria obrigado a comprar aquela capa. E eu também daria ainda mais ouvidos se as críticas viessem de pessoas que ao menos conheciam a personagem, sabiam quem ela era – em grande parte, não foi o caso. Para piorar, muitas críticas feitas em sites mundo afora foram no sentido de “Quem é esse cara, que nem sabe desenhar mulheres direito?” ou “É isso que acontece quando colocam um homem para desenhar um corpo feminino”. Ou seja: gente que nem sabia quem era Manara, que não conhecia seu estilo, o criticava por fazer algo que ele faz há 30 anos: desenhar mulheres em poses sensuais. Mas o contexto não importa, o importante é achar algo para reclamar, certo?

O seriado Lúcifer: um grupo norte-americano, chamado One Million Moms, começou um abaixo-assinado para que o novoLucifer-Red-Eyes-600 seriado da Fox, baseado em uma HQ da Vertigo sobre as experiências de Lúcifer na Terra, seja cancelada pois “subverte a fé cristã e apresenta o demônio sob uma ótica positiva”. Aposto que você poderia encher um estádio de futebol com esse “milhão de mães” e perguntar a elas quem leu a história em quadrinhos original e nenhuma delas iria levantar a mão. Nenhuma delas sabe que Lúcifer é um quadrinho premiado e muito bem escrito. Porque é sempre mais fácil reclamar e xingar e censurar algo que você nem sequer vai se dar ao trabalho de conhecer ou saber a origem.

Alan ScottAlan Scott, o Lanterna Verde que foi reinventado como homossexual: essa, todo mundo viu. Alguns preconceituosos não suportaram a ideia de que Alan Scott, um personagem que foi hétero por 70 anos, pudesse ser reinventado como gay. Mas veja: ele não se descobriu gay de uma hora para outra, ele teve seu passado apagado, deixou de existir, e se transformou em um personagem diferente que habita outra realidade. E nessa realidade, ele era gay. Simples assim. Ou, ao menos, deveria ser. Mas um monte de “fãs” reclamaram antes mesmo de saber qual era o contexto dessa reinvenção, antes de lerem as histórias nas quais ele voltaria a aparecer.  Onde todos esses fãs ardorosos estiveram durante anos, já que nunca reclamaram que o personagem nem mesmo teve um título regular por décadas, não se sabe. Mas mobilizaram a internet com seu preconceito sobre uma obra que nem havia sido lançada ainda.

A capa da Batgirl com referência à A Piada Mortal: essa é uma das favoritas na minha lista de “Hein?!” Mais uma vez, batgirl-joker-2era uma capa variante que teria poucas cópias impressas. Até que a DC a divulgou e, de repente, alguém achou que ela mostrava a personagem da Batgirl fragilizada, até com a insinuação de que pudesse ser violentada. Pra ser sincero, não gosto muito dessa capa e, se tivesse a oportunidade, não a compraria – mesmo se sou grande fã do trabalho do Raphael Albuquerque. Mas a maioria, a enorme maioria que reclamou da capa, não sabia que ela era uma capa variante ou que fazia referência a A Piada Mortal de Alan Moore e Brian Bolland. E muitos disseram que “Um herói masculino nunca é mostrado fragilizado assim nas capas dos gibis”, o que é um óbvio indício que de não acompanham o mercado de quadrinhos muito de perto, porque diversas capas já mostraram seus heróis em situações vulneráveis ou nas quais são vítimas de violência – confira uma pequena amostras de capas assim logo abaixo.

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Mas o pessoal queria mesmo é reclamar sem ter o contexto e defender a premissa de que a capa não se adequava ao conteúdo da revista. Mas, diabos, capas variantes quase nunca têm a ver com o contexto da revista! E todo mundo que pediu que a capa não fosse lançada por não se adequar ao conteúdo, conhecia mesmo a revista?

(Acredito que não e tenho um exemplo prático. No último Festival Guia dos Quadrinhos, a questão dessa capa surgiu durante um debate sobre o papel dos super-heróis no mundo atual. Havia cerca de 50 pessoas presentes durante o debate e perguntei a elas:

– Quem aqui concorda que a capa da Batgirl 41 pelo Raphel Albuquerque não é adequada ao conteúdo da revista?

20 ou mais pessoas levantaram a mão.

Em seguida perguntei:

– Quem, entre vocês, a revista da Batgirl?

Apenas 5 ou 6 levantaram a mão.

Então como os outros 15 – que tinham levantado a mão antes, mas agora admitiam não ler a revista – sabiam que a capa não era adequada? É claro que não sabiam. Só entraram na onda dos protestos internéticos e concordaram com o argumento de quem dizia que não era adequada. Mas eles mesmos não foram investigar a questão. Sabe como é, isso daria muito trabalho, né?)

Não é de hoje

Casos de reclamações sobre obras de arte não são novidades. E as mais contantes parecem ser das pessoas que nem se dignam a conhecê-las ou acreditam que um artista não deveria ter a liberdade de se expressar sobre algo.

life-of-brianOs membros do Monty Phyton sofreram protestos de várias camadas da sociedade e foram ameaçados de excomunhão quando lançaram o filme A Vida de Brian, de 1979, percebido por muitos como uma paródia à vida de Jesus Cristo! O filme, hoje considerado uma obra-prima do humor, quase foi proibido na Inglaterra.

Outro filme que satirizava conceitos divinos, a comédia Dogma, dirigida por Kevin Smith em 300px-Buddy_christ1999, sofreu uma forte campanha para que não fosse exibido, com passeatas de cristãos em frente a cinemas que exibiam o filme nos Estados Unidos. Num arroubo de coragem, um dia Smith se armou de uma placa na qual estava escrito “Proibam Dogma” e se uniu a esses cristãos que protestavam frente a um cinema, para entender as reclamações. Ao final, segundo relatou, saiu com a impressão que eles eram todos boas pessoas, gente preocupada com o mundo e com o próximo, que não aceitavam a ideia de que um filme brincasse com algo que era importante para eles. Mas, claro, também não tinham assistido o filme, só achavam que tinham o direito de pedir o banimento de uma obra que “os ofendia” .

O papel de uma obra de arte é entreter, sim, mas também levar a pensar, raciocinar, questionar. Às vezes até chocar e incomodar.

Esta pintura a óleo de Picasso, de 1907, Les Demoiselles D’Avignon, causou furor e protestos por retratar prostitutas em uma época em que a sociedade educada nada falava sobre elas.

Les Demoiselles D’Avignon

A Rokeby Venus, único quadro com nu do pintor espanhol Diego Velazquez a sobreviver até os dias atuais, escapou por pouco de ser destruído durante a Inquisição Espanhola, que tinha aversão a tudo que envolvesse sexo ou nudez.

Rokeby Venus

Este quadro de Cedric Chambers, The Prophet, causou indignação de cristãos, de fãs de Star Wars e de novaiorquinos ao mostrar Jesus carregado por Darth Vader contra os escombros das Torres Gêmeas. Houve campanhas dos três grupos para que o quadro saísse de circulação, para que fosse colocado em algum depósito e nunca mais visse a luz do dia.

The Prophet by Cedric Chambers

29938-4207-33284-1-sandman-thePoderíamos citar também os ataques contra jogos de vídeo game, que incitariam a violência dos adolescentes, segundo alguns. Ou os jogos de RPG, acusados de incentivar rituais satânicos e sacrifícios humanos. Ou até a edição 20 da revista Sandman, de Neil Gaiman, que seria uma apologia ao suicídio, já que uma personagem secundária da DC resolve tirar a própria vida na história. Tudo isso também recebeu críticas e foi alvo de tentativas de censura por pessoas que, sinceramente, não entendem que uma obra de arte não quer fazer mal a ninguém, só quer entreter, divertir e levar à reflexão. E que também não entendem que o melhor modo de evitar uma obra de arte incômoda é ignorá-la, não fazer campanha para que ela deixe de existir.

No Brasil, claro, não precisamos ir muito longe para falar de proibição a produtos artísticos. Segundo estudos, apenas entre 1968 e 1978, foram censurados ou totalmente proibidos em nosso país cerca de 200 livros, 450 peças de teatro, 500 filmes e mais de 500 letras de músicas.

Quem lucra?

E outra questão importante é: quem lucra com todas essas reclamações e campanhas de censura?

O site Return of Kings recebeu mais acessos porque milhares reclamaram de sua campanha contra Mad Max: Estrada da Fúria. E a Warner, no processo, conseguiu ainda mais atenção para o filme.

A polêmica capa da Mulher-Aranha por Manara gerou um interesse grande pela revista e fez com que ela estreasse com Killingjokebons números de venda, coisa que não aconteceria se ninguém desse atenção à capa e à polêmica gerada por ela.

Nas duas semanas em que a capa da Batgirl foi criticada ou defendida em inúmeras discussões online, a versão em inglês de A Piada Mortal alcançou o posto de HQ mais vendida da Amazon, devido ao interesse gerado pela arte que a homenageava – talvez a DC devesse pagar uma parte dos royalties por essas vendas ao Raphael Albuquerque.

É coincidência que as grandes empresas sempre pareçam se beneficiar com as controvérsias? Há quem diga até que elas têm até equipes especiais em seus departamentos de marketing prontas a reconhecer a oportunidade que um produto tem para causar polêmica e explorá-lo de maneira a conseguir mais atenção. E, claro, vendas.

No fundo, a questão toda é que já passou de hora de deixarmos de dar atenção a todo maluco que reclama de uma obra de arte na internet. Chega dessa mentalidade segundo a qual ninguém pode se sentir ofendido ou contraríado. O mundo não é um lugar seguro e livre de perigos. E as obras de arte nos ajudam a entender isso há séculos.

Ira e Ignorância

Talvez você se imagine uma pessoa moderna e esclarecida porque concorda que a capa da Batgirl não deveria ser publicada, mas discorda de quem pede o cancelamento do seriado Lúcifer.

censuraOu talvez ache que é errado terem transformado Alan Scott em gay, mas não viu problemas na capa da Mulher-Aranha.

Em qualquer das duas situações, se você se une aos que pedem a censura ou a proibição a uma obra de arte, não importa se você se alinha mais com a agenda progressista ou com a agenda conservadora. De qualquer maneira, você está errado.

A maioria das obras de arte não é planejada para ofender ninguém, para humilhar ninguém, mesmo se alguns parecem acreditar nisso – ainda mais quando vêm de uma grande empresa de entretenimento. Então, pare de incentivar àqueles que acham que podem fazer desaparecer o trabalho de um artista. Não importa se eles parecem bem intencionados ou se parecem trogloditas. Faça uma forcinha e procure notar que, muitas vezes, são pessoas mal-informadas, que nem sabem do que estão falando. O problema é que, infelizmente, algumas dessas pessoas já provaram que podem, sim, censurar o que quiserem graças à força de sua ira recheada de ignorância.

E a culpa, no final das contas, é de quem dá atenção a esse pessoal.

MauMaurício Muniz é jornalista, tradutor e editor de livros, revistas e quadrinhos. Nunca gostou de censura, não importa que forma assuma. E nem entrou no assunto dos ataques homofóbicos contra o comercial de O Boticário neste artigo para não ficar ainda mais bravo

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13 comentários sobre “MAD MAX, MANARA e BATGIRL: Por que damos atenção a quem reclama, mas não sabe do que está falando?

  1. Exatamente, Mauricio. Ataques por pessoas que nem se dignaram a conhecer a obra tal e tal. “Fiscais” do entretenimento, fiscais do gosto alheio. O Gaiman, sendo extremamente sarcástico no seu último livro, Trigger Warning, propôs que deveríamos ser avisados de coisas que poderiam “ferir” nossas sensibilidades. Só que não. No mais, ótimo texto. E não, não vamos falar da polêmica do comercial do Boticário (comercial de extremo bom gosto e sensibilidade) para não ficarmos com mais raiva ainda. Só sei que nesse dia dos namorados, minha esposa vai ganhar algo deles.

    Curtido por 1 pessoa

  2. De fato, a maioria nem se deu ao trabalho de ir ao cinema ver o filme para saber do que se tratava. Aliás, duvido que tenham assistido os primeiros, ou que, se viram, lembrem deles, visto que na TV aberta faz mais de dez anos que não passa um Mad Max. Vi o filme, achei fraco, uma balburdia de sons, explosões e corte de imagens em ritmo de videoclipe, feito especialmente para adolescentes que não conseguem ficar mais que cinco minutos concentrados em um assunto. Mas ressalto que a presença forte de Charlize Theron não apaga o filme, mas ao contrário, segura o roteiro (ou a falta dele), com uma grande atuação, de quem se desapegou da ideia de ser musa e passou para o papel de protagonista em filmes de ação. Será um bom filme para se passar em sessão da tarde dentro de alguns anos, para as novas gerações que aqui estão.

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  3. Fala Mauricio.

    Bacana seu texto, nos faz refletir sobre certas questões importantes que se referem o mundo atual e o papel da “arte” e suas influências.

    Por mais que tenha sido contra a censura de todos os exemplos citados, não podemos censurar a crítica de algo que é, ou se vende como arte. E por censura, eu não me refiro apenas a proibição pelas mão de um órgão em algum poder político, mas também a certos tipos de boicotes.

    São assuntos complexos, sensíveis a visão de uma sociedade e acho que pode ser um erro colocar todos os contextos de críticas e proibições numa única categoria de “censores conservadores”.

    Analisando esses mesmos exemplos de cinema e quadrinhos, podemos também considerar que as formas de propaganda que a industria do entretenimento nos apresenta também sejam consideradas “arte” – por todo processo envolvendo a criação e execução da campanha por uma equipe de criativos, etc. Dito isso, te pergunto: você acha que as críticas aos comerciais de cerveja, por objetificarem as mulheres e as retratarem como seres inferiores que só servem para dar prazer aos homens, devem continuar existindo e espalhando essa cultura apenas por ser uma forma de “arte”?

    Independente de você comprar esse discurso ou não, você acha importante que essa manifestação de “arte” seja disseminada ao público?

    A arte ou a “arte” acompanha o que acontece em nossa geração, colocar todas as censuras e criticas no mesmo patamar entra na discussão de certos conservadores que acham que a proibição do direito de ofender homossexuais é uma censura absurda de uma sociedade, nas palavras deles “cada vez mais politicamente-corretas”. O que falta por parte das pessoas, na minha opinião, é um abandono de ideias absolutas – “isso, e tudo relacionado a isso é certo! isso, e tudo relacionado a isso é errado!” – talvez seja necessário analisar cada caso,

    A meu ver, nem tudo que brota da mente dos “criativos” do entretenimento é Arte.

    Todos nós temos nossas próprias censuras e aplicamos como bem entender no que consumimos. Eu por exemplo, me recusei a ver do que se tratava Before Watchmen, pois a enxergava como uma manobra desesperada para atrair mais capital, desrespeitando a trama e os autores originais. E esse é apenas um exemplo é mais um dos muitos do porque não considero tudo que a mídia de entretenimento nos enfia goela abaixo é considerado arte.

    Bom, é isso… é uma discussão que pode ir longe e seria muito mais bacana se fosse pessoalmente 🙂 Parabéns pelo texto e continue com o trabalho legal.
    Abraços

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    • Olá, Thiago.

      Te faço a pergunta: você acha que o comercial do Boticário com casais gays, que incomoda uma parcela da população, deve ser proibido, até porque ofende a religião de muita gente? O raciocínio seria o mesmo, não?

      Sinceramente, não sei se podemos colocar uma peça de propaganda no mesmo patamar que uma capa de revista, um filme, um quadro, uma série de TV… todas esses aí podem ser comprados por fãs, por interessados. Não conheço ninguém que fale “Uau, vou comprar esse comercial de cerveja, gostei muito dele”. O comercial não é um produto para consumo, ao contrário dos outros exemplos do texto. O comercial é uma peça que tenta criar interesse em um produto, não o produto final que você vai levar para casa.

      De qualquer forma… não, não sou a favor da censura ao comercial da cerveja. Se ele incomoda alguém, que se reclame junto à empresa e a empresa, no futuro, pensará melhor antes de produzir uma outra peça do mesmo tipo. Ou não: vai continuar a produzir comerciais no mesmo estilo, se achar que atende a seus propósitos e ao seu público – que não sou eu, que não bebo cerveja.

      Então, caso não tenha ficado claro: sim, todo mundo tem o direito de reclamar e se ofender. Direito de mandar banir algo, proibir algo, censurar algo, não acho que tenha, não.

      Abraços.

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      • Fala Mauricio.

        Valeu pela resposta.

        Mas aí é que está: quase todos os exemplos citados em seu texto são apenas sobre reclamações e boicotes de determinados grupos. O grupo escroto e machista contra o Mad Max lutava para que seus semelhantes não fossem assistir ao filme, os críticos de Alan Scott e da capa do Rafael, idem.

        E é exatamente por isso que falei em meu post “E por censura, eu não me refiro apenas a proibição pelas mão de um órgão em algum poder político, mas também a certos tipos de boicotes.”

        Como um certo grupo que decidiu boicotar “O Jogo do Exterminador” pelas visões homofóbicas do autor. Eles tem todo direito de fazer isso e nós mesmo acabamos fazendo isso em nossas vidas, como citei meu exemplo de Before Watchmen.

        Sobre a capa do Rafael, não me lembro exatamente do desfecho, mas acho que a capa não será publicada, certo? Não vejo nada de errado no fato dela não ser publicada (por mais que tenha adorado), pois nas palavras do próprio autor realmente não casava com a proposta. É um caso distinto onde foi chegada a conclusão de que não publicar seria para o melhor.

        E mais uma vez me repetindo, acho que são assuntos complexos, sensíveis a visão de uma sociedade. A campanha do Boticário em nada ofende a religião alheia, ofende o fundamentalismo e conservadorismo de certas pessoas, então não acho que dê pra simplificar apenas com “se te ofende, pode censurar – se ofende o outro, deixa pra lá”. Não é tão preto no branco assim pois estamos lidando com espaço para “minorias”, conservadorismo e várias outras questões importantes.

        Já sobre o fato das propagandas serem ou não serem arte comparadas aos filmes e quadrinhos.. Não é o consumidor ou o tipo de consumo que define se aquilo é arte ou não. Eu não considero (todas) as propagandas como arte, apenas manobras comerciais com planejamento de público e intenção de vender uma marca – mas eu também não vejo diferença em certos (não todos) filmes e quadrinhos, onde o roteirista apenas segue um script com a politica da empresa e executa pensando na forma de mais capitalizar. Exatamente como um diretor de arte num departamento de propaganda.

        Enfim, pra finalizar, eu sei que a maioria das pessoas tem um discurso sem embasamento algum e imagino que seu texto foi sobre elas, mas meu post inicial foi para falar que as generalizações não são sensatas. Independente se estamos cansados de ver o mimimi de dois lados na internet, não podemos censurar o discurso.

        Abraço.

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  4. Para o Thiago:

    Pra eu entender… em algum momento eu disse que devemos censurar o chororô? Não. Disse que devemos ignorar quem fala besteira e quem pede a censura das artes.

    De resto, o choro é livre. Todos podem reclamar do que quiserem. Mas se pedirem censura de uma peça artística porque são incomodados por ela, estarão errados.

    Quanto ao próprio Raphael “chegar à conclusão que a capa não se adequava ao conteúdo da revista”… sim, mais fácil acabar logo com a polêmica e os discursos equivocados e acusatórios e pedir pra cancelarem a capa de uma vez, que correr o risco de ser acusado ad eternum de ser machista, sexista etc, como o Manara que tentou defender sua capa e foi cada vez mais demonizado. Para um artista, é sempre mais fácil e rápido, para resolver a questão, dizer “desculpa, dá aqui a capa de volta”. Até para que ele não corra o risco de a polêmica diminuir a quantidade de trabalhos que as editoras vão pedir a ele no futuro.

    Ou… quantas capas variantes do Manara você viu surgirem depois da controvérsia da Mulher-Aranha? Pois é.

    Abraços.

    Curtido por 1 pessoa

  5. Olá!!

    Texto bastante curioso. E obrigada por não entrar no assunto Campanha do Dia dos Namorados O Boticário, que até o Conar entrou em processo de cancelar, mas que no final quem se beneficiou foi a empresa de cosmético. Eu vi o comercial por curiosidade e não vi nada de mais… Enfim, respondendo a pergunta que você faz no título “Por que damos atenção a quem reclama, mas não sabe do que está falando?” Porque talvez isso nos incomode profundamente, especialmente quando quem está falando não conhece a obra em si, por isso acontece tanta repercussão. Eu ri muito do “besteirol” que o site fez sobre Mad Max, mas não entrei no site original (afinal, inglês não é comigo)…

    Até mais

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  6. Mad Max deveria ser chamado de Furiosa o filme ( mas aí não venderia certo… sombras de Aeon Flux).

    Isto tudo graças ao comportamento bizarro do senhor Tom Hardy ( que até pediu desculpas) , que não ajudou em nada, um filme com trocentos problemas na produção, aí o senhor Miller não teve dúvida em fazer o personagem PRINCIPAL virar o segundo banana.

    Max verdadeiro por enquanto só existe um, o Sr. Gibson. Tom Hardy é somente o menino fera.

    Pra saber mais sobre o panaca:

    http://www.esquire.com/entertainment/movies/interviews/a32854/tom-hardy-interview-photos-0514/

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