ENQUANTO ISSO… Minhas Desventuras no mundo do RPG

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Uma brincadeira de mocinho e bandido com regras mais complicadas ou uma oportunidade para ser tornar o Batman adequado a qualquer ocasião? O importante é se divertir… e irritar outros jogadores

Por Fábio Ochôa

6-Secret-Awesome-Things-Nerds-Know-About-Playing-Table-Top-Role-Playing-GamesTem coisas na vida que nunca consegui levar muito a sério como, por exemplo, arte de vanguarda, a carreira do Kiss, a discografia da Yoko Ono…

…e jogos de RPG.

Destas coisas, nunca coloquei banana podre em bienal e disse que era um estudo epistemológico-metafórico sobre a passagem do tempo; nunca comprei nenhum CD da banda do Gene Simmons, tampouco da japonesa do mal, mas já joguei muito RPG. O que não deixa de ser um feito para alguém que nunca teve saco para ler uma página de livro de regras. Até hoje, as fichas de personagens, para mima parecem mais um tratado de física quântica. Mas meus amigos jogavam, me convidavam e, para aproveitar a companhia deles, ia lá e jogava também.

1A verdade é que, apesar de achar muito estranho o conceito de um ROM_Spaceknight_by_shanewhitebando de marmanjos que querem sair por aí fingindo que estão em um mundo medieval muito limpinho, chacinando inocentes dragões, ou brincar de serem vampiros andróginos ou, sei lá, passar o sábado fazendo de conta que são Rom, o Cavaleiro do Espaço – naquilo que, no fim das contas, é uma brincadeira de mocinho e bandido com regras mais complicadas – quando você vai a um jogo munido de uma boa dose de humor, até pode aproveitar bastante a experiência.

Me lembro que, há longínquas eras – nos anos 90, quando Jordi vagava sobre a Terra –me convidaram a jogar algo chamado Vampiro: a Máscara, basicamente um RPG onde um bando de adolescentes muito acima ou muito abaixo do peso tinham que passar uma tarde em que fingiam ser algum tipo de versão PSDB dos vampiros.

– Muito bem, tu vai ter que ser um vampiro.

– Tá.

– E tem que escolher um clã.

Mais uma vez, motivado pela preguiça, pedi para escolherem para mim.

– Tal clã (insira aqui o nome que quiser), eles sempre tem alguma loucura, tu vai gostar.

– Arrã.

– Ele tem que ter alguma loucura, qual vai ser?

– Ele acha que é um vampiro.

– Não! Isso não pode! Ele TEM que ser um vampiro. É o nome do jogo!

– Tá bom, ele é um vampiro. Mas não acredita em vampiros.

– …

– E ele acha que todos os vampiros são adolescentes muito abaixo ou muito acima do peso que acham que são vampiros.

Obviamente a sutileza do humor metalinguístico não agradou os jogadores. Em absoluto.

Muitos anos mais tarde, resolvi, para efeitos de simplificação, que independentemente do jogo, eu ia ser o Batman. Podíamos jogar até amarelinha, que eu ia ser o Batman, porque Batman é um personagem engraçadíssimo, tão fácil de levar a sério quanto o Bozo.

– Tá, quem tu vai ser?

– O Batman.

– Não dá, o jogo é medieval.

– Batman é atemporal.

– Não. Tem que ser outra coisa.

– Tá bom. Já tenho algo em mente.

– É?

– Um milionário feudal, que vê seus pais serem assassinados e passa a usar seus recursos para combater o crime.Medieval-Batman1-e1417106309843-647x372

– Resumindo, o Batman.

– Não, é completamente diferente. Jurando vingar as mortes dos pais, ele vê um bicho cabeludo subindo pela lápide e resolve virar… O Bicho-Cabeludo!

– Ah, e como é que é o Bicho Cabeludo?

– É que nem o Batman só que todo felpudinho. Tipo, um carpete preto.

Com o tempo, o humor se incorporou de vez ao grupo, como uma estranha parceria stand-up entre mestre e jogador. Não importava o absurdo que eu criasse, o mestre dava apoio, sem piscar duas vezes.

– Ok, o grupo tem que que atravessar o desfiladeiro de chamas.

– Vou passar por cima dele com a bat-corda.

– Ok.

– Mas antes vou colocar o Mogo, meu bat-macaco (eu usava ele nos jogos, um macaco com uma máscara e capa de page-file94
Batman. Mais eficiente que o Robin) nas minhas costas.

– Ok.

– Vou atravessar a corda andando num monociclo. Batmonociclo.

– Ok. Com o bat-macaco?

– Com o bat-macaco.

– Ok.

– De marcha-ré. E sem olhar.

– Por quê?

– Porque eu sou a noite.

– Ok. Conseguiu. Não precisa jogar dados.

Outro jogador, indignado:

– Como assim? Sem jogar dados?

– Ele é o Batman.

Provavelmente, preferia estar com os amigos em alguma mesa de bar, ou assistindo alguma coisa, ou jogando conversa fora, mas inegavelmente, sempre acabava sendo divertido o jogo.

E ainda aguardo o dia no qual, finalmente, algum mestre irá me deixar jogar como a Tia May.

Até hoje, ninguém teve coragem.

Ainda resta a esperança.

OchôaFábio Ochôa trabalha como redator publicitário. Conquistou prêmios, foi citado na TV, foi diretor de criação, já saiu na Zupi, fez campanhas políticas e, mesmo assim, ainda consegue gostar das pessoas e achar este mundo um lugar legal. É um exemplo, esse rapaz. Trabalha também como ilustrador freelance e roteirista eventual. Para saber mais acesse:  www.behance.net/fabioochoa

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5 comentários sobre “ENQUANTO ISSO… Minhas Desventuras no mundo do RPG

  1. Gostei do texto, mas ele claramente (nossa eu tirei isso da alma) debochou do jogo. Antes de mais nada eu joquei, joquei muito, até trabalhei com isso e me diverti muito. Agora eu concordo quando você diz que os jogadores enchem muito, mas a grande maioria pelo na minha era composta de pessoas novas. Agora se uma pessoa, criatura, whatever, é muito viciada em algo ela vai encher o saco de quem não é, portanto infelizmente essa é uma atitude comum.
    Então não acho que devamos colocar o jogo ou muito de seus jogadores, tem uns que são mesmo e merecem, como um coisa tão ruim.
    Espero que não tenha enchido muito o saco.

    Curtido por 1 pessoa

    • Então, Yuri, vamos lá: que bom que gostou do texto, mas cara, eu NÃO debochei ou falei mal das pessoas que jogam (e nem poderia, uma vez que uma boa parte dos envolvidos eram meus amigos). Só falei que achava estranha a ideia de pessoas adultas que querem passar a tarde fingindo ser vampiros, o Super Mário, etc, é uma ideia que não consigo levar a sério. Não no sentido de desprezo, ou de achar irrelevante, mas sim no de ver o humor latente na coisa. Assim como não consigo levar a sério quadrinhos de heróis, por exemplo, gosto, curto ler, mas sim, é um conceito um conceito um tanto ridículo e tolo. E tudo bem.
      A questão é, se você gosta de jogar, faça isso, sem nenhum tipo de vergonha ou medo.
      Só não leve algo que no fim das contas é um mero jogo, ou um faz de conta com regras dignas da física quântica mais a sério do que deveria.

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      • Eu fui o mestre de vários Batmans do senhor Ochoa e sim, ele não precisava jogar dados, pois era a noite, melhor, era o Batman e ele é a noite. E sim, quando não levamos a sério, rimos bastante, nos divertimos mais do que quando ficávamos levando a sério ou tentando encher fichas com pontinhos para simplesmente jogar dados. Não vejo o texto como um deboche, mas como um fato. RPG não pé coisa séria. É um jogo e só.

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  2. Hahahaha, genial! Fui mestre de 1989 a 2011 e ando um pouco afastado desse hobby. Me entristece ver que o pessoal nas mesas atuais se preocupam mais em tirar selfie pro instagram do que rolar dados durante o jogo. Sempre curti o bom humor na mesa, inclusive quando jogava coisas densas como Wraith. Futuramente voltarei a mestrar agora que minha filha cresceu mais.

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