RANKING: 10 Razões pelas quais ser leitor da Marvel era mais legal nos anos 1980

HA1-Abril

Mais do que mero saudosismo, listamos alguns motivos pelos quais as revistas de heróis dos anos 1980 eram bem mais atraentes e divertidas para os leitores brasileiros

Por Eduardo Marchiori

Textos saudosistas geralmente são um saco! Os autores querem provar que sua época era melhor que a época atual e que nada feito recentemente presta. Não é este o caso. Sou bem consciente que todas os períodos tem seus bons e maus momentos.

A década de 1980 teve grandes clássicos das duas grandes editoras de heróis, como Cavaleiro das Trevas, A Saga da Fênix Negra, Guerras Secretas, A Saga da Elektra e (ok, reconheço a importância de) Watchmen. Mas também teve muita bucha de canhão que sequer chegou a ser publicada no Brasil (benditos editores!), tamanha era a irrelevância de suas tramas – e nem vamos lembrar aqui dos famigerados cortes de páginas e mutilações das HQs. Apesar disso, os anos 1980 foram muito bons para ler quadrinhos da Marvel por diversos motivos. Separamos dez deles – independentemente da qualidade das próprias HQs – que fizeram crescer, em quem viveu aquele período, a paixão por super-heróis.

(Obs.: o artigo refere-se apenas às revistas Marvel, porque eu nunca fui um fiel colecionador da DC. Mas alguns dos itens listados também valem para a editora do Superman e Batman.)

cartas1) Seções de Cartas: Para quem não sabe, “carta” era uma mensagem escrita numa folha de papel, com caneta, que era colocada no correio e entregue pelo carteiro. Os fãs escreviam para as editoras – pasmem! – para tirar dúvidas e não para xingar o que vinha sendo publicado. E os editores – pasmem de novo! – publicavam as cartas. As seções de carta eram, geralmente, a primeira coisa que se lia, na esperança de ver seu nome imortalizado em sua revista favorita. E o pessoal abusava da criatividade para expressar todo seu amor pelos super-heróis com poesias, paródias, acrósticos, eleições de melhor herói (costumavam fazer com meia dúzia de amigos e publicavam o resultado como se tivesse sido feita com milhares) e outras. Nos tempos da RGE, as cartas eram respondidas pelos próprios personagens, o que mantinha uma certa ilusão mágica para a criançada da época, que eram o foco das publicações. O tempo passou e o perfil do fã mudou. Ele passou a se preocupar mais em caçar erros e “ganhar” um troféu Cata-Piolho (premiação simbólica dada a quem encontrasse erros nas edições) do que propriamente curtir o gibi. E os editores também devem ter se cansado disso e limaram a seção das revistas – embora, claro, a chega da internet e o contato dos leitores com editores em fóruns e sites mudou toda a dinâmica e ajudou a extinguir as seções de cartas, que deixaram de ser a única maneira de contato com os representantes das editoras.chaveiro

2) Brindes: era bem comum a distribuição de brindes nas edições. Chaveiros, pôsteres, miniálbuns de figurinhas, anéis, medalhas, miniaturas, tatuagens, adesivos… a gama de produtos era enorme. Os brindes faziam você se sentir prestigiado por ter um item exclusivo (tenho até hoje uma coleção de chaveiros dourados, cujas esculturas são de uma perfeição ímpar) além de animar as brincadeiras com a turma. Afinal, um portador do “Anel da Caveira” se sentia o próprio Fantasma. Hoje, nossa legislação se tornou tão exigente e burocrática com relação aos itens de pequena proporção (como anéis, por exemplo) que inviabiliza a distribuição de brindes. No máximo, um pôster, que é de papel mesmo. Com isso, para ter a coleção completa de anéis coloridos da Tropa dos Lanternas, que impulsionou as vendas dos gibis lá nos Estados Unidos, só pagando um valor estratosférico em sites que importam o produto.

Thor3) Pontualidade: As revistas tinham data certa para chegar às bancas. E chegavam pontualmente nessas datas. Heróis da TV saía dia 2. Superaventuras Marvel, dia 9. Homem-Aranha, dia 14. Capitão América, dia 20. O Incrível Hulk, dia 26. A editora divulgava essas datas na revista e até as colocava no expediente – o leitor podia ter a certeza de encontrar sua revista favorita naquele dia. Hoje, a Coleção Histórica Marvel dos Vingadores chega às bancas em maio, mas a data na capa é de fevereiro. E nem vou mencionar as revistas com os prelúdios das produções cinematográficas, pra não ficar chato.

4) Minisséries independentes: as grandes sagas que tinham repercussão em todo o universo dos heróis eram lançadas em edições especiais, no formato de minisséries e, geralmente, eram fechadas em si mesmas. Ou seja, a série tinha começo, meio e fim, quase não se estendiam a outros títulos de linha e as repercussões da trama não eram incompreensíveis para o leitor que não tivesse acompanhado a série. Hoje, entender uma saga é tarefa hercúlea para quem só compra a minissérie principal e, para ter o entendimento total da história, é necessária a leitura de 89 títulos interligados.

5) Arcos menores: As histórias em continuação eram mais curtas: duravam entre três a quatro capítulos, no máximo (hoje são, no mínimo, seis). Tinha história que começava e acabava na mesma edição. Assim, era mais fácil de acompanhar e entender o personagem. Consequentemente, proporcionava um outro atrativo, que é o item seguinte.

6) Mix mais variado: com a possibilidade de terminar as tramas mais rápido, havia um maior revezamento dos seçãopersonagens e o leitor podia acompanhar uma quantidade maior de heróis. Mestre do Kung Fu, Punho de Ferro, Cristal, Motoqueiro Fantasma, Cavaleiro da Lua, Namor e outros heróis secundários (e até terciários) dividiam espaço com os grandes nomes, proporcionando ao leitor uma visão bem ampla do Universo Marvel. Por isso que hoje, quando surge um filme com Scott Lang na identidade do Homem-Formiga, os leitores antigos fazem cara de conteúdo, enquanto que os mais novos ficam perguntando: “Ué, mas o Homem-Formiga não é o Hank Pym? Mudaram a identidade dele?” Sabem de nada, inocentes!

7) Seções divertidas: Era muito legal abrir um gibi e dar de cara com três ou quatro páginas de “A Força dos Heróis”, mostrando o ranking dos heróis mais poderosos aos mais “normais”. Ou então o “Seu Signo, Seu Herói”, que associava um signo do zodíaco a um super-herói (odiei saber que meu signo é o mesmo que o do Namor, aquele chato de galocha!). Sim, essas seções eram bobinhas. Mas fugia um pouco do trivial e dava à revista uma cara mais diversificada ao invés de ficar apenas reproduzindo histórias em quadrinhos.

capas8) Capas criativas: há uma boa quantidade de leitores puristas que condena as capas criadas pela Editora Abril para suas revistas mix (Heróis da TV e Superaventuras Marvel). Particularmente, eu também prefiro as capas originais. Mas ninguém pode negar que o departamento de arte era criativo e nada preguiçoso. Afinal, qualquer um pode pegar uma capa pronta e reproduzi-la, mas montar uma capa nova e chamativa não é pra qualquer um. Nem mesmo as revistas com personagem solo reproduziam as capas originais: geralmente, sempre alteravam o fundo, para torna-lo mais vibrante. E ficava bem feito!

9) Formato único: Todas as revistas tinham o mesmo tamanho. Há quem prefira o formato original, pois dá pra apreciar mais a arte, e não há como discordar disso. O formato americano tem suas vantagens. Mas antigamente todas as revistas tinham o mesmo tamanho, sejam da Disney, da Marvel, da Turma da Mônica etc., o que deixava as coleções homogêneas. O mesmo vale para o número de páginas: quase todas as HQs tinham 84 páginas. Hoje em dia, a gente nunca sabe quantas páginas Dicionário Marvelvai ter a revista do mês, nem qual vai ser o preço. Difícil fazer uma previsão orçamentária (ah, mas naquela época a gente também não ligava pra orçamento… quem pagava era nossos pais…)

10) Dicionário Marvel: Durante mais de dois anos, as revistas Marvel da Abril trouxeram uma página destacável e colecionável do fantástico Dicionário Marvel. Um compêndio cuidadosamente pesquisado e elaborado pelos editores da Abril (em lugar nenhum do mundo tem outro igual) que tem toda a cara de dicionário mesmo. Cada verbete trazia o histórico de um personagem/grupo/apetrecho/lugar do Universo Marvel. A única falha da editora foi prometer uma capa dura para encaderná-lo e, no meio do caminho, resolveu que não ia mais fazer. Na época em que o Código de Defesa do Consumidor ainda não existia, o leitor foi obrigado a engolir essa e encadernar  a obra por si próprio. Em 2005, foi lançada a Enciclopédia Marvel, mas não alcançou um décimo do excelente trabalho de pesquisa feito pela equipe brasileira, Hoje, os poucos felizardos que possuem um dicionário completo são portadores de um tesouro.

EduEduardo Marchiori é jornalista, escreve para as revistas Mundo dos Super-Heróis e Mundo Nerd e é responsável pelo blog Raio X (http://mutantexis.wordpress.com), também voltado à cultura pop. Desde os anos 1980 tenta fazer um cadastro de seus gibis, mas nunca conseguiu terminar. Ele desconfia que é porque nunca parou de comprar novos exemplares.

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16 comentários sobre “RANKING: 10 Razões pelas quais ser leitor da Marvel era mais legal nos anos 1980

  1. Tirando a famosa disputa entre Dermeval Calógeras e o Supereditor, seção de cartas era uma cois a bem bacana mesmo. Uma sugestão minha foi aceita na revista Heróis em Ação, que era Leitores em Ação. Ok, meio óbvia. Mas foi bem legal ler meu nome nos agradecimentos! 🙂

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  2. Senscional este seu artigo. Me levou de volta aos meus tempos de garoto. Tudo isso que você escreveu eu vivi. Lembro, nos casos de arcos, que quando ia chegando o dia da publicação eu já ficava ansioso para botar as mãos logo na revista pra ver como a parada iria se desenrolar.

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  3. Eu ganhei um “Troféu Cata-Piolho ” nos anos 2000 mesmo numa mini-série do “Batman do Esquadrão Supremo”que saiu na revista Marvel Max.
    Comprei 2 edições e ainda fiz questão de mostrar pro jornaleiro da banca que tenho conta. Sou um verme…

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  4. Parabéns pelo artigo, captou bem o espírito da época. Acrescentaria ainda a questão da cronologia, que passou a ter uma lógica melhor para quem já acompanhava os personagens por outras editoras. Lembro de sempre procurar pelos códigos no início de cada história contendo o número da edição original americana e o ano de publicação para tentar relacionar o que era publicado e sempre me incomodava ver que os editores frequentemente saltavam a cronologia. Mas, com o passar do tempo, entendi que era uma estratégia inteligente para separar o joio do trigo e permitir a publicação de mais personagens no mix das revistas.

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  5. Excelente! Vivi essa época… eu mesmo comprava as revistas desde 1986. Tinha uma coleção de mais de 700 revistas e parei de colecionar nos meados dos anos 90… cansei de tanta falta de respeito por parte da equipe criativa da Marvel…Vou compartilhar sua matéria no meu face…

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  6. Puxa…que bacana voltar no tempo e lembrar tudo isso que eu curtia paca e até hoje não me desfiz.Como eu ficava ansioso esperando Heróis da TV chegar às bancas…Que emoção ver minha carta publicada em Superaventuras Marvel !Tudo simples e ,literalmente, emocionante! parabéns pela matéria!

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  7. O texto está perfeito , só faltou você mencionar a sessão arte dos leitores, onde particularmente eu achava o máximo, imagine, mais que ter seu nome na sessão de cartas , era ter seu nome e desenho publicado, numa época em que não havia programas de pintura, era tudo na unha, e como haviam caras bons….

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  8. Matéria espetacular! Acho que sintetizou tudo o que eu penso sobre a maneira como eram publicadas as revistas, em comparação a como ficou depois. Só uma questão: a revista do Homem-Aranha era lançada no dia 15, não? Acho que dia 14 era a do Batman (1984/1985). Abraços!

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  9. comecei a comprar em 1980 tinha h.aranha rge super herois marvel rge ,almanaque marvel e herois da tv minhas preferidas ja a do capitao america nao tinha tanto apelo entre meus amigos dai se ver hoje em dia tao poucas ediçoes anteriores ao almanaque 29.

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