QUADRINHOS clássicos em versão ENCADERNADA: o Brasil é um bom mercado para eles?

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Edições de luxo em capa dura? Volumes em capa mole e papel jornal? Cor ou preto e branco? Uma análise sobre o que deu certo e o que deu errado nos lançamentos de quadrinhos clássicos encadernados no Brasil

Por Ben Santana

Nunca existiu tanto material clássico de quadrinhos nas bancas e livrarias do Brasil como existe hoje. É um nicho que vem sendo explorado pelas editoras, com certeza. E, apesar de existir um sentimento de “Já não era sem tempo!”, é necessário, creio, lembrar de duas coisas. A primeira é que esse é um tipo de material que, apesar de ter um público certo, está longe de ser um público enorme. Segundo, mesmo nos EUA, a ideia de lançar encadernados (os famosos trade paperbacks, ou apenas “TPBs”) é relativamente nova, tendo começado para valer no final dos anos 1980, começo dos 1990.

Clássicos da Marvel

Nos Estados Unidos havia, é claro, alguns títulos de reprint, como a Marvel Tales, da Marvel, e os Blue Ribbon Digests e 100-Page Giants da DC. Mas eles eram poucos, principalmente se compararmos com a profusão de encadernados que chegam às lojas americanas todos os meses.

Encadernar arcos de histórias de super-heróis é algo recente relativamente recente até mesmo lá. Imaginem aqui, então. Entretanto, quero crer, isso está mudando progressivamente.

classicos01Vejam só: nunca poderíamos imaginar a quantidade de relançamentos por aqui. Por incrível que pareça, todo mês temos pelo menos um encadernado de material “clássico” à nossa disposição. E a maioria deles disponível em banca, de fácil acesso e relativamente baratos. E a editora que mais investe nisso é a Panini, muitas e muitas vezes execrada nas rede sociais. Ela começou timidamente em 2002, com o primeiro volume de Os Maiores Clássicos do Homem-Aranha (apresentando histórias de John Romita Sr.) e, apesar do segundo volume ter saído apenas dois anos depois, nunca mais parou.

É claro, eles tiveram de se adaptar. E usaram o método mais comum para isso: o da tentativa e erro. E erros existiram? Obviamente. Eles estavam sentindo o mercado brasileiro, tentando entender o que funciona ou não nesse tipo de publicação.

A Panini tentou edições de luxo, com versões dos Marvel Masterworks, que aqui ganhou o nome de Biblioteca Histórica Marvel. Para quem não conhece os Masterworks originais, se trata de uma coleção da Marvel iniciada em 1987 que republica em ordem os títulos clássicos da editora. Ela é voltada exclusivamente para colecionadores que estão dispostos a pagar entre 50 e 75 dólares por dez números encadernados dos primeiros títulos da Marvel.

A Panini lançou a sua versão aqui quase idêntica à americana: papel de luxo, capa dura, recolorização. Só não usou a classicos02sobre-capa. O preço? Caro, mas nem tanto assim. Aliás, as edições poderiam ter sido até mesmo mais caras, devido às suas tiragens diminutas.

(Aliás, duas coisas sobre os Masterworks: mesmo lá nos EUA, as tiragens são baixíssimas, o que justifica o preço e várias edições do mesmo volume ao longo dos anos. Se vendeu tudo, são reimpressos. E, mais recentemente, foram lançadas também edições em capa mole, pela metade do preço, desses Masterworks .)

A Panini lançou até o momento quatro volumes do Homem-Aranha, três dos X-Men, dois do Homem de Ferro, dois dos Vingadores e um de cada do Hulk, Surfista Prateado, Capitão América, Demolidor, Thor e Quarteto Fantástico. E a maioria dos leitores, é claro, não comprou. Por causa do preço ou (sim!) pelas histórias. E, comprando ou não (principalmente não) comprando, eles reclamaram. E muito.

Resultado: se a editora não descontinuou a linha totalmente, lançam a conta-gotas. E o que acontece? Mais reclamação. Absolutamente nada parece contentar o fã mais radical. Ele quer algo extremamente luxuoso e, ao mesmo tempo, quase de graça.

Ei, eu também gostaria de conhecer Barsoom e tomar chá com a Deja Thoris, mas isso não vai acontecer, infelizmente.

Crônicas da DC

BatmanNos Estados Unidos, a DC Comics lançou uma coleção chamada Chronicles, a partir de 2005, que tinha a intenção de publicar, em ordem cronológica, todas as histórias de determinados personagens. Fez isso com o Batman, Superman, Mulher Maravilha, Flash e Lanterna Verde. Diferente dos luxuosos Archives (o equivalente da DC aos Masterworks da Marvel), eles tinham capa mole e papel jornal. Isso, é claro, reduzia sensivelmente o preço. Apesar dos dois medalhões da editora, Superman e Batman, terem cerca de dez edições cada, a coleção está hoje em hiato. Eram baratos (cerca de 16 dólares contra os quase 60 dos Archives) e isso significava que a tiragem tinha que ser significativamente maior. Mas a procura, mesmo lá fora, não foi tão grande assim.

Aqui, a Panini se equivocou (na minha opinião) em fazer a versão brasileira, as Crônicas, em capa dura e papel de luxo… e, portanto, mais caras. Como resultado, a exemplo de sua irmã americana, as Crônicas foram colocadas na geladeira depois da publicação de três volumes do Batman, três do Superman e dois do Lanterna Verde.

(O mesmo aconteceu com a coleção Crisis on Multiple Earths, que nos EUA saiu em um formato mais simples, capa mole e papel jornal. Aqui, a capa dura, o papel de alta gramatura e,  mais uma vez, o preço decorrente fez que não passasse do primeiro volume dos seis publicados por lá, além dos dois spin-offs, chamados de Team-Ups.)

Mas não importa o formato, realmente. As edições foram aparentemente descontinuadas pela razão mais simples do mundo: não venderam bem o suficiente.

A Solução? 

Hoje, a Panini vem lançando, em bancas, a Coleção Histórica Marvel, baseada em uma coleção italiana chamada Marvel classicos03Collection. Preço razoável, papel off-set e uma caixinha para guardar as edições. E com sucesso suficiente para que oito edições do Homem-Aranha, oito dos Vingadores, quatro dos X-Men e mais algumas outras tenham aparecido desde que ela foi lançada, em 2012.

Tal sucesso, creio, foi graças ao preço e à distribuição em bancas. E ao fato de elas serem coloridas. Explico: nos EUA, para quem não quer gastar muito dinheiro nos clássicos, existia a opção de comprar os Showcases (da DC) e Essentials (da Marvel, já descontinuados). Edições de mais de 500 páginas, com cerca de 25 histórias, em ordem de publicação e em preto e branco. Aqui um Showcase da Liga da Justiça foi lançado exatamente nos mesmos moldes da edição americana. Não vendeu. E fez que a coleção fosse natimorta. A principal reclamação? “Não é em cores!”

classicos08Em todo o caso, a Panini parece ter achado o caminho das pedras com o formato da Coleção Histórica. A editora começou recentemente a fazer a mesma coisa com a DC, publicando seis volumes do Batman nos mesmos moldes. Assim, eles deram o tratamento da Coleção Histórica aos Legends of the Dark Knight, lançadas nos EUA. Legends é uma coleção luxuosa em capa dura que mostra versões do Batman por grandes autores que trabalharam com o personagem. Até agora, saíram aqui duas dedicadas a Alan Davis e quatro a Jim Aparo (na verdade, a Panini dividiu cada edição em duas).

Possivelmente, a Panini percebeu que é isso que vende. E fez exatamente o contrário do que tinha feito com os Chronicles. Pegou edições luxuosas e as simplificou. Quem disse que não se pode ensinar novos truques a um cachorro velho? É a tal da tentativa e erro que falei lá em cima.

classicos04Então, a solução para vender os clássicos é apenas torná-los baratos? Não. Não é tão simples assim. Mais uma vez, esses quadrinhos são parte de um nicho. Os leitores de hoje não são tão facilmente capturados por eles. E, por mais que doa dizer isso, é compreensível. A estrutura é diferente. A narrativa idem. Os leitores mais novos nunca vão entender a verborragia de um Roy Thomas, por exemplo. E nem precisam. São feitos outros quadrinhos para eles todos os dias.

É claro, existem vários desses leitores novos que entendem o contexto (talvez uma das palavras mais antipáticas da nossa língua) em que tais histórias foram criadas. Mas são poucos. Eles querem, e com razão, diversão. O que é absolutamente o que os quadrinhos devem ser. Afinal, eles foram criados para isso.

Outra coisa: quem vai comprar essas edições, em sua grande maioria, são os leitores e colecionadores que já leram em outras edições. Que têm o diabo dessas outras edições, mas por serem completistas compram ainda mais uma vez. E outra. E ainda mais outra.

Baratear tais edições, pode, é claro, atrair alguns outros leitores que ficam curiosos para ver a versão tal e tal do Homem de Ferro para conferir se parecem com Robert Downey Jr., mas não estão dispostos a pagar um preço alto por isso. Entretanto, faz com que o colecionador mais exigente (e endinheirado, é claro) reclame.

Sem Capas 

classicos05Mas não só de Marvel e DC vivem os clássicos. A Mythos (que é quem produz, na realidade, os quadrinhos publicados pela Panini) está lançando Cripta, versão brasileira da republicação da Dark Horse para os Archives da Eerie, da Warren. A sua irmã Creepy também vem sendo lançada pela Devir, que também lançou por aqui os Archives do Tarzan de Joe Kubert (que saíram originalmente na década de 1970 pela DC e foram relançados pela Dark Horse).

A Pixel Media tem lançado material clássico da King Features, como Fantasma, classicos07Mandrake e Recruta Zero, em edições bem acabadas e com preço bem razoável. E em bancas.

Se você pegar um checklist mensal das editoras, verá que todo mês temos pelo menos um clássico sendo relançado. Coisas que eu juraria que nunca veriam a luz do dia por aqui aparecem alegremente em bancas e livrarias (como A Tumba de Drácula, cujo segundo volume foi lançado esses dias). Para aqueles que insistem em dizer que “no meu tempo era melhor”, “na minha época havia uma profusão de títulos clássicos nas bancas”, eu só posso dizer: acordem. Tirem os óculos cor-de-rosa da memória afetiva e vejam o que vocês têm a oportunidade de comprar hoje. A quantidade de coisas bacanas que está disponível é impressionante.

classicos09Além disso, temos três coleções em capa dura sendo lançadas. Duas pela Salvat e uma pela Planeta DeAgostine. As da Salvat se dedicam à Marvel, com a primeira quase no final de seus sessenta números e com uma possibilidade de expansão (vinte edições com os clássicos da década de sessenta e setenta).  A da Planeta, dedicada a Star Wars, em seus primeiros doze números lançou (pela primeira vez no país) toda a fase do título na Marvel.

Resumo da ópera: quem reclama que não existem “clássicos” sendo publicados no Brasil, reclama de barriga cheia. Obviamente, mais coisas poderiam estar sendo publicadas por aqui. Mas este ainda é um mercado restrito.

Um Adendo sobre o Material Novo

Alguns dos leitores mais antigos reclamam do tratamento luxuoso dado pela Panini a material mais recente. Mas a editora está apenas seguindo o que acontece nos EUA desde a década de noventa. Uma história é lançada inicialmente em uma revista de 20 páginas, parte de um arco. Esse arco depois é colecionado em um encadernado, que pode ser em capa dura (HC) ou em capa mole (SC, ou TPBs). Se tem apelo suficiente, vários arcos podem ser colecionados juntos e ganham o nome de Omnibus. É Ultronexatamente o que vem acontecendo no Brasil: até mesmo o Omnibus ganharam uma versão brasileira há pouco com o Superman dos Novos 52. E temos uma vantagem aqui: quando são republicados, ganham um papel melhor (já que as edições mensais de linha usam o Pisa Brite, o papel jornal). É claro, nem todo o material publicado nas mensais é encadernado, diferentemente dos EUA. Mas o mercado aqui é bem menor. E se material clássico não tem o mesmo tratamento de, digamos, a Era de Ultron é porque a saga mais nova vende muito mais. Mais uma vez,  as Bibliotecas Históricas Marvel mandam lembranças ao colecionador ranzinza.

Isso não quer dizer que a Era de Ultron é melhor ou pior que um clássico. Significa apenas que tem apelo comercial maior. Vende, simples assim.

Um último comentário? Comecei a ler quadrinhos de super-heróis com a EBAL, lá nos anos 1970. E nunca, nem mesmo naquela época (ou deveria dizer, principalmente naquela época) havia tanta coisa em bancas e livrarias. Aproveitem. Vocês tem muito mais opções que este “velhinho” aqui teve quando começou ler quadrinhos.

(Agradecimentos ao Edson Diogo e ao Guia dos Quadrinhos pelas imagens)

BenBen Santana nasceu no final da Era de Prata, mas cresceu na Era de Bronze. Professor, tradutor e desocupado (quando sobra tempo), vem lendo e pesquisando quadrinhos desde sempre. Seu blog é http://prataebronzecomics.blogspot.com.br

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5 comentários sobre “QUADRINHOS clássicos em versão ENCADERNADA: o Brasil é um bom mercado para eles?

  1. Muito boa matéria , não sou tão velho mas comecei a colecionar em 1998 que diga se de passagem não era tão bom quanto e hoje , a geração cinema ganhou grandes oportunidades , encadernados de luxo sendo vendidos a preços acessíveis era inemaginaveís , nunca tivemos hora mais oportuna pra começar a colecionar HQ´s então galera não desperdicem a chance ! e mais uma vez parabéns pelo post .

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  2. Como integrante da velha guarda (comecei a ler HQs de heróis por volta de 87, quando tinha meis 10 anos) concordo plenamente sobre o aumento exponencial de material reeditado em edições de qualidade, coisa que jamais iria imaginar acontecer nos idos dos anos 90 por exemplo. Hoje quem reclama, o faz de barriga cheia e palitando o dente. É uma época simplesmente ótima para se colecionar quadrinhos, em praticamente todos os segmentos. Agora deixa eu ir pra banca comprar o livro dessa quinzena da coleção da Salvat!

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