Grandes SAGAS DE SUPER-HERÓIS: ninguém gosta delas, mas são o que mantêm as editoras vivas?

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Os grande eventos criados pelas editoras para unir seus heróis são odiados por muitos leitores… mas podem ser a melhor estratégia para que o mercado continue a existir

Por Ben Santana

Em 1984, a empresa de brinquedos Mattel resolveu entrar na competição com a rival Kenner, que estava lançando a coleção Superpowers, baseada nos personagens da DC Comics. A Mattel já tinha a linha de He-Man, mas queria ir mais além. Contatou então a Marvel, através do então editor-chefe, Jim Shooter, para que começassem algo. O “algo” acabou se tornando Guerras Secretas, uma maxi-série em 12 números que, acima de tudo, foi criada para vender bonequinhos (ou “action figures”, dependendo de quem está falando… ou lendo). Guerras Secretas, pela sua própria natureza, chacoalhou o universo Marvel e se tornou um “evento”. Desde então, tais eventos são comuns dentro dos quadrinhos de super-heróis. Para o bem ou para o mal.

eventos01Existe uma parcela dos leitores, principalmente os mais antigos, que reclamam da existência de tais eventos. Um dos argumentos é que eles são feitos apenas para vender revistas. Uhn. Pois é… O que é exatamente o que as editoras querem fazer. Afinal, é a sua linha de negócios. Mas mesmo que não concorde, entendo esses comentários. Eles ainda tem a visão um tanto romântica que uma boa história é o suficiente para se vender. Sim, uma boa história deveria ser sempre o primeiro ponto, o norte para as duas grandes editoras de super-heróis dos EUA. Só que hoje, infelizmente, isso não é mais o suficiente.

O raciocínio, levantado milhares de vezes, é o seguinte: a competição hoje em dia é cruel. Vídeo games, Netflix, TV a cabo. A internet. De repente, aventuras em uma revista de 22 páginas (e custando cerca de cinco dólares) não parecem mais tão atraentes. A indústria, então, tenta fazer de tudo para chamar a atenção para o seu produto. E, querendo ou não, os chamados eventos, dão visibilidade aos quadrinhos.

Mais uma vez, é uma questão monetária. E não há – para citar um episódio de Seinfeld – nada errado com isso. “Ah, mas são caça-níquéis!”. Sim, são. Como todo entretenimento, desde a época que os gregos inventaram o teatro. A ideia, sim, é vender.

(Fico imaginando os atenienses conversando após uma apresentação de Édipo Rei. “Pô, aquele Sófocles quer só ganhar nossos suados dracmas! Onde já se viu? Colocar o cara para casar com a própria mãe! E depois metendo um broche nos próprios olhos! Putz… preferia o Ésquilo. Ele sabia contar uma boa história sem precisar apelar pra coisas assim”.)

Os quadrinhos de super-heróis, hoje em dia, precisam de eventos. Os eventos são a mola que impulsiona as histórias. Falta de criatividade? Não creio. Mas é, sim, uma decisão mercadológica. E isso vem acontecendo desde Guerras Secretas.

Boas histórias vs. Megassagas

eventos04“Estou de saco cheio dessas mega-sagas” é uma frase comum entre alguns (muitos?) fãs. Olha, se você está de saco cheio disso, na verdade está de saco cheio do gênero dos super-heróis. Talvez você devesse começar a ler outros quadrinhos. Tem os europeus. Tem os fumetti. A Image Comics tem hoje os melhores do mercado, por exemplo. E sem mega-sagas. ChewManhattan ProjectsSagaEast of the West. Pode escolher.

Agora, se você gosta de super-heróis, tenha certeza de uma coisa: eles não vão ser estanques como eram nos anos sessenta e setenta. “Ah, mas naquela época eles não precisavam disso e vendiam muito bem!”. Pois é, vendiam. Porque, de novo, não tinham a concorrência desleal de outras mídias. Eles eram um meio bom, barato e rápido de diversão.

E tem mais um detalhe: O leitor de hoje, por mais que não queira admitir, está acostumado com as megassagas e eventos. Afinal, já se vão mais de trinta anos desde Guerras Secretas. Vejamos… “A Chegada de Galactus” (Fantastic Four 48-50) teve três números. Lee e Kirby contaram sua história em pouco menos de setenta páginas. Quando a mesma história foi recontada em Ultimate Galactus, foram necessárias três minisséries!eventos05

Na minha opinião, a versão de Lee e Kirby é muito melhor. Mas isso é verdadeiro para o leitor de hoje? A maioria deles vai achar a história apressada demais, datada demais e com um dos mais famosos deus ex machinas dos quadrinhos, o “nulificador total”.

Para que fique claro, sou fã incondicional de Kirby. Especialmente de seu Quarteto Fantástico que, na minha opinião, a partir da citada história iniciou uma das melhores fases dos quadrinhos de super-heróis em geral. É um clássico perene. Uma obra de arte. Que, se fosse publicada pela primeira vez hoje, não venderia absolutamente nada.

Do jeito que foi publicada em 1966, teria uma série de críticos, acostumados com uma narração descomprimida. E isso se torna dolorosamente evidente quando vemos os números das vendas dos Marvel Masterworks, as luxuosas edições que republicam esse tipo de material.

“Então, a solução para tudo são os eventos”. Uhn… não. Mas eles ajudam. E muito. A “boa história”, muitas vezes não é o suficiente. Gavião Arqueiro, de Fraction e Aja, e o Surfista Prateado, de Slott e Allred, são sucesso de crítica. Duas séries espetaculares, mas que têm vendas apenas razoáveis. Muitas vezes, a tal “boa história” é apenas um detalhe.

Crise… ou Como Elevar o Evento ao Nível Cósmico

eventos02Em 1985, a DC Comics lançou possivelmente o que foi o mais poderoso evento de toda a sua história editorial, Crise nas Infinitas Terras. A ideia principal de Crise era colocar ordem na bagunça acumulada em (então) cinquenta anos de publicações. Múltiplas terras, personagens com contra-partes em universos paralelos, personagens de editoras menores adquiridas e logo colocadas junto com os próprios (e estabelecidos) da editora. Um charme para o leitor mais antigo, mas um pesadelo para se gerenciar. E, para os leitores mais novos, um universo quase incompreensível.

Muito mais que chacoalhar o status quo da editora, Crise tinha a função de um ponto de entrada para o novo leitor. Novo leitor que foi capturado pela editora e hoje reclama porque ela faz a mesma coisa atualmente, tentando capturar outros. Ou seja, “o desrespeito ao fã antigo”, que escutamos toda vez que um evento e/ou reboot acontece. Mas a maioria desses leitores que hoje gritam aos céus que a editora os está “traindo” não reclamou quando um universo novinho em folha foi entregue a eles em 1986 pela DC.

“Ah, então você está dizendo que todo evento, toda a mega-saga é algo bom…” Não, não estou. estou dizendo, sim, que eles são necessários para fortalecer e renovar a marca. Agora, se são bem executados, já são outros quinhentos. A própria Crise teve inúmeros problemas. E desde a sua publicação, em 1985, o leitor tem esta ou aquela megassaga ou evento que ele odeia. E a questão da “real necessidade” sempre aparece.

Bem, as sagas são necessárias por tudo que já foi dito. Mas não é só pelo dinheiro. Crise ocorreu para zerar a cronologia eventos03da DC. Lendas para reintroduzir a Liga da Justiça e o Quarto Mundo. Zero Hora tentou consertar o que tinha escapado na CriseInvasão! foi feita para destacar os personagens espaciais da DC e mostrar como eles funcionavam naquele universo. E assim vai. Todas os eventos citados aqui têm, pelo menos, um quarto de século. Então, porque não aceitar (ou, ao menos, entender) o motivos para a existência de Ponto de Ignição (e os resultantes Novos 52) e agora, Convergence?

Todos esses evenos tiveram qualidade espetacular? Claro que não. Mas foram uma tentativa de atrair mais leitores para os títulos da DC.

Podemos fazer o mesmo exercício com a Marvel e chegar a uma conclusão bem parecida: todo evento e/ou megassaga espera gerar interesse dos leitores antigos e tentar captar alguns novos. Chacoalhar o status de personagens que tem vários fãs vai gerar celeuma, sempre. Mas é necessário para que alguma renovação ocorra.

Em outras palavras, tais eventos trazem visibilidade aos personagens. Os fãs mais antigos podem ficar com raiva e prender a respiração até ficarem azuis, mas eles não vão deixar de acontecer.

Os eventos vieram para ficar. Gostemos ou não.

BenBen Santana nasceu no final da Era de Prata, mas cresceu na Era de Bronze. Professor, tradutor e desocupado (quando sobra tempo), vem lendo e pesquisando quadrinhos desde sempre. Seu blog é http://prataebronzecomics.blogspot.com.br

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2 comentários sobre “Grandes SAGAS DE SUPER-HERÓIS: ninguém gosta delas, mas são o que mantêm as editoras vivas?

  1. Às vezes pergunto-me se os leitores de antigamente também seriam mais inteligentes. O Axel Alonso tem uma coluna do Comic Book Resources e ele já mencionou que teve leitores a dizerem que preferem ler uma história má, desde que “conte” para a história geral, do que ler uma história boa fechada. Como se vai tentar inovar, se os próprios leitores fazem afirmações dessas e não acham nada de errado com isso?

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