CHIQUE NORRIS: CANIBAIS, a importância do TERROR e a CHATICE dos Justiceiros Sociais

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Como os “Guerreiros da Justiça Social” vêm se tornando os monstros do mundo real

Por Carlos Alberto Bárbaro

Obras de terror sempre foram vistas com particular desdém pelos donos da “verdadeira cultura”. Isso a despeito do fato de terem sido talvez a primeira forma narrativa criada pelo homem, que ali, na caverna, sob a pálida luz do fogo recém-dominado, contavam uns aos outros histórias sobre os terrores que os aguardavam lá fora, e como prevalecer sobre eles.

Quando da invenção do cinema, estavam lá, entre as primeiras narrativas oferecidas pelos desbravadores do novo meio de contar histórias, os filmes de terror.

Apesar da bomba atômica e de outros terrores demasiado humanos da vida real, como os campos de concentração Count_Dracula_Christopher_Leenazistas e os gulags comunistas, as histórias de terror da ficção continuam por aí, fortes e renovadas, sempre a tocar alguma corda profunda do nosso inconsciente.

Mas como hoje é difícil assustar maiores de cinco anos com vampiros, lobisomens ou mulas-sem-cabeça, o terror teve que se reciclar e criar maníacos da serra elétrica, zumbis, serial killers e outros degenerados mais próximos à realidade e, portanto, mais fadados a levar o medo aos corações dos espectadores.

Uma das vertentes desse terror de resultados contemporâneo é o gore, aquelas produções que, basicamente, mostram com crueza e fartura pescoços cortados, fraturas expostas e entranhas ao sol, dentre uma dezena de outras imagens cada vez mais explícitas. Afinal, se sei que jamais serei pego por um vampiro ao sair do cinema, já não estou tão seguro assim que não vou encontrar por aí um Hannibal Lecter que queira me levar para casa para me saborear lentamente.

eli_roth_the_green_inferno_a_lEli Roth, o diretor de O Albergue, trabalha basicamente com os dois níveis do bom filme de terror, o suspense e o explícito. Ele oferece vísceras e sangue derramado, mas antes de chegar a esses pratos principais, constrói com muito cuidado o clima para que os que observam cheguem a esse ponto no limite do sobressalto.

Nos últimos dois anos ou mais, Roth tem estado a braços com seu novo filme de terror, Canibais (The Green Inferno, no original), que, por fim, após uma série de adiamentos, e até ameaça de cancelamento definitivo, tem data de estreia mundial para 25 de setembro de 2015. Para comemorar o fato, e, claro, para promover da maneira mais adequada o filme, Roth vem explicitando a metáfora central de Canibais, que conta a história de um grupo de jovens idealistas que partem para a Amazônia para tentar ajudar uma tribo em perigo de extinção pela civilização e que, após um acidente de avião, ficam frente a frente com a tribo que idealizavam à distância, canibais que enxergam em seus salvadores apenas itens especiais do seu cardápio.

O filme é uma clara homenagem do diretor ao clássico proibido do cinema gore, Holocausto Canibal (Cannibal Holocaust, 1980), de canhol_bd_shortdescription_05Ruggero Deodato, um filme que teve, e ainda tem, uma trajetória tão conturbada quanto a desse novo Canibais.

Em suas entrevistas e tuitadas promocionais, Roth vem fazendo troça dos tais Social Justice Warriors,  os guerreiros da justiça social – basicamente o pessoal que faz uso das redes sociais para, sob o pretexto de defender um mundo melhor para todos, sair por aí ditando regras estritas de comportamento para Deus e o resto da humanidade.

“É comum ver as pessoas se envolverem com causas sobre as quais não sabem de fato muita coisa, e pirarem com isso. Eu quis fazer um filme sobre esse tipo de jovem. Claro que eu considero que há uma porção de méritos sobre pessoas que dedicam suas vidas ao ativismo. Mas eu quis contar uma história sobre garotos que não têm a mínima ideia daquilo em que estão se metendo.”

Depois dessa declaração, a internet explodiu com “um monte de gente que se envolve com causas sobre as quais não sabe de fato muita coisa” pedindo a cabeça do diretor e a censura prévia do filme, acusando Roth de difamar os índios da Amazônia e insinuando que o filme, e aquilo que eles chamam de pensamento politicamente incorreto, deveria, claro, ser censurado e não ver jamais a luz das cabines de projeção.

E as coisas ficaram ainda piores com seu tweet do último dia 24:

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“Pô, o cara foi longe demais!”

“Pô, isso é fascismo!”

É… Só que não. Roth está promovendo um filme. De terror. Sobre canibais. (E, claro, tirando uma palhinha de um povo que era apenas chato, mas que começou a ficar tão perigoso quanto um ajuntamento de zumbis.)

O fato é que já passou da hora de todos os envolvidos com a produção de cultura deixar de se intimidar pela grita dos justiceiros do teclado e de se autocensurarem para agradar um público que, na verdade, não é seu público de fato, mas tão somente a mais recente Frankenstein01encarnação daquela turba com ancinhos, tochas e cordas que sempre perseguiu o monstro de Frankenstein nos filmes da Universal. São um bando de linchadores virtuais, mas que se acham o fino da delicadeza e das boas intenções. Em sua maioria, nunca viram um índio de perto, nem mesmo um desses aculturados, e por isso acham que têm a obrigação – eles têm sempre a obrigação – de alertar o público do filme que canibais não existem e que fazer um filme sobre isso é prestar um desserviço à causa indígena.

Nunca pensei que iria ter saudades do tempo em que os filmes de terror eram vistos à larga como simples filmes de terror pelos incautos em geral e pedantes em particular. Porque, se isso era chato (já que filmes de terror são muito mais que isso, sendo comentários alegóricos sobre nossa sociedade), não era tão aterrador quanto ter o “povo do bem” insinuando que obras devem ser censuradas ou que artistas não têm o direito de contar suas histórias.

Sim, crianças, não existem canibais como os do filme e nem zumbis como os de Walking Dead. Mas, vejam só que curioso, essas criaturas da ficção sempre nos ensinaram, e continuam a ensinar, mais sobre a humanidade do que os seus tweets e posts indignados no Facebook, bem antes, na verdade, de existir o tweet e o Facebook.

E eu sei que o Eli Roth possivelmente não vai ler isto aqui, mas fica pra ele a minha sugestão de um novo tweet:

“A militância é um prato que se come frio.”

BraboCarlos Alberto Bárbaro, o Chique Norris, é tradutor, preparador de textos e criador de casos profissional. Acredita que todos têm direito a opinar sobre tudo, mas que devem estar preparados para quando o sangue começar a jorrar

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3 comentários sobre “CHIQUE NORRIS: CANIBAIS, a importância do TERROR e a CHATICE dos Justiceiros Sociais

  1. Excelente artigo. Parece que hoje em dia toda a produção de cultural sente um certo receio de tocar em certos assuntos com medo justamente dessa nova “inquisição” politicamente correta, sendo que quem perde com isso é sempre o expectador, que tem acesso à uma obra estéril, pois não toca em nenhuma ferida aberta que possa “ofender” alguém.

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