Chique Norris: A noite em que os quadrinhos QUASE mudaram PARA SEMPRE

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A história da morte de Gwen Stacy traumatizou os leitores do Homem-Aranha, mas o mercado de quadrinhos não aprendeu a lição que essa tragédia ensinou

 Por Carlos Alberto Bárbaro

Amazing-Spider-Man-121-CoverNa introdução ao volume 13 dos volumes “Masterworks” do Homem Aranha, publicado na gringolândia em 2010, Gerry Conway, com a falta de modéstia usual dos autores em geral, afirma que os quadrinhos mudaram para sempre em 1973.

E, claro, mudaram por conta de uma história escrita por ele, Conway, aos dezenove anos de idade.

O rapaz tem mais de uma bala na agulha para afirmação assim tão peremptória, a começar pelo fato de ter sido o primeiro conwayroteirista “oficial” (a saber: creditado) a assumir as histórias do aracnídeo depois do próprio Stan Lee. Embora, no início, o nome dele nos créditos viesse em segundo, depois do de John Romita – “uma das poucas vezes em que o nome do roteirista aparece depois do desenhista”, ele se lembra com estranheza.

Por ocasião da história que “mudou os quadrinhos para sempre”, publicada na revista The Amazing Spider-Man 121, o nome dele já vinha em primeiro, com o de Romita agora em terceiro, como arte-finalista para o desenhista Gil Kane.

A galeria de mortos do Homem-Aranha, no traço de Marcos Martin

Bem, ainda com dezenove anos, e presente numa reunião de pauta da Marvel com Stan, Roy Thomas e Romita, os envolvidos com o título do cabeça de teia chegaram à conclusão de que a vida do Peter Parker andava muito normal, meio devagar, e que era preciso algo para chacoalhar um pouco as coisas. Como chegaram a essa conclusão pode ser um mistério para os leitores da época, que nas últimas edições tinham testemunhado a morte do capitão Stacy, a descida de Harry Osborn ao inferno das drogas e a ameaça do Rei do Crime como um dos grandes vilões do aracnídeo. Mas bons editores sabem mais, e o fato é que a poderosa tríade acima achava que, por mais que as histórias que vinham sendo contadas fossem empolgantes, elas estavam perigosamente cortejando a rotina: nosso herói “enfrentava os vilões, era incompreendido pela sociedade, tinha problemas corriqueiros, mas”… sua vida meio que seguia sem maiores problemas.

Romita sugeriu então que Peter teria que, mais uma vez, confrontar-se com a morte de um ente querido, meio como Gwen morteforma de demonstrar que o mundo é um lugar perigoso e que por vezes não é possível salvar todo mundo. Matar a tia May, então, seria um belo modo de sair do marasmo. Iria surpreender os fãs, iria criar um bochicho.

Não para o jovem Gerry Conway, que, com razão, apontou que velhos morrem todo o tempo, faz parte da vida, é meio que normal, no fim de contas, nada de surpreendente nisto, nada de trágico, e que por isso deviam escolher outra pessoa do círculo de relações de Peter Parker para morrer.

E foi neste exato momento que esse sujeito imberbe, esse adolescente egotista, acabou com a minha infância.

Vejam bem, eu tinha recém-completado onze anos quando a Ebal, em setembro de 1973, apenas cinco meses depois de ter saído nos Estados Unidos, publicou a edição em que a vida do Peter Parker foi atingida pela tragédia. E embora eu já tivesse lido algumas histórias que mostravam com relativa crueza os efeitos do uso de drogas em Harry Osborn, e embora eu tivesse ficado triste pela morte do capitão Stacy, e embora muito do que se mostrasse da sociedade americana nas páginas da revista do Aranha fosse muito complexo para um guri de nove pra dez anos — questões de raça, corrupção de políticos, dificuldades nos relacionamentos amorosos (sim, a Marvel era antenada com o seu tempo, vide as edições do Capitão América do mesmo período) —, tudo isso considerado, o Homem-Aranha era, para mim, o cara que, ao final da história, salvava o dia. E isso porque ele tinha aprendido em sua primeira história, da maneira mais dura, que era o que tinha que fazer.

death_of_gwen_stacy__by_troianocomicsDaí, numa história imediatamente posterior a um clássico absoluto, no qual o meu herói encarava epicamente ninguém menos que o Hulk, vem esse garoto de dezenove anos e, simplesmente, mata a então mulher da minha vida. Foi inesperado, foi brutal. E de certa forma, embora naquele dia eu tenha amadurecido um tantinho, não exagero ao afirmar que até hoje, passados mais de quarenta anos, eu ainda não tenha me recuperado totalmente.

 “A noite em que Gwen Stacy morreu”, pelas mãos do Duende Verde, talvez meu maior clássico dos quadrinhos pessoal de todos os tempos, muito por conta da idade em que li o troço, é inegavelmente uma das histórias mais marcantes dos quadrinhos. E por mais de uma razão.

Primeiro, porque clones e realidades alternativas à parte, Gwen Stacy jamais ressuscitou. E olhem que a pressão foi grande.

Segundo, porque balançou de fato o mundinho de Peter Parker, e dos super-heróis em geral. Até eu, do alto de meus onze anos, compreendi que aquele “snap” onomatopeico no quadrinho em que a teia alcança o tornozelo de Gwen Stacy sinalizava que ela tinha quebrado o pescoço por causa da tentativa do Aranha de salvá-la. (Não importa se ela já estava morta ou se morreria por efeito da queda, o fato é que o pescoço dela só quebrou por causa da teia.)Duende

Terceiro, porque embora então os quadrinhos da Marvel, e só os da Marvel, ressalte-se, já fossem mais maduros que os quadrinhos de super em geral, foi naquele momento que ficaram definitivamente adultos.

Na edição seguinte, após uma luta encarniçada com o Duende Verde, nosso amigão da vizinhança, utilizando apenas parcialmente os seus sentidos de aranha, desvia-se da geringonça voadora do vilão, mas (e aí a parcialidade) não impede que ela atinja o próprio Duende, Norman Osborn, pai do seu ex-melhor amigo, fatalmente, no coração.

Acabava ali essa história do herói que não mata. Ou, pelo menos, do herói que se importa com a morte do vilão.

Quer dizer, era pra ter acabado.

Mas os fãs, com suas cartas indignadas e cheias de ameaças (há relatos de constrangimentos insuportáveis que os autores, e o próprio Stan Lee, sofreram por parte dos participantes em convenções), foram os que acabaram mesmo por chacoalhar a ousadia daqueles editores e ba25eda31848569feb771e6221eadd3fdaquele jovem egocêntrico, que perceberam que seu público não estava preparado para enfrentar os duros fatos da vida e fizeram alguns remendos aqui, outros acolá nas histórias seguintes, findando, numa emenda bem pior que o soneto, por conceber a história da clone da Gwen, publicada dois anos depois e que, embora não tivesse ressuscitado a Gwen, terminou dando origem a uma das fases mais polêmicas e confusas do herói.

Não, Gerry Conway não exagera nem um pouco ao dizer que aquela simples edição mudou a história dos quadrinhos para sempre — dos quadrinhos de super-heróis, que fique bem claro —, apesar dos recuos posteriores.

A partir daí, os super-heróis se tornaram alcoólatras, violentos, Justiceiro(s) e inseguros. Mas, infelizmente, grande parte deles continuou morrendo e ressuscitando. Inclusive, vinte e cinco anos depois daquele fatídico ano de 1973, o próprio assassino da Gwen Stacy não só ressuscitou, mas tornou-se um personagem de respeito na cronologia atual da Marvel (que, venhamos e convenhamos, o que menos precisava era um clone do Lex Luthor na sua galeria de vilões).

A principal lição de “A noite em que Gwen Stacy morreu”, na verdade, não foi aprendida completamente pela Marvel, e nem pela sua rival: que os mortos deveriam descansar em paz. Isto faria bem à cronologia, faria bem à formação do herói e faria bem aos leitores, que poderiam sempre esperar o inesperado em vez de irem abandonando seus heróis preferidos pelo tédio.

BraboCarlos Alberto Bárbaro, o Chique Norris, é tradutor, preparador de textos e criador de casos profissional. Acredita que todos têm direito a opinar sobre tudo, mas que devem estar preparados para quando o sangue começar a jorrar

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4 comentários sobre “Chique Norris: A noite em que os quadrinhos QUASE mudaram PARA SEMPRE

  1. Uns dos melhores textos que li sobre esse acontecimento- o fato de descrever sua visão emocional acrescenta e muito para o contexto de leitores da época- e mesmo que eu não tenha lido a história exatamente no mesmo momento que ela foi publicada, ainda assim quando li senti o impacto e a importância dela. ótima explanação =)

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  2. cara eu realmente me sinto como voce.para mim homem aranha acabou qdo gwen stace morreu.tanto personagem inutil pa matar ..tantos personagens inuteis que ressucitam.e nada de gwen stace.sem contar no reboot do homem aranha.

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  3. Adorei o texto. É a prova de que, por mais que os quadrinhos de super-heróis queiram ser adultos, seus leitores mais xiitas não abandonam a infância emocional, forçando os editores a fazer remendos, também conhecidos como reboots. Aí fica esse papo de “sombrio”, “politicamente correto”, “cotas”, perde-se o senso de humor. Depois as vendas despencam e ninguém sabe o porquê.

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