Entre Balões: Explicando o MULTIVERSO da DC – Parte 2

earth-two_cover-art

A segunda parte de nossa matéria especial que explica as várias Terras existentes na DC

Por Ben Santana

A Maior Crise de Todas

Em 1985, a DC Comics completou cinquenta anos de existência. Para comemorar esse aniversário, foi preparado algo queCrisis pretendia colocar a casa em ordem, desbastando meio século de cronologia, Terras paralelas e múltiplas linhas temporais conflitantes para trazer, como resultado, algo mais amigável ao leitor, já que uma das maiores reclamações daqueles que começavam a ler a DC era sempre a mesma: devido ao multiverso, era impossível ter uma compreensão perfeita desse universo.

Isso nos parece um exagero. Terras paralelas e realidades múltiplas são uma constante da ficção científica e fantasia. Um dos autores que mais usou o conceito foi Michael Moorcock com sua (maravilhosa) série do Campeão Eterno, onde vários personagens (Elric, Corum, Von Beck, Hawkmoon e tantos outros) são “manifestações” de um mesmo ser. Manifestações que habitam, bem, terras paralelas. E eles, eventualmente. acabam cruzando de uma para a outra.

Entretanto, Marv Wolfman escreveu Crise nas Infinitas Terras, uma maxissérie em doze números que reiniciou o Universo DC e, como consequência, todas as múltiplas Terras foram destruídas, com exceção de cinco delas: a Terra-1, Terra-2, Terra-S, Terra-4 (que abrigava os personagens da Charlton) e a Terra-X (dos personagens da Quality).  Essas cinco Terras foram unidas em um novo planeta, chamado de “Nova Terra”.  Fim da história.

Só que não.

01Quando a pesquisa começou a ser feita para a criação de um evento que usaria todas as linhas temporais e Terras paralelas, foram notadas muitas discrepâncias na cronologia, algumas muito mal explicadas e outras apenas varridas para debaixo do tapete. Como o caso da Canário Negro da Terra-1 que era filha da Canário da Terra-2… Ou a existência de pelo menos dois futuros distintos, como o da Legião dos Super-heróis e o de Kamandi. Então, Wolfman surgiu com a ideia de “resetar” tudo através de Crise. Teria sido ótimo se existisse um planejamento editorial maior após o término da série. Como não houve, pesadelos de cronologia começaram aparecer.

Por exemplo, se John Byrne, em seu reboot do Superman (O Homem de Aço) estabeleceu que Clark Kent nunca tinha sido o Superboy, como explicar a existência da Legião dos Super-heróis no futuro, uma vez que o grupo foi inspirado pelo garoto de aço? Universos compactos e armadilhas do Mestre do Tempo pareceram nada mais que remendos mal feitos. A maior confusão ocorreu com o Gavião Negro, que ganhou uma minissérie, Hawkworld,  pelas mãos de Timothy Truman, que recontava o seu passado. Mas, por alguma razão, a DC resolveu dizer que a série se passava no presente, criando uma confusão enorme entre os leitores.

Wolfman queria que nenhum dos heróis recordasse a Crise e que o universo começasse de novo. Mas isso não aconteceu.  E o resultado foram histórias que acabavam se contradizendo. Exatamente o que a Crise deveria corrigir.

Zero Hora e Hipertempos02

Em 1994, quase dez anos após o fim de Crise, a DC tentou arrumar detalhes confusos que surgiram após a criação da Nova Terra. Dan Jurgens escreveu e desenhou a minissérie Zero Hora: Uma Crise no Tempo. Zero Hora  pretendia colocar as coisas no eixo. Mas, no final das contas acabou criando mais problemas do que resolveu. O maior exemplo foi a transformação do Lanterna Verde em Paralax, que depois se tornou o Espectro e depois o Lanterna Verde mais uma vez. E uma tentativa de explicar o Gavião Negro (sempre ele) que deixou as coisas ainda mais confusas.

Zero Hora não deixou satisfeitos nem os leitores e muito menos os editores. A ideia de tentar explicar algo sem usar a solução mais elegante das Terras Paralelas transformava as histórias em algo que se arrastava e acabava não funcionando.

O fato é que todo o conceito do multiverso era bom demais, mesmo que existisse gente que achasse o contrário. E, como não poderia deixar de ser, aos poucos ele começou a voltar, percolando pelo tecido da realidade do Universo DC.  E foi assim que, em 1999, Mark Waid e Grant Morrison trouxeram a ideia do Hipertempo, através de uma série chamada The Kingdom, que mostrava acontecimentos que poderiam levar à premiada série Reino do Amanhã (Kingdom Come), do próprio Waid, de 1996.

03A ideia do Hipertempo é interessante. É como se o tempo fosse um rio com vários tributários. Ele é explicado por Rip Hunter, um dos personagens da série:

“Eventos importantes frequentemente causam ‘tributários’ diferentes que se ramificam e saem da corrente principal do tempo. Mas, o que é mais espantoso aqui, é que existe muito mais que isso. Às vezes, esses tributários acabam retornando – muitas vezes retroalimentando a linha de tempo central, outras vezes se sobrepondo a ela brevemente, antes de tomar um caminho totalmente diferente. Um velho amigo, esquecido, de  repente é lembrado. Um pedacinho de história é lembrado de forma incorreta ou até mesmo reinventado.”

Resumindo: Crise pode ter criado uma única Terra, mas existem várias linhas de tempo, que muitas vezes podem se sobrepor uma às outras. Ou seja, toda e qualquer história publicada pela DC seria válida. Todas as histórias “imaginárias”, os Elseworlds (aqui batizados de “Túnel do Tempo” pela Editora Abril) eram possíveis e realmente aconteceram em um desses tributários da linha de tempo principal.

Como escreveu Shakespeare, em Romeu e Julieta, é apenas “a rosa, por outro nome”. Para termos práticos, o Multiverso estava de volta.

Mas Grant Morrison e Mark Waid saíram da DC e foram para a Marvel. E, subitamente, o Hipertempo se tornou um conceito non grato.

A verdade é que a DC estava se preparando para o próximo passo que consolidaria a volta do Multiverso.

A Crise é Infinita04

Para tentar explicar (ainda mais uma vez) várias incongruências geradas pelas sagas passadas, em 2005 foi lançada a Crise Infinita, escrita pelo novo garoto prodígio da DC, Geoff Johns. A ideia era que essa história seria uma continuação direta de Crise nas Infinitas Terras. A série foi uma crítica ferrenha de Johns sobre o que havia acontecido com a DC nos anos após a primeira Crise. Para ele, os super-heróis da DC tornaram-se sombrios demais e ele buscava a volta de um tempo mais inocente, mais heroico.

Personagens que haviam sobrevivido à aniquilação de suas realidades, como o Superman da Terra-2 e o Superboy da Terra Primordial, não estavam satisfeitos com os rumos que universo havia tomado (uma alegoria às próprias ideias de Johns). O Superboy, então, em ataques de raiva, literalmente deu “socos na realidade”, causando várias coisas que não se poderia explicar cronologicamente.

05Por exemplo, as várias interpretações da origem do Superman foram fundidas e no final, tal origem foi simplificada. O mesmo foi feito com as origens de Donna Troy e dos Homens Metálicos, além de unificar a Legião dos Super-heróis e voltar a colocar o Superman (quando menino) na história do grupo.

Mas, o mais importante: o que resultou da Crise Infinita foi a volta do multiverso. Menos de vinte anos depois, a Crise que deveria acabar com todas as outras Crises havia sido desfeita.

A Crise Nunca é Final

Depois de Crise Infinita, todos os títulos da DC foram adiantados cronologicamente um ano. Para explicar o que aconteceu durante esse ano “perdido”, a DC iniciou em 2006 uma série semanal chamada 52, que duraria um ano. No final dessa história é revelado que (surpresa!) o Multiverso ainda existe e passa muito bem, obrigado.

Inicia-se imediatamente após 52 mais uma maxissérie semanal, chamada de Contagem Regressiva que, na sua segunda 06metade, teve o nome mudado para Contagem Regressiva para a Crise Final. Nela vemos as várias “novas” realidades alternativas da editora e como elas convergiriam para ainda mais uma Crise. Só que, para usar o velho adágio do futebol, faltou combinar com os russos. Na verdade, “faltou combinar com o escocês”. Crise Final foi escrita por Morrison, que jogou fora quase tudo da maxissérie. A morte dos Novos Deuses? Jogada no lixo. Jimmy Olsen descobrindo a identidade do Superman? Nah… Morrison, em Crise Final, fez uma continuação, de certa forma, de outra série sua, Os Sete Soldados. A DC teve que engolir e, simplesmente, Contagem Regressiva foi varrida para baixo do tapete. Um evento anual. Cinquenta e duas edições. Bang. Esquecida e ignorada.

Crise Final (2008) foi recebida com sentimentos mistos. Ou seja, a maioria odiou. Primeiro porque, apesar do nome, não tinha o impacto cronológico que os leitores esperavam em uma série com o nome “Crise”. Segundo, Morrison é extremamente Morrison na série, tornando muito da série em algo hermético para o leitor médio. Crise Final, em minha opinião, é uma ótima história. E seria melhor ainda se não fosse anunciada como parte de algo maior, que acabou não se concretizando.

07Os rumos de Crise Final já tinham sido telegrafados por Morrison anos antes, em um dos arcos que ele escreveu em seu período na Liga da Justiça da América.  “A Pedra da Eternidade” mostra um futuro onde a humanidade foi escravizada por Darkseid, que havia conseguido a famosa Equação Anti-Vida. Morrison pode ser acusado de muita coisa, menos de não ser constante.

Em 2011, a DC resolveu reiniciar seu universo ainda mais uma vez. Ponto de Ignição (Flashpoint, no original) mostra um uma realidade totalmente modificada através de uma ação do Flash (e aí que o título original tem MUITO mais sentido… afinal, o Flash sempre esteve ligado, de uma maneira ou outra, ao Multiverso). O resultado foi a criação dos Novos 52, toda uma nova linha que permitia que o público começasse a ler os títulos “do zero”. Sim, por mais criticados que tenham sido os Novos 52 (e eu concordo com várias dessas críticas), a ideia era trazer novos leitores para a DC.

Nesse novo universo DC, havia uma Terra-2 (inclusive com um título próprio, escrito por James Robinson). E essa Terra-2 teria uma importância enorme para o que viria a seguir.

A Multiversidade é o Fim dos Tempos ou apenas uma Convergência?08

Fim dos Tempos (Future’s End), Multiversidade (Multiversity) e Convergence (ainda sem nome aqui no Brasil) se seguiram a partir de 2014. São séries que ainda estão sendo publicadas por aqui, então não daremos spoilers. Basta saber que as três são interligadas e levam a mais um grande evento. Uma Crise? Talvez não na maneira à qual estamos acostumados. Só podemos sugerir que continuem lendo essas edições.

O fato é que o conceito do Multiverso é bom demais para ser esquecido, mesmo que os editores venham tentando fazê-lo desde Crise nas Infinitas Terras. A ideia de diferentes universos paralelos dentro da DC está impressa na mente dos fãs e dos roteiristas. Ela é forte demais para que simplesmente acabe por uma decisão editorial, é uma caixa de brinquedos interessante demais para ser abandonada.

Portanto, vida longa ao Multiverso.

BenBen Santana nasceu no final da Era de Prata, mas cresceu na Era de Bronze. Professor, tradutor e desocupado (quando sobra tempo), vem lendo e pesquisando quadrinhos desde sempre. Para outros textos sobre quadrinhos, visite seu blog: http://prataebronzecomics.blogspot.com.br


Clique no ícone abaixo e curta O PASTEL NERD no FACEBOOK para não perder nossas atualizações:

Facebook

Leia também:

Entre Balões: Explicando o (complicado) MULTIVERSO da DC COMICS

ENTRE BALÕES: “Na minha Época os quadrinhos eram melhores!” Mas será que eram mesmo?

ENTRE BALÕES: O sucesso e o fracasso de MIRACLEMAN

Anúncios

7 comentários sobre “Entre Balões: Explicando o MULTIVERSO da DC – Parte 2

  1. Excelente explanação Ben, muito bom! Esse artigo vai me ajudar bastante a explicar para os meus filhos o multiverso DC, uma vez que ele será explorado na série televisiva do Flash e confesso a você, é difícil explicar pra quem não leu todas as “crises” quem é quem. Infelizmente como a leitura não é o forte deles, vou ter que explicar eu mesmo rsrsr. Vou compartilhar. Forte abraço!!

    Curtir

  2. Acho a idéia de multiverso desnecessária.
    Acredito que deveria haver um único universo oficial, onde a DC teria controle editorial e pensaria os rumos das histórias, enquanto, em paralelo, existiriam outros títulos onde prevaleceria a criatividade dos autores e eles poderiam lançar as histórias nos contextos que achassem mais interessante, sem qualquer responsabilidade em respeitar os eventos A ou B. Assim como na antiga “Contos do Batman”, deveriam esses títulos possibilitar a expansão da criatividade dos autores e teríamos história fechadas ou mi-séries. Na cronologia oficial contaríamos com um só universo regular.
    Eu acho que o pessoal da DC tem sérios problemas com a idéia de multiverso. Ano sim, ano não eles precisam fazer universos se chocarem, personagens migrarem, colapsos cósmicos, ameaças para múltiplas realidade… É a mesma idéia eternamente reciclada. Lamentável.

    Curtir

  3. Muito bom o seu texto, parabéns. Eu pessoalmente adoro o Multiverso, e acho que sem ele a criatividade fica mais limitada.
    Outra coisa que eu acredito, é que como a série Flash está abordando esse tema, e na questão das séries da DC serem teoricamente serapadas dos filmes, eu acredito fortemente que um dia a DC vai unir Tv e Cinema e quem sabe até de épocas diferentes de fazer uma mega Saga unindo tudo. Imaginem que legal ver o Flash da série se encontrando com o do Ezra Miller, ou Bale se encontrando com Keaton e Affleck. Ou seja, seria na miha opinião uma coisa sensacional.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s