MARTE: um planeta de AVENTURAS FANTÁSTICAS

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O planeta vermelho e seu fascinante relacionamento com a humanidade, por meio da ciência e da ficção científica

Por Ben Santana

A fascinação por Marte vem de longa data. Ele era um dos cinco planetas que podiam ser vistos a olho nu na antiguidade. Marte,  Mercúrio, Venus, Júpiter e Saturno eram chamados de Andarilhos, que se recusavam a seguir o mesmo passo das estrelas.

Marte, o planeta vermelho, era associado com a guerra, com o sangue e com o fogo. Foram os romanos que o batizaram em homenagem ao seu belicoso deus, senhor de todas as batalhas.

Galileu observou Marte através de suas lentes, em 1610. Cassini, em 1672 mostrou que havia calotas polares no planeta. Em 1877, Asaph Hall nos revelou  a existência de duas luas no planeta, Phobos (Medo) e Deimos (Terror). Tudo isso fez que a imaginação dos terráqueos voasse na direção daquele planeta vermelho, daquele olho furioso do deus da guerra, sempre a nos observar.

Mas o que realmente assombrou o mundo foi o anúncio do astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli, que nos informou, em 1877, que ele havia observado “canali” em Marte. Na verdade, eram linhas escuras que cruzavam a superfície do planeta.

(Aqui cabe uma explicação: Algo foi perdido, com certeza, na tradução. “Canali”, em italiano significa canal, obviamente. 17412820_ScYq2Mas em inglês existem duas palavras: “channel”, que são formações naturais e “canal”, construções artificiais. Quando a descoberta de Schiaparelli foi mostrada aos países de língua inglesa, eles foram traduzidos para “canal”, a forma artificial. Talvez porque o mundo estava no auge de tais construções. O Canal de Suez tinha sido recentemente inaugurado (1877) e logo (1881) os franceses iniciariam o do Panamá. Ou talvez porque a ideia de ter algo construído por outra raça, por marcianos,  era muito mais interessante que uma mera característica geológica.)

É claro, as observações de Schiaparelli fizeram que o interesse pelo planeta aumentasse. Por parte de cientistas e escritores. Com certeza fez que o astrônomo americano Percival Lowell ficasse obcecado por Marte e realmente declarasse que os canais do planeta eram artificiais. Entre 1896 e 1908, ele publicou diversos livros sobre isso, fazendo que a teoria sobre os “canali” fosse aceita pelo público em geral.

Tais canais deveriam ter sido construídos pelos marcianos para levar a água dos polos até os vastos desertos do planeta.

É claro, muitos da comunidade científica não partilharam do entusiasmo de Lowell e suas teorias foram ridicularizadas. Mas não antes de a ideia ter criado raízes profundas no imaginário popular

A Ficção Científica

006Escritores do século 17 já haviam escrito sobre viagens a Marte. Autores como Athanasius Kircher e Emanuel Swedenborg narraram viagens ao planeta vermelho ainda nos 1600s. Após as descobertas de Schiaparelli, apareceram várias histórias, por Percy Greg (Across the Zodiac), Camille Flamarion (Uranie), Gustave Pope (Journey to Mars) e tantos outros.

Mas o primeiro romance puramente “científico”  foi escrito por H.G. Wells em 1889,  o clássico A Guerra dos Mundos, que mostra uma invasão marciana ao planeta Terra. A Guerra dos Mundos ganhou notoriedade no Halloween de 1938, quando um jovem Orson Welles encenou o livro em seu Mercury Theatre on the Air, criando uma das mais famosas farsas de todos os tempos. Apesar de ter sido avisado no início do programa que era uma dramatização, a maioria dos ouvintes achou que nós realmente estávamos sendo invadidos, criando uma histeria coletiva.

Desde então, A Guerra dos Mundos ganhou várias versões, no 005cinema, televisão e até nos quadrinhos  (a invasão descrita por H.G. Wells, por exemplo, é um dos pontos principais do segundo volume d’ A Liga Extraordinária, de Alan Moore).

Mas se Wells trouxe os marcianos para a Terra, ele nunca nos levou até lá. Garret P. Serviss publicou, no mesmo 1898, uma espécie de continuação de A Guerra dos Mundos, o esquecível Edison Conquest of Mars. Apesar de ninguém se lembrar dele hoje em dia, o livro foi um best-seller na época e extremamente influente para novos escritores.

Mas o melhor estava por vir.

John Carter… da Virginia e de Marte

5177146536_4ae1b744e6_oA ideia de transplantar um terrestre a Marte já ocorria na ficção pelo menos desde 1880, no acima citado Across the Zodiac. Edwin Lester Arnold escreveu, em 1905, Lieut. Gullivar Jones: His Martian Vacation, no qual o Tenente Jones do título chega a Marte por meios místicos (um tapete mágico) e tem uma série de aventuras por lá. Os leitores odiaram. Tanto que fizeram que Arnold desistisse de escrever.

Mas,em 1912, Edgar Rice Burroughs – que ficaria famoso com a sua outra criação, Tarzan – começou a publicar nas páginas da revista pulp All-Story as aventuras de John Carter, em Under the Moons of Mars. O trabalho de Burroughs tem muitas similaridades com o de Arnold, mas ele era um contador de histórias muito melhor. E a série fez sucesso suficiente para que em 1917 fosse colecionada em um volume com o nome com que ficaria mais conhecido: Uma Princesa de Marte.

O livro nunca deixou de ser publicado desde então e gerou uma série de pastiches ejohncarter_poster imitações. O Marte de Burroughs (chamado por seus habitantes de Barsoom) é habitado por marcianos verdes e vermelhos. E a quantidade de conceitos usada pelo escritor é enorme: Tharks, barcos voadores, pistolas de raios, projeções astrais, macacos brancos gigantes, espadachins audaciosos e princesas vestidas apenas com joias. A alta octanagem das histórias de Burroughs permitiram que dez continuações fossem escritas, algumas com Carter, outras com seus descendentes.

Além disso, um dos grandes tropos da ficção científica apareceu e foi trabalhado de maneira espetacular na série de Barsoom. Carter, por ser da Terra e estar em uma gravidade menor, torna-se superpoderoso. E decide defender seu mundo adotivo. Esse tipo de coisa teve influências em obras tão distintas quanto o Superman e Avatar, de James Cameron.

Mas sem dúvida, a verdadeira estrela da série é Barsoom. A riqueza de detalhes de Burroughs, seu world building inspirou (e vem inspirando) autores desde então.

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Um deles, certamente foi Ray Bradbury, que escreveu uma série de histórias sobre Marte na década de quarenta. 002Colecionados em 1950 em As Crônicas Marcianas, tornou-se talvez o que seja a sua obra mais poética. E isso é dizer muito sobre um dos melhores autores americanos de todos os tempos. Autores. Não só de ficção científica. As Crônicas Marcianas é um daqueles livros que todos têm que ler, gostando ou não de ficção científica.

Vários grandes escritores achavam o tema fascinante. Robert Heinlen, Roger Zelazny, Michael Moorcock. Todos eles escreveram sobre aquele “Marte Antigo”. Um Marte que logo desapareceria.

O Marte Real

A corrida espacial estava a pleno vapor. Os soviéticos tinham colocado um homem no espaço. Os americanos chegaram a Lua. E logo os olhos da humanidade se voltaram ao resto do sistema solar. Marte, obviamente, estava na agenda.

A sonda Mariner 9 entrou na órbita marciana em 1971. E mostrou que aquele Marte que conhecíamos das histórias de ficção científica não existia. Era um planeta inóspito e sem graça, muito mais parecido com a nossa Lua do que com Barsoom.

004O “Marte Antigo” não existia mais. E a ficção científica se voltou para o “Novo Marte”, sem princesas vestidas com joias ou terrestres que chegaram até lá através de tapetes mágicos.

O melhor representante dessa nova fase é Kim Stanley Robinson que escreveu a trilogia sobre a colonização de Marte (Red Mars, Green Mars e Blue Mars), na qual contou a epopeia da transformação do planeta em um lugar habitável. Apesar da beleza da obra, o Marte de Robinson é algo possível. E “possível” não é tão charmoso quanto “fantástico”.

De qualquer maneira, Marte voltou a ser destaque nos jornais na segunda feira, 28 de setembro de 2015. A NASA informou que há água em estado líquido em Marte, que corre durante os meses do verão marciano, através de crateras e cânions, e deixa manchas escuras na superfície. Marte teve oceanos, muito tempo atrás.

Schiaparelli, onde quer que esteja, deve ter aberto um largo sorriso. Assim como os grandes autores de ficção científica que ousaram nos levar a um Marte que, disseram, não existia. Não existia? Para mim e para muitos outros, Barsoom se fez real nas páginas amareladas daqueles livros de bolso.

Não, não existe nada mais real que isso.

BenBen Santana nasceu no final da Era de Prata, mas cresceu na Era de Bronze. Professor, tradutor e desocupado (quando sobra tempo), vem lendo e pesquisando quadrinhos desde sempre. É amante da ficção científica e um romântico incorrigível. Para outros textos sobre quadrinhos e afins, visite seu blog: http://prataebronzecomics.blogspot.com.br


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3 comentários sobre “MARTE: um planeta de AVENTURAS FANTÁSTICAS

  1. Que artigo bonito e bem escrito… E que temática oportuna! Adorei, parabéns.

    O apanhado histórico, literário e “quadrinístico” feito aqui foi fascinante. De fato, o planeta vermelho não é apenas uma incógnita científica a ser desvendada, mas também atiça a nossa imaginação!

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    • Grato, Andhora. Marte sempre foi um lugar, pelo menos para mim, fácil de chegar. Burroughs, Moorcock e tantos outros me levaram para lá quando era ainda criança. Espero que eles levem muitas outras crianças para que elas brinquem nas areias vermelhas de Barsoom.

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