Entrevista exclusiva: JAL, um batalhador dos quadrinhos no Brasil

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Um bate-papo com José Alberto Lovetro sobre o trabalho no Troféu HQ Mix, as polêmicas com Danilo Gentili e a campanha de divulgação, e seu trabalho na Mauricio de Sousa Produções

Por Wilson Simonetto

maxresdefaultJosé Alberto Lovetro, ou como é mais conhecido,  Jal, é cartunista, jornalista e presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil (ACB). Jal tem uma extensa lista de trabalhos: Em quadrinhos, trabalhou em várias publicações como Crás (Editora Abril), O Pasquim, Klik (Editora Ebal), Monga (Editora Press). É autor dos livros Como Votar Certo (2000, Editora Aquariana), em parceira com Jorge Sá de Miranda; A história do futebol no Brasil através do cartum 1(2004, Editora Bom Texto), Gol de Bico: Nossa história narrada pelas charges (2013, Panini Books) da coleção Futebol Arte, ambos em parceria com o amigo Gualberto Costa. Também já lecionou quadrinhos na ECA-USP.

Ao lado do  Guaberto, o Gual, trabalhou no programa de televisão TV Mix, da TV Gazeta, no final dos anos 80, onde divulgavam assuntos relacionados aos quadrinhos. A dupla criou o prêmio HQMix, premiação anual voltada para os quadrinhos que, desde sua primeira edição, em 1989, teve 27 edições. Jal bateu um papo exclusivo com O Pastel Nerd sobre sua vida nos quadrinhos, seus projetos as polêmicas ligadas ao HQ Mix.

Como você enxerga o mercado nacional, atual de quadrinhos? E o futuro?

O quadrinho brasileiro está em seu melhor momento. Só no ano passado, foram mais de 1.600 lançamentos de revistas ou livros ou fanzines. A descoberta de que há um bom público adulto para os quadrinhos, principalmente demonstrado pelos lançamentos das graphic novels MSP, nos dá a noção de que já perdemos muito tempo em não investir nesse mercado.  Acredito que, no futuro próximo, vamos crescer mais ainda, porque o nível de roteiros que antes era fraco, agora está muito bom.

Em sua opinião, existe corporativismo ou rivalidade no mercado?

2Sempre houve um desconhecimento do mercado pelos desenhistas e editores. Tanto por não termos cursos especiais dentro das faculdades de Comunicação, como o que tem na ECA–USP, como pela acomodação dos editores em publicar por muitos anos material estrangeiro, que basta traduzir e imprimir sem muito trabalho. Como esse material vem em preço baixo e com todo o plano de marketing já pronto e difundido pelo mundo, o editor não quer arriscar algum produto novo nacional. Um erro, porque o cara que mais vende quadrinhos no Brasil é um brasileiro e alguém acreditou nele para publicar.

Como foi a criação do HQ Mix?

Eu e o Gualberto Costa tínhamos uma coluna para falar de HQ e humor gráfico nos programas TV MIX 2, apresentado jal e gualpela Astrid Fontenele, e TV MIX 4, apresentado por Serginho Groisman. Era na TV Gazeta de São Paulo e tinha ótima audiência. Um dia conversamos com o Serginho para criarmos um troféu para a categoria. Para isso, criamos a ACB- Associação dos Cartunistas do Brasil para organizar a votação nacional entre os profissionais da área. Assim, em 1988, fizemos o primeiro no Museu da Imagem e do Som. O segundo foi em uma casa de shows de sucesso com a moçada na época, o Aeroanta. Depois já fomos para o SESC Pompeia que é onde mais realizamos o evento nesses 27 anos.

Como você, uma personalidade influente no mercado de quadrinhos, enxerga a importância do HQ Mix? 

Criamos o HQMIX para dar maior visibilidade para os profissionais e nossa produção na área de quadrinhos. Não importa quem ganhe, mas o que representa para alavancarmos um mercado que desde então cresceu.  Guardando as devidas proporções, é o mesmo processo que um Oscar produz para levar gente ao cinema em uma época em que temos todo o conforto e tecnologia em casa. Isso se chama marketing e é necessário para sobrevivermos e darmos emprego para profissionais do desenho.

gentiliO que você sentiu a respeito de algumas críticas, como a premiação ao Danilo Gentili?

Quando criamos um prêmio para o leitor e fã de quadrinhos famoso, era pra valorizar todos os leitores de quadrinhos. Todos nós, editores, desenhistas, roteiristas, precisamos de leitores para ter um mercado que nos dê trabalho. E porque o HQMIX sempre foi meio inovador em termos mundiais.  Assim temos um troféu que muda a cada ano, homenageando um personagem nacional de quadrinhos. Assim, fomos os primeiros a dar troféu para a área acadêmica com três deles para TCC, Mestrado e Doutorado, valorizando o estudo da linguagem nacionalmente.  Assim fazemos um processo de votação com júri de pesquisadores e jornalistas indicando sete concorrentes para cada item e colocando essa escolha por mais de uma semana para receber pitacos ou lembranças do que talvez tenhamos esquecido. Aí o júri volta a rever alguns pontos e críticas para melhorar o processo.  Quem faz isso no mundo? Então o troféu para alguém que valoriza nosso trabalho e abre portas para que outras pessoas comecem a se interessar é mais uma dessas ideias. O Gentili levou vários cartunistas ao seu programa. Começou como desenhista de quadrinhos. Acho que o pessoal não entendeu. E por isso também não demos continuidade. Artistas como Ed Mota, João Gordo, Edgard Scandurra, entre outros dariam uma bela galeria e por consequência fortaleceriam mais a divulgação dos quadrinhos. Enfim, quem realiza algo tem o ônus de estar dando a cara á tapa. Acho que já criamos calo no rosto.

Quais são as dificuldades de se manter, após tantos anos, essa premiação? A exposição recente no metrô parece uma boa iniciativa.

Para o HQMIX crescer em sua organização é preciso apoio de patrocinadores. Alguma editoras chegaram a nos oferecer patrocínio, mas não pudemos aceitar porque se alguma delas ganhasse o troféu por alguma publicação, logo viriam criticas de que estaria havendo proteção. Pela transparência do troféu, recusamos. Temos uma equipe de voluntários que aguentam muita coisa – tempo doado em detrimento de estarem com suas famílias ao invés de reuniões e mais reuniões que precisamos fazer para estudar cada ideia e cada critica. Cada pessoa tem um jeito de ver o troféu e por isso defende hq-mix-machismo-albummudanças em itens ou temas e até forma de votação. Queremos começar a atingir as pessoas de fora para nossa arte. Começou no Metrô Sé, espaço nobre das catracas de entrada, por onde passam cerca de 600 mil pessoas a cada dia. Muitas não tem tempo de olhar, mas como fica por um mês naquele espaço, um dia a pessoa para e dá uma olhadinha. No mês de setembro foi para a Estação Paraíso, bem em frente ao prédio da Unip, onde temos mais de 100 mil estudantes. E agora em outubro foi para a Estação Corinthians-Itaquera. Nessas três estações, por três meses. atingimos mais de um milhão de pessoas. Uma conquista importante.

Não quero me estender em uma polêmica que já foi demasiadamente debatida, mas preciso lhe perguntar: o que houve no caso da divulgação do último HQMix, que gerou protestos?

Foi uma campanha que iniciamos e terminamos em 3 horas por não ser bem aceita por uma parte das pessoas. Mesmo assim gerou polêmica exagerada. O Troféu HQMIX é maior que os erros que podem ter sido cometidos em sua trajetória.  Ninguém está livre de errar. Mas é preciso ter a hombridade de analisar uma situação olhando toda essa história construída. Afinal estamos todos do mesmo lado, lutando pelo quadrinho no Brasil.

mauricio_monicaQual é sua atividade na Maurìcio de Sousa Produções?

Trabalho na assessoria de comunicação, onde atendemos cerca de 10 a 20 jornalistas por dia que querem entrevistá-lo. Também estudantes e blogueiros. É um trabalho constante já que o Mauricio não tem esse tempo todo para dar entrevistas. Sou jornalista e também desenhista. E quando sobra um tempinho crio alguma historinha como roteirista para a Turma da Mônica.

Como é trabalhar com o Mauricio de Sousa?

Ele é uma pessoa simples e bem humorada. Consegue manter uma equipe sempre em ponto de bala para novas ideias. Por isso mantem um público constante nesses 55 anos de trabalho. Gosta de desafios e por isso seus leitores sabem que estão sendo valorizados. Mesmo com o país impondo limitações pelo momento difícil, ele não desiste de novas ideias e lançamentos. Trabalhar com alguém como o Mauricio, que cria leitores aos cinco anos de idade, é uma alegria. Leitores que são para todos nós aproveitarmos. É mais difícil conquistar alguém que não tem o costume de ler quadrinhos do que alguém que alimenta esse costume desde criança. Depois, porque hoje estamos vivendo um momento mágico em que estamos retomando esses leitores já adultos para voltarem a ler quadrinhos.

Você acha que o Maurício é devidamente reconhecido no mercado nacional?

Até um tempo atrás ele era visto mais como um empresário de sucesso que soube viver de quadrinhos. Mas passou um tempo e hoje está sendo reconhecido como o criador de um sonho difícil de ser realizado no Brasil – manter leitores. São cerca de 10 milhões de leitores por mês. Por isso foi o primeiro desenhista de quadrinhos a entrar em uma Academia de 4Letras (a Paulista), no mundo. Vem sendo homenageado por todos os cantos do país e no exterior. A comenda que ele recebeu do governo japonês é dada á poucos pelo mundo. A exposição que está acontecendo na Coreia do Sul, com mais de mil metros quadrados em sua homenagem, é para grandes artistas mundiais.

No que você está trabalhando atualmente?

Minha empresa de comunicação tem produzido muitas exposições e eventos na área de quadrinhos e humor gráfico. As Flashexpo, que organizo, tem repercutido bem pelo país e no exterior.  Eu e Gualberto também escrevemos livros e produzimos documentários. Com a professora Sonia Luyten estou desenvolvendo o livro sobre como utilizar quadrinhos na sala de aula.

E projetos futuros? 

Espero continuar criando muitos outros projetos. Sempre.

WilsonWilson Simonetto é colaborador do site Chamando Superamigos e da revista Mundo dos Super Heróis. É colecionador de quadrinhos e prestigia todos os eventos nerds que pode, o que já rendeu a ele o apelido de “Homem-Evento”

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