Porque a SAGA DO CLONE do HOMEM-ARANHA é melhor que o HOMEM-ARANHA SUPERIOR

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Apesar dos erros cometidos pela Marvel, uma das histórias mais odiadas do herói aracnídeo pode não ser tão ruim quanto muitos acham

Por Eduardo Marchiori              

Sabe aquela sensação de que a pior coisa que já te aconteceu, de repente, não era tão ruim assim, olhada por outra perspectiva? É esta a sensação que tenho ao lembrar da Saga do Clone.

Em toda carreira do Homem-Aranha, um dos momentos mais constrangedores e odiado por dez entre dez fãs é a famigerada Saga do Clone. Não conheço quem goste daquela fase longa, confusa e incoerente, produto de uma década repleta de quadrinhos com roteiros medíocres, heróis sanguinários e desenhos feitos para encher os olhos, mas nunca o cérebro.  03

Passados 20 anos e comparando com a recente fase “Superior” do personagem, dá para ler aquelas histórias sem sentir vontade de rasgar as revistas – sensação que é impossível evitar ao ler as HQs do Homem-Aranha Superior. No fim das contas, dá pra encontrar muita coisa positiva naquele imbróglio todo – lembrando que “positivo” não quer dizer excelente, mas apenas “nem tão intragável”.

Recapitulando

Só para relembrar (ou posicionar os leitores mais novos), a Saga do Clone teve sua origem em um excelente arco do roteirista Gerry Conway publicado de Amazing Spider-Man 144 a 150 (1975). Nele, o Aranha reencontra sua amada Gwen Stacy – assassinada poucos meses antes pelo Duende Verde – viva e sem a lembrança dos últimos acontecimentos.

O herói descobre que esta jovem é, na verdade, um clone fabricado pelo vilão Chacal e, para maior surpresa, o vilão revela ser Miles Warren, um dos professores de Peter Parker na Universidade Empire State. Apaixonado por Gwen, Warren culpou o Homem-Aranha pela morte da jovem e decidiu se vingar criando um clone da jovem a fim de atormentar o herói.

Web_of_Spider-Man_117O Chacal também criou um clone de Peter Parker (utilizando amostras sanguíneas que eles tinham tirado durante as aulas de ciências) e, assim, descobriu sua identidade secreta. Com isso, o vilão apagou a memória do Peter falso e provocou uma luta entre o original e o clone do qual apenas um saiu vivo. Ao final, Peter jogou o corpo sem vida de sua cópia numa chaminé de uma fábrica incineradora e a história acabou aí.

Vinte anos depois, em Spectacular Spider-Man 216 (1994), o roteirista tom DeFalco trouxe o clone de volta, sem dar qualquer justificativa de como ele estava vivo (meses depois foi revelado que o clone acordou no chão da fábrica, sem saber como havia ido parar lá). Batizando a si mesmo de Ben Reilly (uma fusão do nome de seu tio morto e o sobrenome de solteiro da tia May) e com as memórias da juventude de Peter Parker, o jovem permaneceu escondido e resolveu voltar quando soube que Tia May estava hospitalizada.

Para proteger a identidade de Peter, Ben criou a identidade do Aranha Escarlate, até04que ambos descobriram que o Aranha original, na verdade, era Ben e que o jovem que vivera como Peter nos últimos anos era o clone. Aproveitando que Mary Jane estava grávida, Peter resolveu abandonar sua carreira heroica e cuidar da esposa, deixando para Ben a responsabilidade de ser o Homem-Aranha.

A saga se espalhou por todos os títulos do Homem-Aranha na época (Amazing Spider-Man, The Spectacular Spider-Man, Web of Spider-Man, Spider-Man e The Sensational Spider-Man, além de minisséries e especiais) e só foi terminar cerca de dois anos depois, com a revelação que tudo não passou de um plano do primeiro Duende Verde, Norman Osborn (que todos acreditavam estar morto desde Amazing Spider-Man 122, 1973), e que Peter era, sim, o Aranha original e o clone… bem, era o clone!

Ideia boa, má condução

Não há como negar que a origem do clone foi uma história original e revolucionária – a ovelha Dolly, o primeiro ser vivo criado a partir de células somáticas, só veio a surgir em 1997. Mesmo sabendo que os testes de clonagem começaram em 1995, a própria saga teve início um ano antes. Ou seja, a ideia era bem criativa. Abrindo um parêntese: um dos episódios da série de TV do Homem-Aranha, em 1977, também mostra o herói sendo clonado, numa referência ao roteiro de Gerry Conway.

02O que estragou tudo foi, indiscutivelmente, a duração da saga, fruto da ganância da Marvel, que se empolgou com as vendas das revistas, que aumentaram nos primeiros meses. Inicialmente, a Saga do Clone deveria durar poucos meses, mas os leitores começaram a se interessar pelas reviravoltas da trama e as vendas cresceram. Com isso, os editores estenderam a saga e, como cada um dos títulos do herói tinha uma equipe criativa diferente, o caos se formou.

Apesar disso, se desconsiderarmos as confusões cronológicas, aquelas histórias não scarlet_spider_costume_4_by_kaioden-d4imycmperderam o clima divertido das aventuras do aracnídeo, mantendo o bom humor e a ação que lhe são característicos. A gente sabia que, seja Ben Reilly ou Peter Parker, era o Homem-Aranha que estava ali – diferente da versão Superior, onde o herói perdeu sua personalidade e se tornou insuportavelmente arrogante.

Outra ideia bacana da saga foi a criação do Aranha Escarlate. Quem pode dizer que o novo aracnídeo não era um personagem legal, com seu uniforme descolado e as inovadoras “teias de impacto”? A preferência dos leitores fica clara na quantidade de cosplays do herói que se vê nas convenções de quadrinhos pelo mundo afora, provando que ele nunca foi esquecido, ao contrário da saga.

A volta do Duende Verde original também foi consequência da saga e rendeu bons frutos – embora, na época, tenha 01parecido uma solução medíocre e apelativa. Mesmo com a justificativa absurda que Osborn ressuscitou graças ao soro do Duende em seu sangue, o tempo mostrou que o vilão é indispensável ao Universo Marvel. É o típico personagem que amamos odiar, mesmo sendo praticamente uma cópia amalgamada de Lex Luthor com o Coringa.

E não podemos esquecer que, embora não esteja diretamente ligada à saga, as aventuras da Garota-Aranha, a filha de Peter Parker e Mary Jane do universo alternativo MC2, também é uma consequência desta fase, já que a gravidez de Mary Jane começou ali. É verdade que Mary Jane foi envenenada por Osborn e sofreu um aborto, mas a ideia da filha do Aranha gerou uma HQ da série “O que aconteceria se…?” que caiu no gosto dos leitores e fez a heroína ser publicada de 1998 a 2010, totalizando três títulos e mais de 100 edições.

Por fim, vale dizer que, em comparação com o Homem-Aranha Superior, os roteiros da05 Saga do Clone são muito mais criativos, se lembrarmos que Dan Slott “requentou” uma premissa da minissérie “A última caçada de Kraven”: matar o Homem-Aranha, tomar sua identidade e provar-se superior. Duvida? Leia a página ao lado. A diferença (gritante) está em saber escrever uma boa história.

Como se vê, a Saga do Clone foi uma sucessão de erros, mas como a maioria dos erros, começou com uma boa intenção. Infelizmente, diz o velho ditado que, de boas intenções o inferno está cheio e, no caso deste período tão conturbado na carreira do nosso Amigão da Vizinhança, os seus autores dificilmente vão ganhar a redenção.

P.S.: A Saga do Clone ganhou uma versão no Universo Ultimate, publicada no Brasil nas revistas Marvel Millennium Homem-Aranha 68 a 74 (Panini, ago/2007 a jan/2008) e uma releitura da história “como deveria ter sido”, roteirizada por Tom DeFalco e publicada na revista A Teia do Homem-Aranha 4 (Panini, dez/2010). Ambas de ótima qualidade, que merecem ser lidas.

EduEduardo Marchiori é jornalista, escreve para as revistas Mundo dos Super-Heróis e Mundo Nerd e é responsável pelo blog Raio X (http://mutantexis.wordpress.com), também voltado à cultura pop. Gostaria de ter um clone para escrever mais matérias, mas fica com receio de o clone tomar seu lugar depois z

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9 comentários sobre “Porque a SAGA DO CLONE do HOMEM-ARANHA é melhor que o HOMEM-ARANHA SUPERIOR

  1. Lembro também daquele bizarro clone defeituoso que tinha o grande poder de causar câncer nas pessoas com o toque (!!!!), o Kaine. Recentemente ele foi ‘reciclado’ como o novo Aranha-Escarlate, agora um tipo de Homem-Aranha mais parrudo e porradeiro.

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  2. Ok, isso me deixou meio confuso. Você ta me dizendo que uma das piores sagas do aranha é pior que a “Superior”? Eu sei que a fase “Superior” é do tipo “Ame ou Odeie” mas nem ferrando a Saga do Clone (de 1975) é melhor que a Superior.

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  3. Pessoalmente, só gosto das HQs do Aranha criadas nas décadas de 1960 e de 1970, e uma ou outra coisa que foi feita depois disso. Mas devo concordar que a Marvel alcançou seus objetivos: vender revistas (mesmo que os leitores comçaprassem para ficar reclamando da história) e lançar um novo personagem,(o Aranha Escarlate, para ganhar com licenciamento para brinquedos, desenhos animados etc.

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  4. Eu gostei da saga do clone, mesmo ela tendo sido tão extensa e concordo com quem não gostou. Pontos de vista diferentes não significa que não sou capaz de entender quem não gosta. Pra mim, o que prejudicou a saga foi o final tosco com o retorno do Duende Verde. Pode até ser que ele tenha boas histórias feitas hoje em dia (não tem nenhuma que eu goste até o momento, mas novamente é questão de gosto pessoal), mas pra mim ele deveria ter permanecido morto.

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    • Minha opinião é exatamente igual: gostei da extensa saga do clone: tivemos um enorme desfile de excelentes desenhistas de calibre como Buscema, Sienkiewicz, Bagley, Butler, Romita e etc. Tenho ótimas recordações do belo momento onde Peter e seu clone ficam a relembrar sua infância, o que odiei mesmo e considero a pior decisão editorial entre TODAS AS HISTÓRIAS DO ARANHA foi trazer Norman Osborn à vida! Até hoje também não gostei de nada envolvendo o vilão, ao contrário: ridiculamente ret-conearam uma ligação amorosa entre ele e Gwen Stacy, ou seja conseguiram estragar até o passado de uma das melhores personagens do Aranha mesmo após sua morte. Para encerrar tenho como 2º pior item no histórico do herói o desenhista Humberto Ramos….

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  5. Muito bom ver alguém elogiando essa saga, pois na época que comecei a comprar Homem-aranha, ela já havia terminado. Porém, sempre via alguma carta ou outra de algum leitor criticando essa saga. E volta e meia vejo comentários em tudo que é site falando mal dela. Mesmo assim, já tinha vontade de adquirir os encadernados gringos pra conferir se ela era ruim mesmo ou não, mas agora fiquei com mais vontade.
    É complicado certas opiniões, às você não sabe de quem tá vindo elas, se é de um cara que conhece melhor o Aranha melhor do que vc, ou se é um daqueles modernistas modinhas que pensam que tudo que sai hoje é melhor do que tudo que veio antes, ou simplesmente é um maria-vai-com-as-outras que sai repetindo que nem um papagaio tudo que lê. Falo isso, pois eu mesmo gostei uma barbaridade das sagas “Temporada de caça”, “Crise de identidade” e “A reunião do Quinteto”, mas parece que há umas pessoas que não vai muito com a cara delas, principalmente da segunda.

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  6. A saga deve ter sido ruim na época de lançamento para os leitores daquela época, mas para leitores que não tiveram a oportunidade de ler e conhecem um pouco do enredo (como eu, que estou louco pra comprar a saga do clone), não tem nada de tão absurdo na história, na verdade eu acho incrível ter 2 aranhas e adoro o design do aranha-escarlate.

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