RUMO À CCXP: Obrigado, Frank Miller

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Por que todo fã de quadrinhos deveria agradecer a Frank Miller… e respeitar seu Cavaleiro das Trevas 2

Por Ben Santana

Eu conheci Frank Miller, como muitos da minha geração, em Julho de 1982, na hoje histórica Superaventuras Marvel, da Editora Abril. Tinha quatorze anos na época, e vinha sendo apresentado a aquele – para mim – novo universo desde 1979, quando a Abril lançou Capitão América e Heróis da TV. Sim, eu conhecia o Homem-Aranha, de desenhos e das revistas da RGE. Mas não tinha idade para ter começado ler a Marvel com a EBAL, lá nos anos 1960.

Em todo caso, eu era muito mais fã da DC. Superamigos, o Superman de MillerGeorge Reeves ou o Batman de Adam West? Possivelmente. Mas, com certeza, eu era fã da DC por causa da EBAL… Pra mim, a RGE, com seu papel jornal e letras feitas à mão (!) eram algo que não funcionava muito bem… Quando a Abril pegou um pedaço da Marvel, foi um sinal, para mim, que eu deveria dar uma chance para valer para tudo aquilo… Afinal, a editora era, na minha cabeça, sinal de qualidade.

(Já estava acostumado com a Abril pelas toneladas de “patos” que minha mãe comprava toda semana, junto com as suas fotonovelas – até hoje, para minha mãe, quadrinhos da Disney são “patos”… Quando comecei a traduzir quadrinhos, ela me perguntou se eu estava trabalhando com “patos”)

Mas estou divagando…. Aham… Miller.

A história do Demolidor naquela primeira Superaventuras Marvel, para falar a verdade, não me deixou impressionado. Era diferente de que estava acostumado e, convenhamos, o texto não era essas coisas. Não, não era dele. Era de Roger Mckenzie. Mas ei, eram histórias bacanas, bem parecidas com alguns bons seriados policiais que eu – e todos os garotos de minha idade – assistíamos. A arte, bem, não era algo que cativou de primeira… Afinal, na mesma edição tínhamos o Conan de Barry Windsor-Smith. E em Heróis da TV estávamos começando a ver Warlock, de Jim Starlin, o Mestre do Kung Fu de Paul Gulacy e Nick Fury de Jim Steranko. As duas últimas, pelo menos para minha geração, novidades (apesar de terem sido publicadas na década anterior por outras editoras).

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Não… Miller tinha um desenho “sujo” para o gosto daquele menino de quatorze anos. Mas os meses foram passando, e eu comecei a perceber que as histórias que eu mais gostava em Superaventuras Marvel eram, para minha surpresa, as do Demolidor. Quando Elektra morreu, cerca de dois anos depois, Miller (que já estava escrevendo o título há um bom tempo) se tornou um dos meus artistas favoritos. Nesse ínterim, eu já havia descoberto Will Eisner e percebi de onde ele tirou parte de sua inspiração. Comecei a ler Dashiel Hammett e Raymond Chandler, dois dos maiores escritores policiais dos Estados Unidos, e saquei de onde veio aquele tipo de narração.

Miller havia me ganhado para sempre.

DK2Na metade dos anos 1980, um abalo sísmico aconteceu nos quadrinhos de super-heróis, através de duas obras que repercutem até hoje e criaram uma tendência – para o bem ou para o mal – nos anos que se seguiram:  Watchmen, de Alan Moore, e O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller.

O Cavaleiro das Trevas foi um dos maiores “mind fucks” que eu tive na vida em relação a quadrinhos. Mais que a minha primeira Metal Hurlant. Mais que as histórias de Moore em Monstro do Pântano. Por que ele pegou um personagem extremamente icônico, um dos  personagens de ficção mais conhecidos do planeta…  E o virou do avesso.

DKA história é, sem tirar nem pôr, o Gotterdamerung…O Crepúsculo dos Deuses. O Batman está velho. O Batman não tem toda a potência que um dia teve. Mas ele ainda era o Batman, algo maior que a vida. Hoje é muito comum falar que o Batman é tudo isso. Mas foi Miller que percebeu isso. E jogou na nossa cara de maneira espetacular.

Depois de ler O Cavaleiro das Trevas, ninguém mais conseguirá ler uma história do personagem da mesma maneira.

E foi essa história que me fez acompanhar Miller no que quer que ele faça. E foram muitas coisas nesses anos todos.

Batman: Ano Um, que ele fez com David Mazzucchelli, que até mesmo minha avó perceberia que NÃO é uma história do Batman, mas sim de James Gordon. Ronin, que ele fez em 1983, uma das suas obras mais injustiçadas. Ele revisitou uma de suas personagens favoritas, como não poderia deixar de ser com a lisérgica Elektra:Assassina, com Bill Sienkiewicz e Elektra Vive!, possivelmente a mais belamente ilustrada graphic novel produzida pela Marvel.

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E a sua ida para a Dark Horse e os quadrinhos autorais, com Liberdade (com Dave Gibbons) e Hard Boiled (com Geoff Darrow). 300, extremamente divertido E sublimemente ilustrado.   E sua obra mais pessoal, onde ele despejou suas grandes influências: Sin City, um cruzamento dos já citados Hammett e Chandler com Eisner. E muito mais.the-dark-knight-strikes-again-1-pg761

Ah, é claro…, a sua volta para a DC, com O Cavaleiro das Trevas 2. Odiado pela maioria dos leitores, é simplesmente Miller sendo Miller: O Miller que rasgou uma Wizard na frente de uma atônita plateia e disse como a revista estava fazendo mal para os quadrinhos. O Miller que diz com todas as letras que o Batman não é são e tem uma power trip enorme. O Miller que entregou algo que ainda faz, mais de uma década depois, leitores discutirem sobre ela. O Miller que mostrou um Batman pós-11 de Setembro, com toda a paranoia que cresceu dentro das fronteiras americanas. Sim, esse Miller.

Pode-se odiar CdT2. Mas não se pode odiar Miller por ele ter opiniões fortes.

stk447630Ele tomou, como todos os artistas, algumas decisões equivocadas. Sim, eu falo do filme do Spirit e de Holy Terror. Mas isso só o torna mais humano. E, se for para julgarmos – o que NÃO podemos (ou devemos) fazer – ele ainda continua com um saldo pra lá de positivo.

Sim. Aquele garoto que não achou grande coisa daquela primeira história do Demolidor cresceu. E só tem a agradecer a escritores/artistas como Frank Miller, que mostraram que os quadrinhos podiam ser diferentes. Que mostraram que storytelling – que ele domina como poucos – é algo primordial nesse tipo de arte e entretenimento.

Quem o encontrar na CCXP, agora em dezembro, faça um favor a si mesmo. Se for possível, aperte a sua mão e diga:

– Obrigado, Frank!

Ele pode não saber exatamente o porquê. Mas se você gosta de quadrinhos – qualquer quadrinho – você tem uma razão para isso.

BenBen Santana nasceu no final da Era de Prata, mas cresceu na Era de Bronze. Professor, tradutor e desocupado (quando sobra tempo), vem lendo e pesquisando quadrinhos desde sempre. Para outros textos sobre quadrinhos, visite seu blog: http://prataebronzecomics.blogspot.com.br


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2 comentários sobre “RUMO À CCXP: Obrigado, Frank Miller

  1. Excelente! Doa a quem doer, Miller faz parte da ‘santíssima trindade’ dos quadrinhos, junto com Gaiman e Moore. Pode-se discordar de suas opiniões pessoais, mas chamá-lo de fascista (e hipocritamente lucrar com sua presença em convenções) e desmerecer seu trabalho é de uma estupidez sem tamanho.

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