Nada novo na nova MS. MARVEL

ms marvel

Uma das HQs mais aclamadas da atualidade nos Estados Unidos chega ao Brasil com a premissa de ser inovadora… mas não é

Por Eduardo Marchiori

Cercada de expectativa, a Panini lança no Brasil em edição encadernada um dos títulos 07mais comentados dos últimos tempos na Nova Marvel. Lançada em 2014, a HQ da Ms. Marvel conta a origem da nova heroína a usar o nome de Miss Marvel, já que Carol Danvers agora atende pelo nome de Capitã Marvel. O título vem causando bastante barulho por conta de ser protagonizado por Kamala Khan, uma adolescente muçulmana de 16 anos que, após ser exposta às névoas terrígenas – o gás que dá poderes aos Inumanos – também desenvolve estranhas habilidades.

O encadernado da Panini tem 132 páginas e reúne as cinco primeiras edições da revista Ms. Marvel, com o arco Nada Normal, além de uma história retirada de All-New Marvel Now! Point One 1. Pela primeira vez, a editora investe em dois formatos: capa cartonada (R$ 18,90) e capa dura (R$ 26,90), a exemplo do que Mauricio de Sousa vem fazendo com sua Graphic MSP, atingindo assim duas faixas de público com diferentes poderes aquisitivos.

04Essas são as maiores novidades do encadernado. Já a história e a personagem não apresentam nada de excepcional além, claro, do fato de ser protagonizado por uma adolescente muçulmana. Também merece destaque o fato de ser escrita por uma mulher, a roteirista G. Willow Wilson, autora que se converteu ao islamismo e mudou para o Egito, especializando-se em literatura árabe. Nos quadrinhos, sua carreira é focada principalmente em personagens femininas, daí talvez os holofotes na série da adolescente.

06Isso, porém, não justifica a supervalorização em cima do título, que reproduz na capa uma frase do site Comics Alliance que afirma que “esta talvez seja a HQ mais importante de 2014”, mas que nada tem de extraordinário. Parece uma tendência dos nossos dias exaltar minorias (no caso, uma roteirista mulher escrevendo uma protagonista do mesmo sexo) como se fosse uma necessidade ganhar a simpatia do público discriminado.

Agora virou moda exaltar o “empoderamento feminino” como se essa onda fosse novidade nos quadrinhos, esquecendo-se que a Marvel já teve ótimas artistas como Ann Nocenti (Demolidor), Gail Simone (Red Sonja) e Kelly Sue DeConnick (Osborn) e que títulos protagonizados por mulheres existem desde os anos 1970. A própria Ms. Marvel (Carol Danvers) estreou em 1977.

Sobre o fato da heroína ser muçulmana… bem, isso, sim, é novidade… mas não é tão inovador quanto fazem crer. A editora tem um histórico de  diversidade em seus personagens: o primeiro herói negro (Pantera Negra, 1966), o primeiro título estrelado por um herói  negro (Luke Cage, 1972), o primeiro super-herói latino (Tigre Branco, 1975), o 03primeiro personagem abertamente gay (Arnie Roth, em Captain America 268, 1982), a primeira super-heroína israelense (Sabra, 1980), o primeiro personagem heroico a “sair do armário” (Estrela Polar, em Alpha Flight 106, 1992), o primeiro casamento gay numa capa (Astonishing X-Men 51, 2012). Uma heroína muçulmana é apenas mais uma na longa lista.

Para não dizer que estamos apenas depreciando o título, fica aqui um ponto positivo: a história é bem divertida ao retratar os conflitos de Kamala em seguir os preceitos de sua religião em terras americanas, onde tudo é diferente. A jovem é apaixonada por bacon e vai ao armazém do seu amigo apenas para cheirar o produto, já que é proibida de comer produtos cárneos. Também tem que driblar a vigilância dos pais, que não permitem que ela vá a uma festa onde tem meninos e bebidas alcoólicas.

05É nesse contexto que ela foge de casa e é atingida pelos gases terrígenos – uma consequência da saga Infinito – adquirindo poderes transmórficos. Diferente da primeira Ms. Marvel, que tinha poderes cósmicos, Kamala pode mudar de forma, aumentar de tamanho, diminuir, esticar seu corpo e assumir outra aparência. O drama da garota para se adaptar às novas habilidades enquanto tenta esconder o segredo dos pais e amigos é o fio condutor da história. Nada que já não tenha sido mostrado na HQ do Nova, por exemplo, publicada no mix de Universo Marvel, da Panini.

Ms. Marvel – Nada Normal é um arco divertido, mas está longe de ser uma reinvenção da roda. Pode ser que as edições seguintes melhorem e a heroína ganhe fôlego, mas por enquanto, a supervalorização não passa de uma estratégia de marketing para ganhar créditos com o público feminino – a própria Marvel já fez isso – e melhor – com a Mulher-Hulk de John Byrne. A despeito do título do arco, este volume é uma história bem normal.

EduEduardo Marchiori é jornalista, escreve para as revistas Mundo dos Super-Heróis e Mundo Nerd e é responsável pelo blog Raio X (http://mutantexis.wordpress.com), também voltado à cultura pop. É fã de séries de super-heroínas desde os tempos da Mulher-Maravilha e da Poderosa Ísis. Atualmente, está apaixonado pela Supergirl.

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10 comentários sobre “Nada novo na nova MS. MARVEL

  1. Nada contra a Marvel querer alcançar um novo tipo de público (mais sensível e com uma gana em procurar ser representado), longe disso, mas não é justo ignorarem quem sempre sustentou essa indústria, mesmo quando ela estava em baixa. Falo do leitor mais “tradicionalista”, cujo único objetivo ao comprar um gibi é ler uma boa história (a DC parece estar um pouco mais atenta a isso).

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      • A mim não atende, não gostei de nenhum título dessa Novíssima Marvel. É muita invencionice, muita coisa feita pra agradar a galera que começou a ler depois dos filmes, tudo feito com argumentos pobres. Sei que parece que eu estou preso ao passado, mas vejo uma grande descaracterização de universo e de personagens.

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    • Então a Marvel produz 1 gibi para um público diferente é isso já caracteriza ignorar o leitor tradicional? E a tonelada de outros títulos convencionais q eles produzem todo mês?

      Sobre o gibi, concordo com o autor do texto, não é tão inventivo quanto à internet falou q seria, MAS é um gibi bem legal, melhor q a maioria das coisas q saem nas bancas todo mês.

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  2. Confesso que tive a atenção da HQ simplesmente por ela ser protagonizada por uma mulher (isso faz com que mulheres comprem HQ, já que nós acabamos nos identificando), sem contar dela ser muçulmana e da história se passar nos EUA. Estou com uma expectativa boa e gostei da ideia da Panini dividir a história em brochura e capa dura (assim não nos obriga a comprar o mais caro, kkkk).
    Gostei do texto, mas como sou nova nesse mundo das HQS americanas, creio que para mim será inovador.

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  3. Colando aqui o que comentei no Face, onde vi o link pro artigo.
    Boa análise. Ms. Marvel hoje é meu gibi preferido, porque acho as estórias o mais simples e divertidas possível. Mas realmente, de inovador não tem nada — ou melhor, de normal, tem tudo. A única coisa “diferente” é o fato de ser uma adolescente muçulmana/paquistanesa, que vai à mesquita, vivendo nos EUA, o que, além de ser produto de inclusão social e representatividade (o que também pode ser só uma desculpa) é uma ótima forma de ganhar divulgação e publicidade gratuita, gerar polêmica etc. O lance de uma “menina normal” ganhar poderes, de ser fã (conforme já disseram, vivemos a era da fanfic oficial) os problemas em casa, limitações dos pais, se sentir estranha etc. Tudo isso já foi muito bem explorado, só que agora tem o viés religioso/cultural. Podiam até ter colocado a foto da capa comparativa de Ms. Marvel #1 e uma edição da Supergirl nos anos 90, muito parecidas.
    Mesmo assim, é um bom gibi, acho que p investimento vale a pena. Estórias simples com situações fáceis de se ter empatia por.

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