Enquanto Isso… Direto da Estante: Fantasma, a Maravilha Mascarada

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Quando uma história do Fantasma foi quase um filme de Frank Capra…

Por Fábio Ochôa

Nosso editor, Maurício Muniz, pediu para que tirássemos coisas da estante. Ou seja, coisas que estamos vendo ou lendo, e compartilhássemos nossas rápidas impressões. Bem, nesse primeiro artigo, resolvi pegar uma história que gosto muito, e que quase ninguém conhece: uma velha história do Fantasma chamada “A Maravilha Mascarada”.

O meu pai, fiel à sua geração, sempre foi fã dos heróis da King Features, Mandrake, Flash Gordon, Fantasma… Eu demorei um bocado para pegar gosto pela coisa, quando eu era pequeno eles sempre me pareceram um pouco opacos demais quando comparados com a escala Marvel – então a minha paixão de infância. Os personagens da King sempre me soaram como a versão sem orçamento dos quadrinhos de super-heróis. Algo meio velha guarda.

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Injusto. Em muitos sentidos, o Fantasma, criado por Lee Falk (pai de Mandrake, também) antecipou a vindoura onda de super-heróis, foi uma espécie de protótipo do que estava para surgir. Fantasma trata de uma linhagem de aventureiros, um título passado de pai para filho, sempre dedicados a proteger a Floresta de Bengala de exploradores, ladrões, piratas, cientistas e o que mais aparecer pela frente, uma linhagem cujo maior poder deve ser envergar uma fantasia de corpo inteiro em pleno calor africano sem derramar uma gota sequer de suor. Higiene pessoal não deve ser o forte do Espírito Que Anda.

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03A história escolhida para esta coluna pode até não ser uma típica aventura do personagem, por afasta-o da selva e dos elementos que lhe deram fama, mas ela figura aqui primeiramente por sua própria qualidade enquanto história e, também, por encapsular um momento muito específico dos quadrinhos de heróis, onde a simplicidade era a ordem do dia (e reparem que ser simples é uma coisa, ser simplório é outra completamente diferente), e, dramas pessoais à parte, o que tínhamos eram os bons personagens lutando para corrigir os males do mundo independente da forma em que eles aparecessem.

Na história, Fantasma está na cidade grande, prestes a voltar para a selva, quando por um04 acaso do destino, acaba cruzando com o campeão mundial de boxe. Evidentemente, o campeão resolve engrossar com ele – caso contrário não teríamos história – e o Espírito que Anda acaba por nocauteá-lo com um único soco em pleno parque.

O empresário do campeão não acredita no que viu, quer de todas as maneiras fechar um contrato com o estranho, que recusa todas as propostas. Porém, no meio de sua ida para a floresta, um incidente muda os planos do herói: um orfanato pega fogo, o Fantasma salva as crianças, mas o prédio está destruído e será necessário muito dinheiro para reconstruí-lo.

05O Fantasma volta a procurar o empresário e aceita lutar para levantar o dinheiro necessário. Assim, ele é vendido para a mídia como a Maravilha Mascarada e, lendo a história, noto que aparentemente as federações de boxe dos anos 40 não ligavam para lutadores que entravam no ringue fantasiados. Eram outros tempos.

É uma história ingênua? Sim. Sentimental? Com certeza. Mas em vez de ser um defeito, 06essa acaba sendo sua maior força: a sinceridade com que ela é narrada. Há nela uma espécie de pureza e boa intenção que o gênero parece ter perdido. Ler “A Maravilha Mascarada” é como assistir a um filme de Frank Capra, divertido, cândido e com um ou dois momentos realmente emocionantes. O tipo de história que mostra porque o personagem ficou por tanto tempo presente no imaginário popular. Tudo isso narrado no traço simples, mas imensamente charmoso de Wilson McCoy, que substituiu o desenhista original da série Ray Moore, após este sucumbir ao alcoolismo.

09Infelizmente, os tempos mudaram e o Fantasma não. Após mais de 40 anos de sucesso ininterrupto, a mão pesada de Lee Falk na condução das tramas e a recusa em modernizar o personagem acabaram por enterrar o Espírito Que Anda. Desde a morte de Falk, diversas tentativas de reviver o personagem foram tentadas. Todas fracassaram.

Na falta de uma nova versão mais adequada, fique com esta. É diversão garantida para uma tarde de verão e uma autêntica viagem no tempo, para uma época menos cínica onde o que diferenciava os heróis das pessoas normais não eram os poderes e capacidade física, mas sim a nobreza de suas intenções.

Nota: Dentro do que se propõe, 10.

Onde encontrar: essa história foi publicada cinco vezes no Brasil, nas seguintes edições: O Globo Juvenil 1858-1901 (1949, O Globo), O Fantasma 42 (1974, RGE), Fantasma 249 (1976,RGE), Fantasma Extra 13 (1989, Globo) e Fantasma Edição Histórica 36 (1997, Saber)

OchôaFábio Ochôa trabalha como redator publicitário. Conquistou prêmios, foi citado na TV, foi diretor de criação, já saiu na Zupi, fez campanhas políticas e, mesmo assim, ainda consegue gostar das pessoas e achar este mundo um lugar legal. É um exemplo, esse rapaz. Trabalha também como ilustrador freelance e roteirista eventual. Para saber mais acesse:  www.behance.net/fabioochoa

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6 comentários sobre “Enquanto Isso… Direto da Estante: Fantasma, a Maravilha Mascarada

  1. Muito bom o artigo! Tocou em pontos importantes. Hoje falamos em “quadrinhos adultos”, mas há décadas atrás,milhões de leitores de jornais de todo o mundo acompanhavam as tiras do Fantasma como hoje espectadores acompanham capítulos de telenovelas ou episódios de seriados de tv.
    Parabéns pelo artigo, Fábio!

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    • Obrigado pelo comentário, Túlio. Realmente, meio que se perdeu a noção do alcance que os quadrinhos tinham e até mesmo o respeito (principalmente as tiras de jornais), há 40, 50 anos atrás. O que é uma pena, tem muitas coisas dessa época, como a obra de Milton Caniff, Al Capp (uma das maiores sátiras políticas de todos os tempos) e Hal Foster, que sobrevivem muito bem até hoje.

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      • Sim, Fábio! Al Capp é genial! Isso tudo que você disse me faz lembrar um prefácio que o Bill Watterson escreveu para uma antologia do Calvin, em que ele fala de o quanto eram maravilhosas as páginas de quadrinhos dos jornais décadas atrás.
        O mais próximo que já vi disso era a página de quadrinhos do Jornal da Tarde e nas primeiras vezes em que estive no Rio os suplementos dominicais do Globo e do Jornal do Brasil.
        Abraço!

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  2. Excelente artigo, Túlio. Me faz lembrar quando tive os primeiros contatos com os personagens da King Features, na primeira metade dos anos 80, época que como o autor, também era encantado pela era áurea da Marvel no Brasil com Buscema, Perez e Kirby nas pequenas páginas do famigerado formatinho. No início achava um pouco estranho tanto o traço quanto as temáticas das estórias (especialmente as do Fantasma e Mandrake) e de início tinha até um pouco de birra do Fantasma (não gostava tanto de aventuras na selva, mesmo motivo de não ser na época fã do Tarzan) mas com o passar do tempo acabei por me apaixonar pelas aventuras dos dois e hoje sou um grande fã, especialmente de Flash Gordon e do Espírito que anda.
    Percebo que muitos leitores da nova geração não tem nenhum interesse por conhecer essa fase das hqs, talvez por ela ser de uma época mais “politicamente incorreta” e possuir temáticas consideradas mais inocentes e escapista, mas acho uma pena pois eles não sabem o que estão perdendo!

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  3. Espetacular. “para uma época menos cínica onde o que diferenciava os heróis das pessoas normais não eram os poderes e capacidade física, mas sim a nobreza de suas intenções”. Ai estar o “X” da coisa. Excelente argumento !!!

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