Enquanto isso… Uma História Pessoal do Cinema em 24 Quadros por Segundo

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Uma jornada pessoal pela sétima arte e as emoções que ela causa

Por Fábio Ochôa

FADE IN

Começo da história. Trilha incidental. Créditos subindo lentamente.

Quando era pequeno, meu pai trabalhava no cinema local da minha cidade. Ele costumava guardar os negativos que sobravam a cada troca de rolo. O cinema sempre esteve presente na minha vida, nas longas conversas sobre os filmes que ele havia visto, na locadora em casa.

Existe algo de incrível e quase religioso no ato de se reunir no escuro, para acompanhar histórias transmitidas por um halo de luz, 24 fotos capturadas por segundo, uma lanterna mágica, um truque de prestidigitação, carregado de momentos únicos.

Estes são os 24 filmes que, pra mim, compõem a sua história:

CENA 1
A Chegada do Trem à Cidade (1895)

Após algumas décadas de tentativa e erro, os irmãos Lumière finalmente conseguem, meio que por curiosidade científica, animar uma série de fotos para dar ilusão de movimento. Sem saber muito bem o que fazer com isso e achando uma invenção sem muito futuro, eles usam projeções de cenas banais da vida em praças e feiras de exposição.

Na esteira, surgem os Nickelodeon, os protótipos dos modernos cinemas, com projeções por um níquel. Na primeira projeção pública do trem em movimento, diversas pessoas abandonam a sala correndo, achando que iam ser atropeladas.

CENA 2
O Nascimento de uma Nação (1915)

Surge a montagem como a conhecemos hoje: dinâmica, repleta de closes, cortes rápidos, uma linguagem veloz, cinética e sensorial como nada visto antes. A partir de diversas tentativas, temos o cinema como o conhecemos hoje, em um filme que coloca toda a crítica em uma posição incômoda: é genial enquanto cinema, profundamente inventivo, mas também escancaradamente racista, pintando a Ku Klux Klan como paladinos modernos.

A César o que é de César, D. W. Griffith foi, sim, um gênio e seu filme é, sim, moralmente condenável. Suas posições políticas tacanhas não diminuem sua genialidade e sua genialidade não é desculpa para relevar sua postura. O fato é que, através da montagem, o cinema pôde finalmente deixar de ser um mero recorte da vida cotidiana, uma curiosidade científica na qual nem mesmos seus criadores confiavam na durabilidade para se tornar uma das ferramentas artísticas mais potentes do século 20, moldando e definindo o modo de experimentar o século.

CENA 3
Nosferatu (1922)

Entram as sombras estilizadas do cinema alemão e um homem interpretando um vampiro, com movimentos tétricos e a rigidez de um cadáver, para os alemães não existe a pulsão e a luxúria vindoura dos filmes da Hammer. Seu vampiro é pestilento como um rato, é uma criatura da morte. Em uma atuação que estamos tão acostumados a ver que até esquecemos da sua originalidade e genialidade.

CENA 4
Safety Last (1923)

 Harold Lloyd se pendurando na beirada de um prédio, sem truques, sem dublês e quase caindo apenas para arrancar algumas gargalhadas, em uma cena homenageada futuramente na sequência final de De Volta para o Futuro. É a segunda década do cinema, com esses doidos maravilhosos que arriscam o próprio pescoço para contar suas histórias e excitar suas plateias. É Douglas Fairbanks saltando de lustres, em acrobacias capazes de fazer adeptos do Le Parkour corar em A Marca do Zorro; inspirando gente como Jackie Chan mais de meio século depois; é Buster Keaton se equilibrando na frente de uma locomotiva enquanto arranca tocos dos trilhos usando os próprios pés em A General, um esforço hercúleo, uma vida em risco e ele sem mudar a expressão do rosto, pois essa era sua assinatura, “o homem que nunca ri”, o homem que passava pelas situações mais inacreditáveis sem nunca alterar a expressão.

É um cinema onde a segurança não existe, selvagem e sem regras, onde vale tudo para impressionar a plateia.

CENA 5
A Última Gargalhada (1924)

A crônica de um orgulhoso porteiro de hotel, e sua decadência após a substituição por um funcionário mais jovem. A linguagem começa a experimentar, se torna refinada. Os objetos de cena aumentam cada vez mais ao longo da história, apenas para mostrar a decadência, a redução moral e o encolhimento social do personagem, os cenários se estilizam para mostrar ordem ou caos, cada elemento é tão ou mais importante que os personagens.

CENA 6
Metrópolis (1926)

Um filme que impressiona até hoje, com seu cenário futurista, numa parábola sobre classes sociais. Estabeleceu uma influência que vai de Blade Runner a Star Wars II, em um mero exercício de imaginação. Pense como isso foi surpreendente, inacreditável e arrebatador em sua época.

CENA 7
M – O Vampiro de Dusseldorf (1931)

 O som estava presente há apenas quatro anos no cinema e aqui tem um dos seus primeiros usos narrativos, onde sabemos quem é o assassino apenas pela canção que ele assovia, mesmo sem ver seu rosto. True Detective homenageou esse filme em sua primeira temporada, onde o assassino (antes de ser revelado) está assoviando a mesma música quando é interrogado pelos detetives.

É a tecnologia que começava a captar a sutileza que nossos olhos e ouvidos jamais poderiam captar em qualquer outra arte. E apenas nesse período, o cinema – graças principalmente aos russos e alemães – começa a deixar de ser visto como uma moda passageira, uma mera curiosidade tecnológica para as massas e começa a ser visto como uma autêntica forma de arte.

CENA 8
O Grande Ditador (1940)

Esse para mim é um dos grandes momentos do cinema, não só pelo que ele é, mas pelo seu contexto.

Com o surgimento do som, diversos artistas ficaram em xeque: ou se adaptavam à novidade, ou caíam no ostracismo (existem pelo menos três grandes filmes sobre isso, Cantando na Chuva, Crepúsculo dos Deuses e O Artista… VEJAM). Como era de se esperar, diversas carreiras foram sepultadas.

Menos a de Charles Chaplin.

Chaplin resistiu ao som até o fim, emendando dois clássicos imortais, Luzes na Cidade e Tempos Modernos em plena era do cinema falado (se você não viu, veja, é só o que posso dizer). Mas isso mudaria com O Grande Ditador. O filme é de 1940, Hitler já estava a pleno vapor espalhando sua barbárie como pestilência pela Europa e os EUA ainda relutavam em entrar na guerra, observando tudo de uma distância neutra e segura. O cinema e os meios de comunicação polidamente evitavam tocar no assunto e assumir qualquer tipo de posição, esperando para ver qual rumo, afinal, o país tomaria.

Nesse contexto, Chaplin fez seu filme, contando a história de um barbeiro judeu que acaba tomando o lugar de seu sósia, o ditador Adenoid Hinkel (uma sátira, nada, mas NADA sutil a Hitler). Para mim, um dos momentos mais fantásticos do cinema, por tudo que ele representa, é o discurso final, onde Chaplin finalmente abre mão das suas convicções… E fala.

Ali o filme deixa de ser um filme, é Chaplin discursando em pleno cinema para cada um dos espectadores na sala escura, apelando para o que há de melhor em cada um para não se submeterem a ditadores com delírios de grandeza, para não serem coniventes por omissão com pessoas cujo sinônimo de força é a destruição do outro.

Chaplin resistiu ao som por mais de uma década e apenas uma grande causa fez ele falar. Valeu a pena ter esperado.

CENA 9
Cidadão Kane (1941)

Bancando a ópera de uma amante sem talento, Kane é exposto pela primeira vez à humilhação pública. Todo mundo aplaude, mas é notável o desdém no rosto da plateia e Kane também aplaude e se percebe a ira, a resignação e a percepção da derrota em seu rosto. Tudo isso sem dizer uma palavra, tudo está nos rostos, uma sequência repleta de significados. É a linguagem do cinema atingindo seu nível máximo de sutileza e comunicabilidade em um filme revolucionário.

CENA 10
Rastros de Ódio (1956)

 John Wayne visita novamente a família do irmão. Durante sua estada a fazenda é atacada, todos são mortos e sua sobrinha é sequestrada e ele, nutrindo uma visível antipatia por todo tipo de índio – empreende uma busca que irá durar 17 anos atrás da única sobrevivente, até chegar a um dos finais mais arrasadores do cinema. Um dos detalhes mais sutis do filme é a paixão que ele sentia pela cunhada, presente em cada cena, mesmo que em momento algum isso seja falado no filme.

No cena final, que espelha a cena inicial, onde Wayne está chegando ao lar, temos Wayne voltando para o nada, o deserto, nada mais resta a ele. É um dos desfechos mais tristes do cinema, quando finalmente percebemos a tragédia e o vazio que foi a vida daquele homem.

CENA 11
2001: UMA ODISSEIA NO ESPAÇO (1968)

Stanley Kubrick reinventa completamente a linguagem, com um filme subjetivo ao extremo, que beira a abstração. Um filme que muda cada vez que você o vê. Existe todos os outros filmes. E existe 2001.

CENA 12
Perdidos na Noite (1969)

A crônica da amizade entre um vagabundo manco (Dustin Hoffman) e um prostituto (Jon Voight, hoje em dia mais conhecido como o pai de Angelina Jolie). Após décadas criando realidades perfeitas, Hollywood perde a sintonia com os tempos e desesperada, começa a se reinventar. A fábrica de idealizações fecha. Surgem filmes mais crus, sujos, sem glamour, espelhando de maneira brutal e sem concessões a realidade à sua volta.

CENA 13
El Topo (1969)

Estranho, desafiador, feito com uma convicção única. E essa é justamente a beleza da coisa. Richard Stanley definiu o cinema do chileno Alejandro Jodorowsky como “obras de arte que vem de uma dimensão paralela”, uma descrição muito precisa, aliás. El Topo é uma parábola que narra a história de um pistoleiro que acaba ficando cego para os males do mundo em seu caminho para iluminação.

E um tipo de cinema absurdamente único, instigante e pessoal.

CENA 14
Encurralado (1971)

O primeiro filme de Steven Spielberg, inspirado em um conto de Richard Matheson. Feito para TV, mas de um resultado tão bom que a Universal resolveu também lançar no cinema, com cenas extras. Um homem é perseguido por um caminhão ao longo de uma estrada. O que o motorista quer afinal? Ninguém sabe, ele é apenas uma máquina implacável de destruição. Uma obra-prima do suspense e da economia, que mostra que não é preciso muito para construir um grande filme.

CENA 15
Taxi Driver (1976)

Um suspense crescente de um taxista paranoico em uma cidade prestes a explodir. Martin Scorsese naquele que talvez seja o melhor momento de uma carreira repleta de grandes filmes. De novo, o cinema mostrando de maneira crua o caos urbano dos anos 1970, em uma tensão psicológica que nunca dá nenhum momento de descanso. Um filme que tem o melhor do cinema classe B, dos filmes que não têm nada a perder: ousadia, inventividade, coragem e convicção.

CENA 16
Rocky – um Lutador (1976)

No meio de toda aquela crueza, desesperança e aridez do cinema dos anos 70, surge um filme que, ainda que pautado na mesma estética urbana suja da época, é uma história otimista sobre um João Ninguém de bom coração tentando achar seu lugar no mundo. Um filme que não é sobre vitórias redentoras, mas sobre encarar a vida de pé, com dignidade. Conquistou público e crítica de maneira arrasadora.

CENA 17
Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977)

Um dos primeiros sinais de que o cinema estava mudando. No meio de tanto pessimismo, uma ficção que mostra o primeiro encontro de alienígenas com a Terra, naquele eterno otimismo de Spielberg. O cinema já mostrou vários encontros alienígenas. Nenhum tão lírico quanto este.

CENA 18
Superman – O Filme (1978)

O homem que nunca mentia, voava e era a encarnação definitiva do bem. Basta vê-lo voando,  a expressão como a de um pai protetor – um amigo, como ele se define – para saber que tudo está bem no mundo. Em uma época de plena confusão, o cinema volta a assumir o seu papel como fábrica de sonhos espetaculares.

CENA 19
Alien – O Oitavo Passageiro (1979)

O horror chega ao espaço, na estética absolutamente única e inovadora de Ridley Scott e H.R. Giger. Nada assim foi visto antes. Literalmente.

CENA 20
Um Sonho de Liberdade (1994)

Frank Darabont atinge a perfeição em seu filme de estreia. Uma história envolvente e rica sobre a resistência do espírito humano, onde cada quadro é perfeito.

CENA 21

Ratatouille (2005)

Um dos melhores discursos finais do cinema, um momento que o cinema atinge um ponto de síntese, filmes que podem ser vistos, de igual maneira, por crianças e adultos.

CENA 22

Abutres (2010)

Realidade crua, grandes personagens, grandes histórias, o cinema argentino se mostra o melhor deste novo milênio e encontra, em Ricardo Darín, o rosto certo para essa multiplicidade.

CENA 23

Snowpiercer (2013)

Um trem que vaga carregando todos os sobreviventes da Terra, divididos por castas em vagões. Uma alegoria simples em um filme que funciona em vários níveis diferentes. É uma síntese do que o cinema tem de melhor. Você encontra aqui crítica social, suspense, ação, grandes atuações, grandes personagens e influências que vão de Metrópolis aos filmes de Terry Gillian.

Um filme americano, dirigido por um coreano, baseado em uma HQ francesa. Universal como só as obras-primas sabem ser e uma prova inegável de que o cinema nunca parou de produzir grandes filmes.

CENA 24

Duna de Jodorowsky (2013)

Um documentário sobre um filme nunca feito, que poderia ter mudado a história do cinema. Consegue ser quase comovente à sua maneira, mostrando a paixão de um cineasta por seu projeto e os meandros nem sempre muito claros que movem a indústria.

O som começa a baixar, a tela se escurece.

O fim da lista chega.

Sobem os créditos.

FADE OUT

OchôaFábio Ochôa trabalha como redator publicitário. Conquistou prêmios, foi citado na TV, foi diretor de criação, já saiu na Zupi, fez campanhas políticas e, mesmo assim, ainda consegue gostar das pessoas e achar este mundo um lugar legal. É um exemplo, esse rapaz. Trabalha também como ilustrador freelance e roteirista eventual. Para saber mais acesse:  www.behance.net/fabioochoa

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