Entrevista: PAUL GULACY, mestre dos quadrinhos

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Uma entrevista exclusiva com um dos artistas mais renomados do mercado de quadrinhos americanos, responsável por títulos como Mestre do Kung Fu, Batman e muito mais

Por Wilson Simonetto

1acd025Aos 62 anos de idade e com uma carreira de mais de quatro décadas, o desenhista Paul Gulacy é uma lenda dos quadrinhos. Nascido no estado de Ohio, seus primeiros trabalhos no mercado foram como assistente do desenhista Dan Adkins, artista de títulos como Dr. Estranho e Krypta. Foi Adkins que indicou Gulacy para fazer trabalhos na Marvel Comics, onde o rapaz começou desenhando uma história curta de Morbius, o Vampiro-Vivo em 1974. Foi nesse ano img760também que ele foi escolhido como substituto de Jim Starlin, como o desenhista regular da série O Mestre do Kung Fu, criado por Steve Englehart,  iniciando uma parceria de sucesso com o escritor Doug Moench. O estilo realista de Gulacy se adequou perfeitamente à revista, que tinha tramas inspiradas por filmes de artes marciais, aventuras de espionagem e literatura pulp. A revista se tornou um sucesso e até hoje é lembrada como o trabalho mais marcante de Gulacy.

Image (4)Gulacy também é considerado um pioneiro, já que a edição especial Sabre, desenhada por ele e roteirizada por Don McGregor é considerada uma das primeiras graphic novels. Publicada em 1978 pela Eclipse Comics e vendida apenas no (então) novo mercado das lojas especializadas, trazia a história de um guerreiro negro que luta contra diversos inimigos no “futuro pós-apocalíptico” de 2020. O sucesso da edição deu origem a uma série regular do personagem, que criou controvérsia por alguns elementos narrativos, como o primeiro beijo entre homossexuais numa história em quadrinhos norte-americana e muita violência.

Nas décadas seguintes, Gulacy desenhou para diversas editoras e teve passagens elogiadas por séries e edições especiais de Batman, Mulher-Gato, Lanterna Verde, Conan, Exterminador do Futuro, Star Wars, James Bond, Tom Strong, Jonah Hex e Esquadrão Supremo. Entre seus trabalhos autorais, estão também as séries Six from Sirius, sobre um grupo de aventureiros espaciais, e Time Bomb, aventura sobre um grupo de soldados enviados ao passado para impedir uma catástrofe mundial causada pelos nazistas.

Ainda em atividade, Paul Gulacy atendeu nosso pedido para um papo rápido sobre sua carreira, influência e métodos de trabalho.

 O que o levou a se tornar um artista de quadrinhos?bond gulacy

Nada me levou. Só meio que aconteceu. Minha mãe costumava trabalhar no período da tarde em uma loja que vendia todo tipo de revistas e quadrinhos. Às vezes, ela trazia pra casa edições de O Pimentinha e Minduim, aquele com Charlie Brown e seu cão, Snoopy. Acabei ficando fascinado por tudo aquilo.

Quais diria que são as principais influências no seu trabalho?

Minhas influências, além dos quadrinhos que mencionei, era qualquer coisa que tivesse dinossauros, como Turok:Dinosaur Hunter, quadrinhos de Além da Imaginação, histórias de guerra desenhadas por Joe Kubert como Sargento Rock e Às Inimigo. Só me interessei por quadrinhos de super-heróis muito tempo depois. Também demorei a entender as coisas publicadas pela Marvel, geralmente por causa do estilo de Jack Kirby. Eu costumava achar que ele não desenhava tão bem quanto os outros caras dos quais eu gostava. Sabe do que estou falando? Aquelas mãos enormes vindo em direção a você e tudo mais.

mokf51Quando foi lançada, a intenção da série Mestre do Kung Fu era explorar o interesse que havia por filmes de Kung Fu, mas evoluiu e se tornou muito mais, com seu trabalho e o de Doug Moench. Qual foi sua inspiração para esse trabalho?

[A arte de] Jim Steranko, com certeza. Mas também fui inspirado por sujeitos como Richard Corben e Joe Kubert. Eles tiveram grande impacto sobre mim. Eu sempre tentei alcançar e manter um nível próximo ao deles.

Na sua opinião, quanto o mercado de quadrinhos MOKF01_MOKF1974031001_colmudou desde que começou a trabalhar nele? As coisas estão melhores hoje para os artistas e escritores?

 Acho que cada um teria que responder individualmente. Acho que cada um terá uma opinião diferente. Com certeza existem mais oportunidades para ganhar mais dinheiro. Acho que o mais importante para a maioria dos criadores é o prospecto de poder levar o conceito de uma revista em quadrinhos para além da página impressa, levá-lo para outros mercados e mídias. Isso é muito importante e hoje é possível fazer isso. No passado, para conseguir algo assim era necessária uma enorme batalha legal com as editoras. Pessoas como Todd McFarlane merecem nossa admiração.

Você tem um estilo cinematográfico impressionante. Pode contar a nossos leitores sobre o seu processo criativo? Você gosta de trabalhar com referências fotográficas, por exemplo?

004Só trabalho com referências fotográficas quando necessário. No meu caso, calquei minha carreira em pegar as aparências de astros populares do cinema e colocá-las disfarçadamente nas histórias. Fiz muito disso ao longo dos anos e na maioria das vezes não era algo sugerido pelos roteiristas. Eu que as colocava lá, fosse a cara de Bruce Lee, Marlene Dietrich, Sean Connery, Jimi Hendrix ou Kirk Douglas. Era tudo ideia minha. Nada disso nunca foi sugerido nos roteiros. Era mais ou menos uma demonstração de respeito a todas aquelas pessoas que me entretinham. Por incrível que pareça, nunca arrumei encrenca por causa disso, graças a Deus! Uma vez, a esposa de Bruce Lee, Linda, pediu pra que Stan Lee impedisse [que usássemos a cara do marido dela em Mestre do Kung Fu], mas não paramos. no final das contas.

Qual gênero de quadrinhos mais o interessa? Super-heróis (como Batman), ficção científica (como Star Wars), espionagem (como James Bond), fantasia (como Conan)…?

Nenhum delas! (Risadas) Eu não tenho tempo pra ler. Eu leio SWCE3preview pg1revistas como Rolling Stone e o jornal local. Meu tempo é curto, mas sou viciado em notícias. Eu escuto as notícias o dia inteiro enquanto desenho. O máximo que faço é ir até a loja de quadrinhos do meu bairro e perguntar quais revistas estão vendendo mais. Dou uma olhada nos meus concorrentes pra ver o que andam fazendo. Mas é só isso, geralmente porque não tenho tempo a gastar. Há um número limitado de horas no dia pra conseguir fazer tudo que preciso.

Sabre, a série que fez com o roteirista Don McGregor, é considerada por muitos como a primeira graphic novel lançada no mercado, porém há histórias de que sua produção não foi das mais fáceis. Pode nos falar sobre isso?

Bem, seja quem for que falou isso, estava certo. Minha opinião pessoal é que houve elementos incluídos no roteiro que pareciam exagerados à época e só estavam lá pra criar controvérsia. Esse era o meu problema com o roteiro [de McGregor]. Havia coisas naquele roteiro que ninguém nunca vira antes e nem veria depois. Eu costumava receber cartas de fãs que eram dos movimentos de militantes negros que adoraram o que mostramos na edição, mas também recebi muitas cartas de organizações de militantes brancos bastante furiosas conosco. Enquanto desenhava a história, eu vivia pensando “como foi que entrei nessa?”

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Quais são os seus trabalhos dos quais mais se orgulha?

Mestre do Kung Fu e, logo em seguida, meus trabalhos no Batman com Doug Moench. Acho Batman_Prey_coverque conseguimos produzir algumas das melhores histórias do personagem. Na verdade, a minissérie chamada Um conto de Batman: Acossado [publicada pela Abril em 1992] costuma figurar próxima às dez melhores histórias de Batman em todos os tempos. Doug e eu apresentamos a origem do batmóvel naquela série. Em outra série, mostramos a criação do Bat-Sinal. O surgimento deles nunca haviam sido mostrados ou explicados antes.

Quais são seus projetos recentes?

003Estou trabalhando em um personagem chamado The Rook. Ele é um viajante temporal, baseado em uma série dos anos 1970 que era publicada pela Warren Publishing, a mesma editora da Vampirella. A série sai pela Dark Horse e é escrita por Steven Grant. No momento, estamos trabalhando na segunda série do personagem, cada série tem quatro edições. Estou me divertindo bastante. Viagem no tempo está na moda agora.

Alguma chance de que saia uma nova revista do Mestre do Kung Fu com o seu envolvimento?

Não seria demais se eu e Doug voltássemos ao Mestre do Kung Fu? Seria muito divertido. Não sei porque não nos convidam. Acho que seria muito importante que nos convidassem. Que mal faria?

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WilsonWilson Simonetto é colaborador do site Chamando Superamigos e da revista Mundo dos Super Heróis. É colecionador de quadrinhos e prestigia todos os eventos nerds que pode, o que já rendeu a ele o apelido de “Homem-Evento”

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4 comentários sobre “Entrevista: PAUL GULACY, mestre dos quadrinhos

  1. Wilson, o Steve Englehart contou numa entrevista que a Marvel não renovou contrato pra usar o personagem Fu Manchu na HQ do Mestre do Kung Fu, dai o motivo delas nunca terem sido reeditadas, ou produzidas…

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    • Mais ou menos, a Marvel perdeu a licença, anos depois trouxe o Shang Chi de volta, sem usar os personagens do Rhomer, logo depois decidiu renomear não colocar o nome do Fu Manchu, para resolver, Fu Manchu passou a ser Zheng Zu e Fah lo Suee, Zheng Bao Yu, ano passado, a Marvel resolveu o problema do Fu Manchu e está publicando encadernados.

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