Entre Balões: Os 30 Anos de O HOMEM DE AÇO

superman_gallery_1_-_05_-_john_byrne série que mudou o Superman para sempre faz aniversário

Por Ben Santana

Em 1986, após a maxissérie Crise nas Infinitas Terras, o Superman ganhou uma reformulação pelas mãos de John Byrne, a primeira grande mudança “radical” em um personagem que estava, na época, quase chegando ao meio século de idade.

Mas o que poucas pessoas percebem – ou lembram – é que o Superman foi um dos Action_Comics_1personagens que mais sofreram mudanças em sua vida editorial. É claro, as mudanças foram mais orgânicas, sem nenhum grande evento para inicializá-las. É impossível crer que o Superman que apareceu em Action Comics 1, em 1938 é o mesmo de, digamos, o final dos anos 1950. São como dois personagens distintos.

Desde a sua criação, ele foi sofrendo evoluções a cada número publicado, como não poderia deixar de ser. Sua mitologia foi enriquecendo a cada década e consiste em um conjunto interessante de poderes, aliados e vilões que originalmente não tinham sido pensados. O personagem começou como um ser extremamente forte, com certeza. O suficiente para justificar o prefixo “super” em seu nome. Ele era, em seus primeiros anos, “mais poderoso que uma locomotiva” e tornou-se virtualmente indestrutível. De “saltar altos prédios com um único pulo”, ele começou a visitar planetas nos cantos mais longínquos da galáxia. E de “mais rápido que uma bala”, ele adquiriu uma velocidade perto daquela da luz.  Nos curtos trinta anos ente 1938 e o final dos anos de 1960 – curiosamente o mesmo tempo de existência, hoje, do início da fase de Byrne – ele tinha se tornado um deus.

s241-quarmm_1No início da década de 1970, Denny O’Neil tentou reduzir os poderes do Homem de Aço durante a chamada “Saga da Criatura da Areia” (publicada aqui pela última vez em Super-homem 5, Editora Abril, 1984). Não demorou nada e ele estava novamente hiperpoderoso. Como O’Neil declarou, “se você tira metade do poder absoluto, ainda sobra poder absoluto”.

O fato é que o Superman era uma instituição. E mexer com ele era algo quase proibido, uma lei não escrita, mas respeitada de uma forma quase religiosa.

Crise? Que Crise?

02No aniversário de cinquenta anos da editora, a DC publicou Crise nas Infinitas Terras, que tinha a intenção de resolver uma série de problemas cronológicos criados durante aquela meia década. Eles queriam tornar os seus heróis – e o seu universo – algo de mais fácil compreensão e identificação com os leitores. E, é claro, o Superman estava nos planos dessa mudança – ao menos para alguns autores e editores. A presidente da DC na época, Jenette Kahn, pediu ideias a vários autores. Cary Bates, o escritor regular do personagem, queria que as coisas permanecessem do jeito que estavam. Marv Wolfman (o arquiteto de Crise) e escritores como Frank Miller e Steve Gerber achavam que o Superman deveria ser reconstruído do início. Mas, de qualquer forma, qualquer um que resolvesse fazer mudanças pesadas no Superman teria quer ter coragem de fazer isso com um ícone.

Wolfman descobriu que Byrne estava abandonando a Marvel e propôs que ele assumisse o Superman. Todos concordaram que ele seria o nome perfeito para a reformulação. Byrne vinha de uma série de sucessos na Marvel e seu nome certamente atrairia leitores. Sua temporada em Uncanny X-Men – que além de desenhar também coescreveu com Chris Claremont – é considerada pela maioria dos fãs como a fase definitiva dos personagens. Além disso, a sua (longa) segunda passagem por Fantastic Four, como artista e escritor, rivaliza com a de Stan Lee e Jack Kirby.

O Homem de Aço

Byrne inicialmente produziu uma minissérie quinzenal chamada de O Homem de Aço, na 06qual eliminou uma bagagem enorme de cronologia do Superman, dessa forma fazendo que o leitor não tivesse que saber absolutamente nada do que tinha acontecido nos últimos cinquenta anos. Essa, na verdade, era a ideia inicial de Crise (que fracassou tremendamente, mas essa é uma história para outro dia): transformar os personagens em algo mais fácil de ser lido. Após a minissérie, Byrne assumiu um novo número 1 de Superman e a vetusta Action Comics (que ele transformou em um título de team-up que trazia o Superman sempre ao lado de outro personagem da DC)

05A primeira coisa que o autor fez foi estabelecer, mais uma vez, que o Superman era o último sobrevivente de Krypton, a suprema parábola do imigrante que vinha tentar a sorte nos EUA. Sim, não mais Supergirl, Krypto, a cidade engarrafada de Kandor. Krypton, o planeta natal do Superman, apareceu pela primeira vez, é claro, em Action Comics 1, mas somente começou a ser desenvolvido nos anos 1950. Esse Krypton que o leitor pré-Crise estava acostumado era, como não poderia deixar de ser, uma versão da sociedade americana da época, extremamente calcada nas histórias futuristas de tantas revistas de ficção científica da época. Byrne transformou Krypton em um mundo árido e asséptico, algo realmente alienígena. E uma das consequências disso era que os kriptonianos não eram gerados no ventre de suas mães, mas sim em matrizes incubadoras, câmaras de gestação.  E é justamente essa câmara que é afixada ao foguete que traz Ka-El para Terra. Como ela só abre no Kansas, Byrne espertamente implica que o Superman nasceu, para todos os efeitos,  na Terra.

Outra mudança foi em Lex Luthor, o seu maior inimigo. Naqueles tempos, o vilão era muito 04mais assustador em um terno italiano bem cortado do que em uma armadura tecnológica. Muito mais um Gordon Gekko (de Wall Street, filme que estreou exatamente no ano seguinte, 1987) que um cientista maluco. Suas motivações eram simples: ele não suporta ficar em segundo lugar, e é exatamente o que acontece quando o Superman chega a Metropolis. Incidentalmente, essa ideia de transformar Luthor em um magnata milionário foi de Wolfman.

A sua relação com o Batman foi transformada também. Byrne diz que existe um respeito mútuo entre eles, mas não a amizade que víamos na época de World’s Finest, o título que eles dividiram durante um bom tempo. O Batman não confia no Superman. E este não aprova os métodos do vigilante de Gotham.

08Mas nem todas as decisões foram acertadas. Sim, estou falando do Superboy. Byrne determinou que o Superman fez a sua estreia apenas quando adulto, contradizendo décadas de histórias… O que não teria consequência alguma se não fosse por um pequeno problema: a Legião dos Super-heróis.  A Legião, de acordo com a sua mitologia foi formada graças à “inspiração” da existência de um Superboy. Mais ainda, o próprio Superboy começou a participar do grupo durante um tempo. Isso gerou uma série de confusões, reboots e triboots do grupo. O próprio Byrne declarou que tinha se arrependido de ter apagado o Superboy da cronologia.

Ao contrário do que muita gente pensa, a passagem de Byrne pelo Superman não teve uma crítica positiva unanime. Muitos dos leitores americanos disseram que o personagem era algo totalmente diferente do que eles conheciam, que “aquele não era o seu Superman” (interessante ver como essa frase sempre aparece quando mudanças são feitas…).

Quando Mais As Coisas Mudam…

Dizem que Homem de Aço foi a mudança mais radical pela qual o personagem passou. E, 07sem dúvida,  a mais lembrada e reverenciada hoje em dia graças a toda uma geração que tem a versão de Byrne como o seu Superman. Isso é claramente compreensível. Afinal, foi Byrne que tornou o Superman interessante novamente. Mas… Será que as mudanças foram tão radicais assim? Depois de trinta anos, temos o distanciamento histórico como nosso aliado. Se formos ver, o que Byrne fez realmente foi trazer o Superman para os níveis de 1938. Ele era, mais uma vez humano, e falho. E foi isso que fez que a passagem do escritor-artista pelo personagem tenha sido tão boa.

Mas, é claro, ela não durou. Mais uma vez, aos poucos, o Superman começou a retomar personagens e mitologia que haviam sido apagados por Byrne.  Aos borbotões. Então, O Homem de Aço não valia mais?

Sim. E não. Em 2003, Mark Waid e Leinil Francis Yu criaram uma história que tinha a intenção de atualizar o Superman para o século XXI. O Legado das Estrelas (Birthright, no original) foi uma minissérie que, assim como O Homem de Aço, tinha a intenção de ser algo que pudesse contar a origem do Superman para todos, sem amarras cronológicas. Coisas 03interessantes foram estabelecidas ali, como Clark ser realmente um repórter investigativo e com problemas pessoais e o Superman uma máscara para Clark, e não o contrário. De certa maneira, O Legado das Estrelas apenas aprofundou o que Byrne tinha começado a fazer, colocando de volta em seu lugar alguns elementos de todas as décadas do personagem.  Ou seja, durante certo tempo tanto O Homem de Aço quanto O Legado das Estrelas foram consideradas pela DC como origens oficiais.

Mas em 2009, as duas não valiam mais. Após o evento Crise Infinita, foi publicada a minissérie Origem Secreta, chamada de “definitiva”. O escritor Geoff Johns havia criado uma Origem Secreta para o Lanterna Verde e então foi decidido que ele deveria fazer o mesmo com o Superman, criando algo que fosse canônico. E, assim, muito da mitologia da Era de Prata voltou a ser parte da cronologia. A minissérie, desenhada por Gary Frank, para todos os efeitos,  era “A” origem definitiva do personagem.

Obviamente, em 2011, tivemos os Novos 52 e o Superman escrito por Grant Morrison. E temos agora Rebirth.  Ou seja, estamos longe de ter uma origem “definitiva” para o Superman.

01

Mas é sempre importante lembrar que todas essas mudanças só ocorreram por causa de John Byrne. Ele mostrou em sua curta passagem (cerca de dois anos com o personagem) que o Superman é um personagem que admite uma série de interpretações. E todas, de certa maneira, são válidas.

E certamente veremos isso se repetir pelos próximos trinta anos.

BenBen Santana nasceu no final da Era de Prata, mas cresceu na Era de Bronze. Professor, tradutor e desocupado (quando sobra tempo), vem lendo e pesquisando quadrinhos desde sempre. Para outros textos sobre quadrinhos, visite seu blog: http://prataebronzecomics.blogspot.com.br

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3 comentários sobre “Entre Balões: Os 30 Anos de O HOMEM DE AÇO

  1. Cronologicamente correta ou não, para mim o que vale é uma boa hist´ria ser bem contada. E “O Homem de Aço” foi muito bem contada! Realmente, há momentos que fica chato recontar a origem de um personagem zilhares de vezes (já cansei de ver as pérolas do colar da mãe de Bruce Wayne rolando no chão após Batman- Ano 1), mas o Superman é como uma narrativa de um deus celta, como uma história passada de pai pra filho, ou seja, é sempre possível inserir ou tirar informações sem prejudicar o entendimento. E é uma história linda! Que venham mais histórias recontando a origem de Kal-El!

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