Crítica: A PIADA MORTAL

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Um filé mignon ensanduichado entre duas fatias de boas intenções equivocadas

Por Carlos Alberto Bárbaro

São tempos bicudos esses em que vivemos.batman-the-killing-joke-first-image-revealed-mark-hamill

Quando foi divulgado que finalmente fariam uma animação de Batman: A piada Mortal, lançada originalmente em 1988 e uma entre outras grandes histórias do barbudão de Northampton, mais conhecido como Alan Moore, foi intensa a grita em certos meios pela decisão em revisitar um típico exemplar de uma época em que o vitimismo ainda não era ensinado como argumento crítico nas escolas de jornalismo.

Claro, todos que leram a história, e até os que não a leram, lembram muito bem do horror que o Coringa leva à família Gordon apenas para “provar um ponto”.

maxresdefaultEssas sequências do original foram, e ainda são, tão intensas que estão na origem do plano do Coringa com os detonadores das barcas em O Cavaleiro Das Trevas, de Christopher Nolan.

A animação acaba de ser lançada nos Estados Unidos, para o mercado de vídeo, e apesar de ser uma boa animação, acaba por se tornar um desastre quase completo. Isso porque os produtores, entre os quais, Alan Burnett e Bruce Timm, produtores da melhor série animada do Batman, a de 1992, simplesmente se renderam completamente aos muxoxos generalizados dos neomoralistas do presente, cuja preocupação maior é que as obras de ficção sejam portadoras de mensagens positivas e que não mostrem ninguém em posição de real perigo.Batman-the-Killing-Joke-trailer-screengrab-1

Dirigida por Sam Liu e com roteiro de Brian Azzarello, a primeira parte da animação é um longo prólogo protagonizado por Barbara Gordon, uma tentativa talvez de humanizar a personagem para os novatos, pois no original a participação da filha do comissário Gordon resumia-se a ser baleada, quase que com certeza estuprada e ficar paraplégica para o resto da vida. Pode-se discutir se o mundo ficou tão imbecil por impor que se tenham de criar recursos narrativos como este para trazer luz a obras do passado, mas se fosse apenas isso (humanizar uma personagem que vai ter um destino cruel mais à frente), não seria um problema.

Não, o problema maior com essa introdução é que Azzarello se preocupa menos em contar uma história sobre Barbara Gordon e mais em deixar claro, por meio de falas que soam mais como discursos indignados, que o Batman de A Piada Mortal é um típico exemplar do homem machista e conservador.

batman-killing-joke-animated-movie-batgirlEstá lá no roteiro. A Batgirl diz isso a ele quase com todas as letras numa (como dizer isto sem corar?) “discussão de relação” entre os dois após uma noite de sexo na qual a moça é que ataca o morcego.

Nos últimos momentos antes de começar por fim a adaptação da obra de Alan Moore, Barbara se despede do papel de Batgirl com um discurso que, sem tirar nem por, é uma espécie de alerta para o espectador de que ela está saindo de cena porque o mundo (leia-se, a história de Alan Moore) está ficando diferente de quando ela quis entrar nele.  Se todo o prólogo se mostra um grande equívoco, que enfraquece a figura de Bárbara Gordon e deixa claro que os envolvidos não sabem o que faz a personagem tão especial, essa cena é um golpe vil de um roteirista menor contra o autor de um punhado de obras definitivas na história dos quadrinhos.tumblr_inline_o52f2k1n9j1qbujox_500

O miolo desse sanduíche continua sendo a verdadeira A Piada Mortal, e esse miolo tem uma direção e sequências animadas que, se não chegam aos pés da expressividade do traço de Brian Bolland, conseguem se sair bem. Em que pese buscarem sempre retratar as personagens femininas que aparecem sob ótica positiva (a esposa do Coringa é aqui um anjo de candura sofrendo as agruras de um casamento equivocado com um fracassado).

O fato é que, entregue do jeito que está, não é possível separar a pérola da ostra que a envolve. A adaptação termina por ser um triste retrato da rendição dos artistas e produtores atuais aos novos censores deste não tão admirável mundo em que vivemos, um mundo em que certa parcela da sociedade não consegue enfrentar as dores da existência e julga que as boas intenções (ou seriam “falsas boas intenções”?) têm que ser implantadas no mundo por decreto. E, talvez pior, que basta censurar qualquer cena de violência em toda obra de ficção para que o mundo se torne um lugar melhor para viver.

Cotação:

Para o recheio:
4-stars
Para o sanduíche como um todo:
2-stars (1)

BraboCarlos Alberto Bárbaro é tradutor, preparador de textos e criador de casos profissional. Seu poder mutante é irritar amigos, inimigos e até desconhecidos – não particularmente nessa ordem

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5 comentários sobre “Crítica: A PIADA MORTAL

  1. Vou seguir o exemplo do Alan Moore e ” criticar em posição de ignorância” .
    Não assisti ao filme pois ele sofre do mesmo complexo que as adaptações de O Hobbit: é muito mais rápido ler a obra original do que assistir ao filme que foi adaptada.

    Sempre quando vejo essas adaptações, me pergunto para quem é o publico. Pois não vão atrair o espectador médio para assistir a uma animação com temas adultos e, quanto ao publico cativo, vão criticar sem piedade pois vai ficar aquém da obra original. “A Piada Mortal” parece soar mais como uma despedida do Mark Hamil como o dublador do Coringa e que expressava abertamente o desejo de participar da obra do que uma visita a uma das histórias mais icônicas do personagem.

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  2. Que triste. Realmente tinha botado fé nessa adaptação. A arte pelo jeito manteve a qualidade do trabalho de Bruce Timm. Pena que resolveram fazer um produto vendável para a geração “palavras machucam” que escuta Justin Bieber e acha que ser fã de quadrinhos é assistir a série do Flash. Tentarei assistir, mas ainda tenho que ver muitas das ótimas animações que a DC produziu nos últimos anos, então essa vai ficar pra segundo, terceiro, quarto ou quinto plano.

    Curtido por 1 pessoa

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