Entre Balões: Como um boicote às OLIMPÍADAS levou a MARVEL a criar sua primeira MINISSÉRIE

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Uma desavença entre os Estados Unidos e a União Soviética mudou para sempre o mercado de quadrinhos

Por Ben Santana

20150910-marvel-super-hero-contest-of-champions-1Poucas pessoas se lembram de Torneio de Campeões (Contest of Champions, no original). Ela foi a primeira minissérie da Marvel, lá no longínquo 1982, e foi ela que mostrou que grandes encontros entre vários heróis da editora era algo possível e desejável pelos fãs. Torneio de Campeões foi a precursora de coisas como Secret Wars, na própria Marvel, e Crise nas Infinitas Terras, na DC Comics. É claro, isso já havia acontecido em 1973, quando tivemos o crossover entre os Vingadores e os Defensores (do qual esta minissérie “empresta” muita coisa). Só que a escala de Torneio é muito maior.

Agora, o que menos pessoas ainda lembram – ou sabem – é que o Torneio de Campeões era para ser algo completamente diferente. A história, na verdade, foi projetada para ser uma Marvel Tresury Edition (álbuns especiais em formato tabloide) que seria lançada para aproveitar a Olimpíada de Moscou, em 1980.

No início de 1980, a Marvel já havia lançado uma Treasury Edition – a número 25 – chamada Spider Man vs The Hulk at the Winter Olympics – os americanos chamam a Olimpíada como conhecemos de “Olimpíada de Verão” –, na qual havia o confronto entre a Rainha Kala e seus Homens-Lava e o Homem Toupeira e seus acólitos. Kala estava atrás da mítica fonte da juventude, mas o Toupeira tenta impedi-la. E tudo isso ocorreu em Lake Placid, Nova York, a sede do evento olímpico de inverno de 1980.contest01

A história, escrita por Bill Mantlo, Mark Gruenwald e Steven Grant teve a arte de Herb Trimpe e Bruce Patterson. Os autores mostram a luta entre as duas facções, que inclusive equipam alguns atletas com apetrechos como esquis e patins a jato, além de trenós hipertecnológicos (sério). A história é, bem, esquecível. Mas na edição vemos um anúncio dizendo que “os super-heróis Marvel voltariam na Olimpíada de Moscou”.

contest02Os mesmos escritores começaram a trabalhar na prometida aventura. Mas havia um problema. A Olimpíada é um evento internacional e a Marvel não tinha – exceção feita a alguns X-Men e o Pantera Negra – heróis internacionais. Então, a editora decidiu criar tais heróis. Gruenwald  trouxe à vida Shamrock, uma heroína irlandesa; Sabra, de Israel; e o Cavaleiro das Arábias. Grant criou o francês Pelegrino e o aborígene Talisman. Junto a Banshee, Colossus, o Pantera Negra e alguns vilões russos (os Supersoldados Soviéticos) que seriam mostrados como heróis por Mantlo em The Incredible Hulk, os autores conseguiram uma equipe menos “americana”.

Além disso, eles queriam fazer algo mais complexo dessa vez. Queriam um conflito Herói contest03vs. Herói, porque – com razão – eles sabiam que era isso que atrairia os leitores.

A arte, de John Romita Jr. (lápis) e Pablo Marcos (nanquim) começou a ser produzida. E aos poucos as páginas foram surgindo.

E então, o mundo real interferiu.

O Afeganistão tinha sido invadido pela União Soviética em meados de 1979 e o presidente americano, Jimmy Carter, avisou que se os soviéticos não saíssem de lá, os Estados Unidos iriam boicotar a Olimpíada de Moscou. Os soviéticos, é claro, não arredaram o pé. E os americanos cumpriram o boicote.

E assim, de uma hora para outra, a Marvel ficou com o mico na mão. Fazer uma Treasury Edition para um evento que não seria prestigiado pelos americanos não era uma opção. A edição foi cancelada.

Ressurreição

contest04Bill Mantlo não queria que os personagens internacionais criados especialmente para a edição agora defunta fossem simplesmente esquecidos. Então, ele os usou no título que estava escrevendo: Sabra e o Cavaleiro das Arábias apareceram pela primeira vez em The Incredible Hulk. Enquanto isso, o arte-finalista do especial, Pablo Marcos – que estava morando no seu país natal, o Chile – continuou a trabalhar nas páginas de Romita, durante os intervalos de seus compromissos. Um belo dia, em 1981, ele apareceu nos escritórios da Marvel, em Nova York, com quarenta páginas já finalizadas e perguntou quando ele receberia o resto da história.

Aquilo tudo tinha sido completamente esquecido, mas Gruenwald percebeu que havia algo aproveitável ali. Ele convenceu o editor-chefe Jim Shooter a autorizar que a história fosse finalizada e então publicada. Bill Mantlo foi chamado para fazer os ajustes necessários e Romita Jr. voltou para terminar a história, que foi expandida para uma minissérie em três números. Na época, a DC já havia trabalhado com o formato, em World of Krypton (1979), mas a Marvel nunca tinha experimentado as minisséries. Era a chance de a editora fazer isso.contest06

Só que havia mais um problema. Como não poderia deixar de ser, entre 1979 (quando a história foi concebida) e 1981 muita coisa tinha mudado na Marvel. Uniformes e poderes diferentes, heróis que saíram e entraram em outras equipes, heróis que tinham ficado inativos e outros que haviam sido criados. A série teria que mostrar o Universo Marvel como ele era naquele momento. Então, para começar, muito da arte teria que ser corrigida e retocada. Para fazer isso foi chamado Bob Layton, que acabou ganhando o crédito de “artista adicional” devido à quantidade enorme de correções necessárias.

contest07Se você acha que a primeira publicação de Secret Wars aqui no Brasil foi estranha graças aos retoques e alterações, o primeiro número de Torneio de Campeões, quando publicado nos EUA, é literalmente um Onde Está o Wally? ao avesso.

Vejamos. A Guardiã Vermelha, dos Super Soldados Soviéticos, foi eliminada da arte porque tinha saído do planeta. O Gigante (Bill Foster), que estava ao lado de Quasar no Projeto Pegasus, foi apagado e substituído pelo Valete de Copas – Foster, como mostrado em histórias de Marvel Two-in-One, estava morrendo de envenenamento radiativo. O Capitão Bretanha foi redesenhado sobre o Capitão Marvel, porque esse último já estava morto. A Miss Marvel, na época, tivera seu título cancelado (e perdido boa parte de seus poderes ) e teve que ser substituída pela Mulher-Hulk. Sem falar que o Fera não estava mais nos Vingadores, e sim nos Defensores. Ele foi mostrado apenas “visitando” os Vingadores e teve – obviamente – seu diálogo totalmente reescrito.

O Torneio

O roteiro foi refeito e retiraram todas as referências olímpicas. Na trama, os heróis são abduzidos e levados para um “domo espacial”. Originalmente seria o Domo Olímpico em Moscou, mas… ei, quem iria perceber?contest08

Duas forças decidem competir entre si: o Grão Mestre e a Desconhecida (que, na verdade, era a Morte, na exata iconografia que Jim Starlin havia dado a ela em suas aparições em Warlock). O prêmio? Se o Grão Mestre vencesse, o seu irmão – o Colecionador – seria ressuscitado. Se ele perdesse, ele próprio morreria.

O Grão Mestre e a Desconhecida começam a escolher suas equipes e as provas consistem em achar quatro partes do Globo da Vida. As equipes devem lutar umas contra as outras para conquistá-las. Parece familiar? Claro: como dissemos, muito foi tomado de Vingadores vs Defensores.

E por que os heróis se submeteriam a isso? Primeiro, enquanto o torneio durasse, a Terra ficaria em animação suspensa. Segundo, se o Grão Mestre vencesse, ele prometeu que nunca mais usaria os cidadãos da Terra em seus jogos. E se a Desconhecida ganhasse, ela aumentaria a vida do nosso sol em mais um bilhão de anos.

-herois_abril_etc-herois-tv-110O resultado dos confrontos? Nah. Para saber, vocês vão ter que ler. A Abril publicou a minissérie em Heróis da TV 108 a 110, em 1988. E a Marvel a relançou pela última vez em um encadernado chamado Avengers: The Contest, em 2012.

Mas o que podemos dizer é que Torneio de Campeões é uma história formulaica, que teve pretensões de fazer algumas críticas sócio-políticas. Sabra, de Israel, e o Cavaleiro das Arábias (por exemplo) se digladiam mesmo se são da mesma equipe. Outro confronto se dá entre a Mulher-Hulk e o machista Defensor.

Ainda assim, apesar de hoje esquecida, Torneio dos Campeões teve um papel fundamental dentro da Marvel. Ela fez que a editora começasse a levar a sério o formato das minisséries. Somente em 1982 , tivemos Hercules: Prince of Power , Vision and the Scarlet Witch e Wolverine (de Chris Claremont e Frank Miller).  Nos anos seguintes, as minisséries se tornaram algo corriqueiro nas prateleiras.

Alguns pontos da trama que foram deixados em aberto na minissérie foram resolvidas em 1987 nas edições West Coast Avengers Annual 2  e Avengers Annual 16 (ambos inéditas no Brasil). Em 1999, ocorreu também um Torneio de Campeões II, sem relação nenhuma com a minissérie original.

Resumindo: a criação de personagens internacionais e o molde para as minisséries da Marvel. Nada mau para um projeto que nem deveria ter sido lançado, não é mesmo?

BenBen Santana nasceu no final da Era de Prata, mas cresceu na Era de Bronze. Professor, tradutor e desocupado (quando sobra tempo), vem lendo e pesquisando quadrinhos desde sempre. Para outros textos sobre quadrinhos, visite seu blog: http://prataebronzecomics.blogspot.com.br

 

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