Enquanto Isso… Batman: Ano Um – 30 Anos Depois

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A reformulação da origem do Homem-Morcego foi uma revolução para o personagem e para os quadrinhos

Por Fábio Ochôa

02O começo é clássico, todo mundo conhece.

Nas primeiras páginas de O Cavaleiro das Trevas, Bruce Wayne sobrevive a um acidente automobilístico, com vago desapontamento e resignação. Após uns drinques com seu antigo parceiro de lutas, James Gordon, ele caminha por uma cidade cinzenta, como sua vida atual, até ser abordado por uma gangue.

Bruce tenta reagir, um ataque cardíaco o leva ao chão. E enquanto cai, em uma das sequências mais clássicas dos quadrinhos, ele passa as 22 páginas seguintes da primeira edição relembrando o seu primeiro ano, os seus dias de inexperiência, como vigilante de Gotham.

Um começo clássico. Ou ao menos seria, se Frank Miller seguisse os 12seus planos originais para a obra e não tivesse optado por cortar toda a recapitulação por achar que ela causava uma quebra estranha no ritmo da história e não casava com todo o resto. De qualquer maneira, como os rumos futuros provaram, a ideia de recapitular os anos iniciais de Wayne como Batman não saiu de sua cabeça.

É história velha e você deve saber, mas não custa nada recapitular o contexto para quem está chegando agora: em meados dos anos 198,0 a DC era vista como uma editora estagnada no tempo, com suas terras paralelas, ajudantes juvenis e coadjuvantes pra lá de duvidosos como supercachorros, supermacacos e até mesmo um supercavalo. Sua arquirrival, a Marvel, passava por uma excelente fase de renovação promovida pelo editor-chefe Jim Shooter. Era uma editora que detinha sozinha 69% do mercado, contra 18% da DC.

Desnecessário dizer que algo tinha que ser feito.

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Com muito pouco a perder, a editora optou por uma renovação radical, uma megasaga – baseada nos impressionantes números de vendas de Guerras Secretas da Marvel – que apagasse toda sua confusa continuidade e seus mundos paralelos e recomeçasse tudo do zero, com uma nova origem para os medalhões da casa: Superman, Batman, Mulher-Maravilha etc, um recomeço em sintonia com os novos tempos.

09Deu uma certa polêmica interna, um setor da editora era totalmente favorável à reinvenção completa, a apagar tudo que a editora representara até então. Outro setor, achava a ideia um autêntico sacrilégio. No fim, optaram pela salomônica decisão de agradar a ambas as vertentes, alguns personagens – incluindo sua tríade principal – seriam reinventados, outros não – que geraria uma confusão cronológica que perduraria pelos próximos 30 anos, mas isso é assunto para outro textão.

Com todos os personagens, a lógica foi a mesma: manter o que é essencial, podar os excessos, mudar e atualizar todo o resto. Difícil discordar.14

Para Superman, o – então – astro John Byrne retirou da gaveta sua releitura do personagem, pronta desde os tempos em que a Marvel cogitou publicar o Homem de Aço, apenas dois anos antes. Para Mulher-Maravilha, foi a chance de outra estrela, George Pérez, finalmente acalentar a vontade de virar roteirista, mas e quanto a Batman? O que fazer com um personagem que vivia um dos seus picos de popularidade nos quadrinhos após o lançamento de O Cavaleiro das Trevas?

E vamos ser sinceros, quem teria coragem de pegar o personagem, logo após um trabalho tão bem-sucedido em termos de público e crítica como foi a minissérie?

O próprio Frank Miller manifestou interesse antes que qualquer um tomasse a palavra. Imagino que, nesse momento, a diretoria da DC deve ter suspirado aliviada e aberto uma garrafa de champanhe. Frank Miller + reboot de Batman era praticamente o equivalente a imprimir dinheiro.

13E assim, naqueles anos em que circulava pouca informação, quem pegou a edição 404 da revista Batman teve uma surpresa. Mesmo sem ler as chamadas de capa, o estilo era diferente, elegante, sujo e minimalista, uma arte com nítidas influências de Alex Toth e da linha clara europeia. O estilo pertencia a David Mazzuchelli, parceiro de Miller em outro clássico instantâneo, A Queda de Murdock.

Se naquela história a redução gradual de detalhes do traço de Mazzuchelli servia como uma eficiente metáfora da simplificação ao básico da vida de Matt Murdock, em Batman, ajudava a criar um clima noir urbano, sujo e realista, era um mundo que parecia saltar do cinema de Martin Scorsese dos anos 70 e dos livros de Elmore Leonard.

Batman: Ano Um influenciaria muita gente, entre elas, a abordagem minimalista do Batman das animações de Bruce Timm e o excepcional título Gotham City Contra o Crime, de Greg Rucka, Ed Brubaker e Michael Lark.11

O roteiro parecia com tudo, menos com uma história em quadrinhos de super-heróis tradicional. Entre os principais achados – e ousadias – estava uma Mulher-Gato prostituta. Se alguém ainda tinha alguma dúvida, aí estava a prova: decididamente não era uma revista da velha guarda da DC.

O interessante é que este mesmo dado começou a ser minimizado com o passar dos tempos até ser sumariamente apagado da continuidade, talvez por excesso de pudores ou por ser ousada demais. Claramente, ninguém soube muito bem o que fazer com esse material após Miller concluir suas quatro edições.

10Outra ousadia era o foco da história, que mostrava um James Gordon com relevância para a trama tão grande quanto Bruce Wayne e sua contraparte. Um Gordon humano, falho, um mau marido que trai a esposa grávida, ao mesmo tempo em que enfrenta a corrupção na cidade da melhor maneira que pode, encontrando um aliado improvável na figura fantasiada que ronda a cidade.

Não é o tipo de decisão criativa que um editor apoiaria hoje em dia. Eram outros tempos. unnamed

Em um certo sentido, Batman: Ano Um envelheceu melhor que Cavaleiro das Trevas, que ficou
marcada como um retrato de sua época. É impossível ler adequadamente a minissérie sem conhecer ou ter vivenciado o contexto político e urbano dos anos 1980.

Ano Um segue de uma maneira mais refinada e elegante e um tanto menos anacrônica. 30 anos depois, além de permanecer como um dos maiores clássicos dos quadrinhos – e um feliz encontro da literatura policial com o universo dos super-heróis, roteirizado por um autor então em seu auge – Ano Um é um feliz exemplo de revitalização bem-sucedida: ou seja, eliminou o que ficou datado, atualizou a relevância e o contexto e ampliou a mitologia, mas sem esquecer a essência do personagem.

Aprendam, Novos 52. Nunca serão.

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OchôaFábio Ochôa trabalha como redator publicitário. Conquistou prêmios, foi citado na TV, foi diretor de criação, já saiu na Zupi, fez campanhas políticas e, mesmo assim, ainda consegue gostar das pessoas e achar este mundo um lugar legal. É um exemplo, esse rapaz. Trabalha também como ilustrador freelance e roteirista eventual. Para saber mais acesse:  www.behance.net/fabioochoa

 

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4 comentários sobre “Enquanto Isso… Batman: Ano Um – 30 Anos Depois

  1. Batman Ano Um eu li a primeira vez em formatinho, dividido na revista do Morcegão, e confesso que o visual não me agradou na primeira lida (um moleque de 12 anos que se empolgava mais com o estilo do Neal Adams e Jim Aparo para o herói, mas que estava começando a enveredar por quadrinhos mais sóbrios lendo A Espada Selvagem de Conan da fase Thomas/Buscema/Alcala e as excelentes revistas nacionais de terror, humor e ficção, um anos antes de conhecer Sandman de Gaiman/Kieth/Dringemberg), mesmo assim dei uma chance porque amei “A Queda de Murdock”. Poucos anos depois, lá estava eu com versão encadernada em formato americano em mãos, pronta para ler sem longos intervalos mensais. Aí sim! Que narrativa! Que arte sequencial! Confesso que ainda tenho dúvidas, mas pessoalmente a considero mais importante que Cavaleiro das Trevas. Basta eu resolver dar uma tirada de pó na coleção de HQs que, ao me deparar com Ano Um, tenho que abri-la, admirá-la, relembrar preciosos momentos. Tenho 5 versões diferentes (formatinho, 1a encadernação da Abril, importada, 2a encadernação da Panini, com extras, e definitiva), e não compro a revista mensal do Batman há uns 7, 8 anos (talvez compre a encadernada da Corte das Corujas, mas estou mais interessado em reler as edições que a Eaglemoss prometeu lançar encadernadas). Muito obrigado por lembrar de homenagear esse clássico, Ochôa. Que venham mais homenagens a obras como esta, responsáveis por mudar a forma de se enxergar as HQs de super-heróis!

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