Chique Norris: ESQUADRÃO SUICIDA, som e fúria sem o mínimo significado

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A triste era do cinema que não é mais cinema

Por Carlos Alberto Bárbaro

Filmes são brinquedinhos difíceis de colocar em pé.13522925_1739912686289365_5681588421322816909_o

Nos tempos áureos em que eram feitos no braço, sem apoio de inovações tecnológicas como CGI, 3D, Dolby Surround e tantas outras traquitanas pra ficar esfregando na cara e ensurdecendo a percepção dos espectadores, roteiro, direção, edição e atuação eram basicamente as coisas a ser levadas em conta na recepção das obras em 24 quadros por segundo.

Assim, no passado, se um filme não possuía um desses elementos bem desenvolvido, se algo falhava em algum ponto da linha de produção, o gigante ficava com os calcanhares à mostra.

Se, no entanto, todos esses elementos, em maior ou menor intensidade, fracassavam, o resultado era percebido até mesmo pelo espectador mais desavisado, o João da Silva da esquina, que tinha escolhido o filme no saguão, só pelo cartaz mais chamativo que os das outras opções do menu.

Corta para o presente.

deadshotNunca antes na história do cinema foi possível manipular com tamanha facilidade os sentimentos do espectador mediano.

Se um diretor precisa de um demônio tinhoso barulhento e assustador para fazer as mocinhas e mocinhos soltarem um gritinho de medo no escurinho, o departamento técnico terá uma paleta imensa de opções para oferecer ao artesão contratado pelo estúdio.

Se, já no processo de edição, o autor da obra percebe que determinada sequência, digamos, de personagens simplesmente andando sem rumo por ruas escuras de uma cidade qualquer, está um tanto quanto tediosa, basta colocar como música de fundo um rock extremamente popular entre a audiência, que, distraída por aquela reverberação nostálgica, aceitará entusiasmada as imagens inanes projetadas na tela à sua frente, e quando sair do cinema nem se dará conta que ao lembrar com carinho daquelas imagens, do que estará lembrando mesmo é daquele rockão sensacional, que melhora até filme brasilerio ruim.

Duvida? Faça a experiência. Selecione alguma sequência de perseguição de algum filme suicide-squad-comic-book-poster-7chulé qualquer, reduza o som do original e assista a esta sequência ao som de Bohemian rapsody.

Em resumo, o dom de iludir está hoje à disposição de qualquer profissional, dos mais aos menos gabaritados. Mas o problema, como sempre, continua o mesmo.

O que fazer com os brinquedinhos?

Para reconhecer um filme ruim não é preciso senão ter visto filmes bons.

O cinema tem uma linguagem peculiar.

Um personagem ganha força e ossatura aos olhos dos espectadores se tem uma história, se nos é apresentado em ação, interagindo com o cenário e com os outros personagens e se, nessa interação, vá revelando a si e à sua história, sem pressa, pouco a pouco.

suicide-squad-joker-posterUma trama só prende a atenção se ela captura o interesse da audiência, se desde o princípio se consegue entender ao menos o que estará em jogo nas próximas duas horas ou menos de projeção e se consiga ser vinculada de forma umbilical a seus protagonistas, se a impressão final seja de que aquilo que aconteceu, da maneira que aconteceu, só poderia mesmo ter acontecido com aqueles personagens.

Esquadrão suicida é um filme ruim basicamente porque consegue quebrar não apenas uma, mas praticamente todas as regras do bom cinema.

Ele não apresenta os personagens diretamente, apelando ao recurso pra lá de discutível de um narrador não-confiável ler as fichas de prisão de cada um deles enquanto são mostradas as imagens de cada um e, pasme, seus “poderes” sejam apresentados por escrito ao leitor, em gráficos neon que tomam toda a tela. Tudo, claro, com rock pesado, rap irado e pop massa tocando a todo volume ao fundo.

São muitos personagens. Ganha-se tempo assim.

Não, é só incompetência dos envolvidos mesmo, pois a trama do filme é tão simplória, tanto tempo é gasto com explosões e briguinhas risíveis entre os protagonistas, que é de se perguntar se alguém que tenha entrado no cinema sem conhecimento prévio desses personagens terá saído da projeção em condições de dizer algo mais sobre cada um deles além de frases dispersas como: “tem um que atira”, “tem uma mina gostosa e divertida”, “tem um cara com cara de sapo”, “tem um que pega fogo” etc.

Esquadrão suicida é aquele tipo de filme em que não se sabe de fato o que está em jogo, em que os espectadores não montam a trama em sua cabeça enquanto assistem ao filme, mas tão somente aceitam que o que aquela senhora disse no começo do filme sobre a trama e sobre os personagens é o que deve estar acontecendo.

Esquadrão suicida é um filme que tem aparições do Batman e do Coringa que, se retiradas do filme, não fariam nenhuma falta à trama.

Esquadrão suicida não é um filme, é simplesmente uma apresentação em um power point muito descolado e barulhento.

 

BraboCarlos Alberto Bárbaro, o Chique Norris é tradutor, preparador de textos e criador de casos profissional. Seu maior sonho na vida é formar seu próprio Esquadrão Suicida para lançar um ataque kamikazi às cegas contra o Titanic

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3 comentários sobre “Chique Norris: ESQUADRÃO SUICIDA, som e fúria sem o mínimo significado

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