Enquanto Isso… Direto da Estante: Bran Mak Morn, o “irmão” pouco conhecido de Conan

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Com um tom mais sombrio e trágico, as aventuras dessa outra criação de Robert E. Howard foram lançadas no Brasil

Por Fábio Ochôa

09Bran Mak Morn, o líder picto, é uma das criações mais obscuras do escritor texano Robert E. Howard, o que é ao mesmo tempo uma maldição e uma bênção. Uma maldição porque ele é justamente um dos personagens mais interessantes do autor, uma bênção porque é por este desconhecimento geral e falta de popularidade que suas histórias nunca sofreram o peso de ter que se adequar às demandas de um público adolescente mais amplo, como ocorreu com Conan nos anos 1980.

Conan foi uma das apostas editoriais mais arriscadas dos anos 1970, vindo de um gênero que estava em baixa, com um personagem completamente desconhecido. Graças àqueles fenômenos de mercado que nunca entendemos muito bem, a 03revista se tornou um imenso sucesso (exponenciado na década seguinte, calcado na franquia cinematográfica estrelada por Arnold Schwazzenegger), e com isso começou uma autêntica escavação editorial (ou exumação, de acordo com o ponto de vista) atrás de outros personagens de Howard, na esperança que o raio caísse duas vezes no mesmo lugar.

04Não caiu. Nem perto disso, aliás. De qualquer maneira, os outros personagens adaptados tiveram excelentes histórias e excelentes fases, mas nada que se comparasse à fama do bárbaro. Entre eles estavam Sonja, a guerreira ruiva; Rei Kull; o puritano Salomão Kane; e o primo pobre da trupe, o mais desconhecido deles, o líder picto Bran Mak Morn.

O que é uma pena pois, entre todos, Mak Morn é o mais diferenciado e autoral deles.

Bran Mak Morn é um guerreiro picto de uma tribo cada vez menor. O império romano avança a cada dia, dizimando os da sua espécie e gradualmente estreitando seus territórios. É um guerreiro que sabe que seus dias estão chegando ao final e esse é o tom que o diferencia das demais criações de Howard. Suas histórias possuem um ar terrivelmente melancólico, de fim onipresente, um tom metafísico e místico de destino inevitável. É a história de uma tribo que sabe que sua extinção é iminente e, resignada, aceita isso de cabeça em pé, sem falsas esperanças de vitória, mas ainda combatendo, como guerreiros de antigamente.

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As histórias são lúgubres, a magia é retratada como parte do cotidiano e em momento algum o texto do roteirista Roy Thomas faz concessões ao heroísmo fácil. Ele prefere destacar mais a atmosfera da história que a ação desenfreada.06

Em Vermes da Terra (e em sua segunda parte, A Maldição da Esfera Negra), o rei dos pictos se vê às voltas com o governador romano Titus Sulla. A tentativa de acordo que Mak Morn tentou com os romanos foi em vão e, frente à imensa desvantagem bélica de sua tribo, ele desce às profundezas abissais para firmar um pacto com algumas terríveis criaturas para levar a cabo sua vingança. Um pacto que pode ter um alto preço para ele.

Os desenhos de Tim Conrad (em parceria com Barry Windsor-Smith na primeira parte) são um espetáculo à parte: sombrios, carregados, densos. O artista John Buscema foi o mestre insuperável da era Hiboriana, mas dificilmente seria uma boa escolha para Bran Mak Morn – já a arte soturna de Conrad cai como uma luva para o clima da história.

(De fato, o clima é tão fatalista e depressivo que até me desanimou a fazer comentários engraçadinhos sobre ela aqui.)

07Embora não diagnosticado, Howard era claramente depressivo, esse tom é muito presente no subtexto de obras como Conan e Salomão Kane, mas em Mak Morn, essa faceta assume o primeiro plano. O autor tiraria a própria vida em 1936.

É muito comum que se alardeiem os anos 1980 como a aurora dos quadrinhos adultos. É injusto. Essa história, de 1977, já é uma boa mostra do que os quadrinhos eram capazes em termos de ambientação e maturidade (com a vantagem extra de não ter 10% da pretensão e pedantismo dos quadrinhos das décadas seguintes) e uma prova que violência gráfica, sexo explícito, referências soltas à cultura pop e erudita e quilos de palavrões não são sinônimos de amadurecimento – podem ser bem o oposto, até. Maturidade se consegue com personagens complexos, refinamento gráfico e textual e excelentes caracterizações, como é o caso aqui.

Esta história saiu em duas partes no Brasil. A saga do picto é complementada por Homens das Sombras, publicada na revista A Espada Selvagem de Conan 44, com desenhos espetaculares de Gene Day. Vale a pena procurar e ler as três partes.

Bran Mak Morn é uma pequena pérola prestes a ser descoberta por aí. Uma das pequenas obras-primas escondidas na avalanche industrial dos títulos mensais.

É uma história que, com suas considerações filosóficas sobre a vida e seu tom único, resiste à banalidade que permeia a indústria dos quadrinhos. Não muito diferente, aliás, de uma pequeno tribo de pictos, que resiste de cabeça erguida a uma força inevitável e destruidora chamada Roma.

Nota: 9. (Só não é 10 pela verborragia de Roy Thomas. E, sim, eu sei é coisa da época).

Onde encontrar: A Espada Selvagem de Conan 27 e 28 (Abril, 1987)

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Fábio Ochôa trabalha como redator publicitário. Conquistou prêmios, foi citado na TV, foi diretor de criação, já saiu na Zupi, fez campanhas políticas e, mesmo assim, ainda consegue gostar das pessoas e achar este mundo um lugar legal. É um exemplo, esse rapaz. Trabalha também como ilustrador freelance e roteirista eventual. Para saber mais acesse:  www.behance.net/fabioochoa

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2 comentários sobre “Enquanto Isso… Direto da Estante: Bran Mak Morn, o “irmão” pouco conhecido de Conan

  1. Fantástico texto, Fábio. Realmente muita gente pensa que o auge dos chamados quadrinhos adultos foram os anos 80, esquecendo-se de clássicos anteriores como Creepy, Eerie, Heavy Metal e Blazing Combat, só pra citar alguns. Sou fã incondicional da obra de Howard e amo a “verborragia” de Roy Thomas. Sinto falta disso nos roteiristas atuais, o cara conseguia descrever a Era Hiboriana como ninguém, e algumas de suas páginas introdutórias são insuperáveis até hoje. Bran Mak Morn foi realmente subestimado, e sua história curta demais (até pelos fatos históricos), talvez uma reedição bem acabada desse material ilustrado junto com os contos originais, ou mesmo um prelúdio com sua infância e juventude ficasse fenomenal nas mãos de bons roteiristas e artistas, pena que as vendas seriam ínfimas…

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