Crítica: BATMAN ’66 ENCONTRA O BESOURO VERDE

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O cineasta Kevin Smith coescreve o reencontro entre o Homem-Morcego e o Besouro Verde nos quadrinhos

Por Maurício Muniz

Quando o seriado televisivo Batman, estrelado por Adam West, estreou na rede ABC em janeiro de 1966, logo tornou-se um enorme sucesso com seu clima de paródia, exageros e “astros especialmente convidados”. O sucesso foi tal que, de repente, heróis mascarados pareciam uma boa opção para a telinha e o produtor do seriado, William Dozier, convenceu a ABC a lançar uma outra série com um herói mascarado. Assim, em setembro do mesmo ano, surgiu O Besouro Verde, estrelado por Van Williams como o milionário Britt Reid, que usa máscara, armamentos sofisticados e os punhos para combater o crime ao lado de seu assistente chinês, Kato (Bruce Lee), mestre em artes marciais.

Alex Ross Revives Batman 66 Meets Green Hornet & Astro City - Comic Book ResourcesMas, diferente de Batman, o Besouro não fez sucesso. Diz a lenda que Dozier achava ridículos os personagens do Homem-Morcego e seu parceiro Robin (interpretado por Burt Ward no seriado) e era essa visão que implantou na produção e nos roteiros. Mas, curiosamente, O Besouro Verde – originalmente criado no rádio e com passagens pelos quadrinhos e pelo cinema) era levado a sério, em tramas algumas vezes até sombrias e cenas de ação mais violentas. Um exemplo é o expediente usado pelo herói de fingir-se de criminoso para melhor transitar no submundo.Talvez por se afastar tanto da fórmula de Batman, o seriado do Besouro não tenha feito sucesso. Dozier bem que tentou levar o público de Batman a assistir seu primo mais pobre: primeiro o Besouro e Kato apareceram na janela de um prédio escalado por Batman no seriado do Homem-Morcego; depois o herói de Gotham comentou em um episódio que assistia a O Besouro Verde (santo pós-modernismo, Batman!) e, finalmente, o Besouro e Kato atuaram ao lado de Batman e Robin em um episódio duplo da série, no qual enfrentavam o vilão Coronel Gumm, um colecionar louco de selos. Nada disso, porém, impediu que o seriado do Besouro fosse cancelado após sua primeira temporada devido à baixa audiência.

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Essa versão para a TV do Besouro, contudo, se tornou cultuada – em grande parte devido à presença de Bruce Lee – e ganhou mais fãs ao longo das décadas. Não apenas foi a inspiração para o filme terrível estrelado por Seth Rogen em 2011, como também para várias séries em quadrinhos. A última delas, escrita pelo cineasta Kevin Smith e publicada pela editora Dynamite, trazia uma reinvenção do Besouro, agora na figura do filho de Reid, que assume o manto heroico após o assassinato do pai é auxiliado pela filha de Kato. Mas se você é fã da versão televisiva original, nosso conselho é que leia o divertido reencontro nos quadrinhos entre o Besouro, Kato e a dupla dinâmica de Gotham City.Batman-66-GH_CH3_4

Batman ’66 meets The Green Hornet, publicado em 2015 nos Estados Unidos pela DC em parceria com a Dynamite, é uma continuação direta aos episódios exibidos em novembro de 1966, nos quais os heróis se encontraram e detiveram o Coronel Gumm. A história tem início com a tentativa de roubo de uma coleção de fósseis raros que sairá de Gotham para ser exibida na cidade do Besouro Verde. Ciente da tentação que a coleção pode ser para os criminosos, Bruce Wayne resolve acompanhá-la no trem que a transporta e, surpresa, encontra lá também seu velho amigo Britt Reid que, secretamente como o Besouro, planeja proteger a carga em caso de roubo. Logo os temores dos heróis se mostram reais quando o trem é atacado pela quadrilha de Gumm, que após sofrer um acidente com um poderoso adesivo que o deformou, se autopromoveu a General e tornou-se um vilão ainda mais perigoso. A trama, cheia de reviravoltas, coloca o quarteto de defensores da justiça no encalço do vilão, mesmo enquanto Batman e Robin tentam o tempo todo prender o Besouro e Kato, considerados criminosos. A aventura se complica, porém, quando Gumm revela que está aliado ao Coringa, o palhaço do crime.

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Publicada originalmente em seis edições e depois encadernada em volume único (tudo ainda inédito no Brasil), a minissérie tem o mérito de captar muito bem o clima afetado e jocoso do seriado do Homem-Morcego: a primeira vítima, nesse caso, é o tom sério do seriado do Besouro na TV, que aqui é praticamente deixado de lado. Muito do que era visto no seriado de Batman é visto aqui: ele tira do seu cinto de utilidades coisas que não deveriam caber lá; dá lições de moral um tanto pedantes a Robin; chega a conclusões geniais através de pistas idiotas; é abandonado à própria sorte em armadilhas mortais e estapafúrdias e escala laterais de prédios com facilidade (com direito a uma aparição de Richard Nixon numa janela).

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Há referências também aos bastidores das duas séries de TV. A cidade do Besouro é apenas chamada de “sua cidade”, já que nunca ficou claro em qual localidade ele e Kato atuavam; o esconderijo de um vilão é localizado no “Boulevard Dozier” e o Coringa é desenhado tão à imagem de Cesar Romero, seu intérprete no seriado de Batman, que é possível ver até os fios de bigode do ator por baixo da maquiagem de palhaço.BatmanGH_CH_06_1-PreviewPage1

A arte da série fica por conta de Ty Templeton, que trabalhou em diversas adaptações de desenhos animados da DC para os quadrinhos, como em Batman Adventures, e seu desenho casa perfeitamente com o visual do seriado de Batman, com um traço claro e uso de referências fotográficas. O roteiro é feito a quatro mãos por Kevin Smith e pelo ator e comediante Ralph Garman e com poucas páginas de leitura fica claro que este trabalho é obra de fãs das duas séries. Tudo funciona a contento: o humor conscientemente meio forçado, as sequências de ação que não se levam a sério (embora uma luta entre Robin e Kato é bem encenada e até empolgante); as caracterizações caricatas. Para fãs dos dois seriados, principalmente de Batman, a edição é um deleite e é tão divertida que teria rendido um bom longa-metragem para unir as duas franquias. Já as capas originais de Alex Ross dariam ótimos pôsteres, cada uma delas.

Uma edição para ter na estante e revisitar de tempos em tempos, mais ou menos como já fazemos com os dois seriados.

Cotação:
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