Crítica: MULHER-MARAVILHA (se vamos fazer vista grossa pros defeitos do filme, esse universo DC no cinema nunca vai prestar)

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O filme solo da heroína começa bem, mas escorrega feio no clímax e se mostra outra decepção

Por Maurício Muniz

Antes de falar do filme Mulher-Maravilha (Wonder Woman, 2017), vamos tirar um momento para lembrar que a personagem da amazona foi a melhor coisa do desastre chamado Batman V Superman? Apesar de sua curta participação, a Mulher-Maravilha foi praticamente a única que teve atitudes realmente heroicas na história, enquanto os dois marmanjões disputavam quem era o mais chato e pedante.

gal-1468689855Pois bem: as boas notícias são que o carisma e o dinamismo que a personagem apresentou no filme de Zack Snyder continuam presentes em seu filme solo, em versão até melhorada. Mesmo se sua intérprete, Gal Gadot é uma atriz limitada, ela consegiu encarnar bem a inocência, a coragem e a força da Mulher-Maravilha. O problema é que, infelizmente, o material aqui não faz jus à personagem.

Atenção: o texto abaixo contém alguns spoilers, leia por sua conta e risco.

O filme dirigido por Patty Jenkins (mais conhecida por Monster: Desejo Assassino, de 2003) começa muito bem. O roteiro de Allan Heinberg (do seriado Grey’s Anatomy) sobre uma história dele e de Zack Snyder, segue de perto a mitologia da personagem e mostra Diana, ainda criança, crescendo em meio às amazonas da ilha de Themyscira e mostrando interesse em se tornar uma guerreira. Sua mãe, a rainha Hipólita (Connie Nielsen, de Gladiador) é contra a princípio, mas acaba por permitir que sua irmã, Antiope (a sempre ótima Robin Wright, de House of Cards), treine a menina, desde que prometa torna-la a melhor das guerreiras amazonas. Após anos de treino duro, Diana se torna uma lutadora mais que eficiente, que ainda parece guardar algumas habilidades secretas, que usa em momentos de mais perigo.

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O treinamento de Diana vem a calhar quando um avião alemão da Primeira Guerra Mundial, pilotado pelo espião americano, o Capitão Steve Trevor (Chris Pine, da nova versão cinematográfica de Star Trek), cai na ilha. Não explica-se como o avião sofreu os danos que levaram à sua queda e nem como ele chegou na ilha quando deveria estar a caminho de Londres, onde Trevor está alocado, mas logo um navio de guerra alemão e vários botes que procuram por ele também ultrapassam a mesma barreira mística que mantém a ilha escondida e desembarcam na praia, onde lançam um ataque às amazonas. O que se segue é uma ótima sequência de ação, na qual as amazonas, armadas apenas com espadas, arcos, flechas e suas incríveis habilidades, acabam com os inimigos em uma batalha sangrenta na qual há baixas dos dois lados. A coreografia impressiona em alguns momentos e parece prenunciar que vem coisa boa pela frente. Mas, se você for do tipo detalhista, porém, já vai notar que apenas os botes dos soldados alemães são mostrados desembarcando na ilha, enquanto o grande navio que os acompanha simplesmente some, desaparece sem que ninguém fale mais dele pelo resto do filme ou até pareça vê-lo. Será que era um navio fantasma? Não haviam outros soldados dentro dele? O roteiro não se dá ao trabalho de responder.

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Voltando à trama, Diana e as amazonas descobrem que o mundo está em guerra e a princesa conclui que o conflito é obra de Ares, o deus da guerra, antigo inimigo de seu povo. Assim, desafiando outra vez a vontade de sua mãe, Diana resolve partir com Steve Trevor rumo a Londres, onde o espião planeja entregar a seu superior, o pacifista Sir Patrick (David Thewlis, o professor lobisomem de cinco filmes da série Harry Potter), as anotações sobre as armas que estão sendo desenvolvidas pelos dois vilões principais da trama: a desfigurada Dra. Maru (Elena Anaya), especialista em venenos poderosíssimos, e o General Luddendorf (Danny Huston), que tem uma droga que o deixa com força sobre-humana.

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São simpáticas as sequência em que Diana, em Londres, tenta se adaptar ao mundo moderno (moderno de 1918, veja bem) e é auxiliada pela figura divertida de Etta Candy (Lucy Davis, da versão inglesa de The Office, quase irreconhecível), secretária do Capitão Trevor. Mas o que Diana quer mesmo é partir em busca de Ares para matá-lo e convence Trevor a leva-la para o campo de batalha junto a três mercenários que servem mais como alívio cômico que como combatentes (momento nerd: nos quadrinhos, um deles, Andre Blanc-Dumont, interpretado por Said Taghmaoui, é membro dos Falcões Negros, heróis de um título de guerra da DC).

filmes_2473_mar5Há mais uma ótima sequência de ação, quando Diana lidera um ataque contra soldados alemães que dominaram uma pequena vila. Apesar do uso de efeitos computadorizados pouco críveis como dublês da heroína em seus pulos, é muito bom ver a Mulher-Maravilha lutando cara a cara contra diversos soldados, desviando balas com seus braceletes, lançando tanques contra os inimigos, destruindo prédios e derrubando paredes.

Mas, se podemos ser chatos novamente, isso também levanta uma questão: como funcionam os poderes de Diana? Em alguns momentos, ela demonstra uma força comparável à do Superman. Em outros, parece ter dificuldades em um confronto físico com alguns soldados normais. Parece mais um ponto mal explicado da trama.

De qualquer forma, é após essa batalha divertida que quase tudo de bom do filme simplesmente acaba e dá lugar a uma sucessão de erros. Logo, Steve e Diana se infiltram em uma festa na qual ninguém parece notar que a moça carrega uma enorme espada presa às costas. Os vilões lançam um ataque com gás venenoso meio aleatório contra a vila da qual os heróis acabaram de sair – para chocar o público? – e Diana volta às pressas para lá, apenas para descobrir que todos foram mortos. Mas é um vai e vem meio gratuito da personagem, que demonstra que o roteiro já começava a perder o rumo.

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E o pior ainda está por vir. Logo Diana se vê frente à frente com o grande vilão do filme, em uma revelação que só é surpreendente pra quem nunca viu um filme na vida. E então temos uma batalha que deveria ser grandiosa e épica, mas mostra-se apenas chata, sem emoção ou suspense. Não há nem um combate físico decente: vilão e heroína limitam-se a ficar jogando entulho e detritos um contra o outro à distância. É um confronto tão genérico e sem personalidade que poderia estar em qualquer outro filme de super-herói. E ainda temos que admitir que o poderoso vilão é um sujeito justíssimo e muito educado: não apenas ele para, fica à distância e não interfere quando Diana e Trevor têm uma longa conversa em meio à batalha, como poucos minutos depois também fica longe e respeita o momento em que a heroína tem um longo flashback. Um verdadeiro cavalheiro. Mas é compreensível: a batalha não estava interessante nem pra ele, pelo visto.

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Bem, ao menos as coisas não podem piorar, certo? Ah, podem, sim. A resolução da luta é feita de uma maneira tão piegas que você custa a acreditar que é isso mesmo. Vem um discurso sobre “o amor ser mais poderoso que a guerra”, ocorre um sacrifício pra lá de forçado, alguns raios são lançados aqui e ali e… bum! É isso. Vilão vencido sem maiores problemas. E se você acha que a coisa não poderia ficar ainda mais piegas… ainda somos apresentados a uma sequência em que soldados de lados diferentes, que há poucos segundos tentavam matar uns aos outros, começam a se abraçar com grandes sorrisos nos rostos. Não tenha vergonha de rir desse momento ridículo: eu mesmo não aguentei a gargalhei com essa verdadeira vergonha alheia, enquanto tocava em minha cabeça as músicas “Why can’t we be friends” e “All you need is love”.

A partir daí, ao que parece todos ficaram sem graça e resolveram acabar o filme tão depressa quanto possível. Tão depressa, aliás, que deixam várias pontas soltas. Não há uma cena final para a personagem de Etta Candy, que some no meio do filme – mas, frente aos desenvolvimentos da trama, mostrá-la uma última vez seria necessário. Também não sabemos que fim leva a Dra. Maru, após sua curta participação na batalha final – sua situação fica em aberto. O atirador inglês que acompanha os heróis também fica devendo um momento de redenção, como o roteiro indica que deve vir, mas nunca vem. Uma última olhada na ilha de Themyscira (e o reencontro de Diana com mãe, que deveria explicar um segredo sobre ela) também é ignorada. O que talvez não seja ruim, porque depois dos momentos finais do filme, eu só queria mesmo que a coisa acabasse logo. Uma verdadeira pena, depois de uma primeira metade tão promissora. A melhor coisa do filme, de novo, é Gal Gadot: num filme em que quase todo o elenco parece estar no automático, ela é a única que empresta vida e empolgação a seu papel, mesmo com todas as limitações dramáticas que tem.

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É triste constatar que após realizar o que talvez seja a melhor trilogia do cinema sobre super-heróis, os filmes de Batman dirigidos por Christopher Nolan, a Warner não consiga chegar nem perto da excelência deles. E como DCnauta de carteirinha que sou, é mais triste ainda notar que os filmes da DC continuam patinando e não chegam nem perto do nível de diversão e entretenimento das produções da Marvel – é incrível como os filmes da Marvel sempre parecem ter meia-hora menos do que têm, enquanto os da DC parecem ter meia-hora mais. Ao menos aqui conseguiram captar corretamente, na maior parte, o espírito da Mulher-Maravilha. Só a história em que a colocaram é que deixa muito a desejar.

Os críticos ao redor do mundo têm elogiado o filme, então estou em minoria. Bem, quem for ao cinema sem muitas exigências e desligar o senso crítico, apenas para curtir algumas sequências de ação e explosões, deve gostar. Na verdade, se você gostou de Batman V Superman, é bem capaz que goste de Mulher-Maravilha. Mas a impressão é que muitos podem estar simplesmente sendo condescendentes, seja porque todo mundo torce que um filme estrelado por uma heroína dê certo, seja porque está ficando repetitivo ter que dizer que os filmes da DC continuam decepcionantes. Mas ser condescendente com filmes ruins não vai ajudar que seus produtores tentem melhorar os filmes futuros, vale lembrar.

Resta torcer que o filme, ao menos, consiga amealhar uma boa bilheteria que justifique a produção de um segundo exemplar, que possa redimir todos os erros deste. Mas a Mulher-Maravilha e seus fãs mereciam mais.

Cotação:

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MauMaurício Muniz é jornalista, tradutor e editor de livros, revistas e HQs. Torce muito pelos filmes da DC, mas já está perdendo a esperança e a paciência com o que andam fazendo com Batman, Superman e companhia nas telas…

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10 comentários sobre “Crítica: MULHER-MARAVILHA (se vamos fazer vista grossa pros defeitos do filme, esse universo DC no cinema nunca vai prestar)

  1. Curioso para ver esse filme. Claro que vai ter um monte de erros, mas eu vou pra levar minha filha de 9 anos e mostrar pra ela que nem só de Viúva Negra e Jean Grey vive o cinema de heróis atualmente… e claro que ela vai amar as cenas de luta, os alívios cômicos e o visual da Gal Gadot. E eu vou ficar divagando em outras soluções para os problemas recorrentes do filme. Espero que, assim como os faroestes, uma hora os filmes de heróis percam a coroa que ostentam desde Batman Begins e Homem de Ferro. E apenas uns poucos (e em sua maioria medianos) filmes vão fazer a alegria da nerdaiada, assim como foi no início dos anos 90 com Justiceiro do Dolph Lundgren, Batman – O Retorno, Robocop II… em terra de cego, quem tem um olho é rei. Mesmo que seja um rei capenga.

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  2. Concordo plenamente com muita coisa que foi dita aqui.
    Ser crítico demais com filmes da DC não é nenhum pecado. Ela tem as maiores marcas do planeta e possui os direitos de todos os seus personagens. É como ver um jogo do Real Madrid e esperar que o Cristiano Ronaldo marque um gol: não é nada mais que obrigação.

    O filme veio como um sinal de esperança para salvar o universo tanto pelo fato da MM ser a melhor coisa do filme “Batman vs. Superman” (algo que eu discordo) quanto pelo fato do Geoff Johns assumir a coordenação. Sem contar o fato da diretora ser uma mulher, o que poderia aumentar a representatividade, pauta que é tão discutida ultimamente.

    Teve o lado bom: agora os fãs da DC podem usar o Rotten Tomatoes como argumento (duvido que peçam para fechar o site agora…), teve cor, teve humor (embora ele beire à misandria algumas vezes…), teve romance e tentaram consertar o furo de roteiro de BvS com o lance da foto. OK.

    Mas além do que foi dito aqui no artigo, teve uma Gal Gadot magrela (tinha amazonas lá que eram muito mais parrudas!) cuja voz fica esganiçada lembrando a da Jennifer Lawrence em “Jogos Vorazes” e algumas coisas que precisam de explicações como:
    1 – Se a espada dela foi destruída, que espada era aquela que ela usou contra o Apocalypse em BvS? E caso não seja a mesma espada, como ela arrumou uma arma capaz de cortar o Apocalypse?
    2 – Se ela sangrava (e cicatrizava rapidamente), como terminou a batalha sem nenhum arranhão?
    3 – Como ela lutou na Primeira Guerra sem ninguém ouvir falar dela?
    4 – Se a Primeira Guerra foi causada por Ares… quem causou a Segunda?
    5 – Em BvS, ela diz “eu já matei criaturas de outros mundos”. Mas se você levar em consideração que a mitologia grega deixava os deuses em um lugar mais próximo dos humanos (diferente da nórdica, com seus mundos) no Olimpo, vê que a frase não se aplica a Ares.

    Por último, fico imaginando o que a fez “saltar” no final do filme. Será que Diana vai se dedicar a combater terroristas ou criminosos comuns na França?

    Só o tempo dirá.

    Parabéns pelo artigo!

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  3. “E como DCnauta de carteirinha que sou, é mais triste ainda notar que os filmes da DC continuam patinando e não chegam nem perto do nível de diversão e entretenimento das produções da Marvel”

    Que Marvel, eu quero justamente o oposto da MARVEL, deixa ela com seu formato pastelão, eu quero profundidade nos filmes DC.

    E dizer que Mulher Maravilha não divertiu, é uma mentira deslavada

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    • Cara não adianta primeiro porquê tu tá falando para a parede já que os caras desse Site não interagem com os seus leitoris e comentaristas eles deixam as moscas isso aqui como esperam que esse Site cressa se nem se quer falam com os seus leitores. E além disso esses caras são muito tendenciosos para elogiar todos os filmes da Marvel não perca o seu tempo tentando dialogar já que eles nem leem os comentários.

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  4. É incrível como esses caras desse Site passam um pente fino nos filmes da DC para apontar qualquer erro e criticar o filme negativamente enquanto nos filmes da Marvel eles ignoram qualquer defeito obvio.

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  5. A Marvel, em mais de dez anos de universo cinematográfico ainda não fizeram um filme com uma heroína, e quando fizerem vai ter que ser com a insuportável Capitã Marvel.

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  6. O final não me incomodou tanto. Nesse ponto, o pensamento da fase de Perez até ajudaram, já que ali, a Mulher Maravilha, depois de notar que não é páreo para ele, CONVENCE Ares a parar com aquela folia toda, na conversa mesmo. Mas mesmo isso é melhor que aquele final de Dr. Estranho.

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