Crítica: A MÚMIA (2017)

Múmia

A estreia do Dark Universe é uma aventura com algumas falhas, mas muito divertida que remete aos pulps e aos quadrinhos

Por Maurício Muniz

Antes de falar da nova aventura de Tom Cruise, que tal um pouco de contexto?frankenstein_1931_o

A Múmia (The Mummy, 2017) não é a primeira tentativa da Universal em criar uma franquia de sucesso baseada nos seus filmes de monstros que atraíram legiões aos cinemas entre as décadas de 1930 e 1950. Foram várias produções estreladas por Drácula, Frankenstein, Lobisomem, o Monstro da Lagoa Negra e a Múmia e outros. Quando os filmes individuais começaram a parar de atrair o público, a Universal passou a misturar os monstros e Drácula enfrentou Frankenstein, que brigou com o Lobisomem e assim por diante. E, nos estertores da fórmula, a Universal ainda conseguiu ganhar uma fortuna colocando os comediantes Abbott e Costello para correr dos monstros.

Abbott_and_Costello_Meet_Frankenstein_0002-1461420453-726x388

the_mummy_800Após décadas dos monstros no ostracismo, a Universal os trouxe de volta às telas em 1999 com A Múmia, estrelada por Brandon Fraser, que seguia um tanto da fórmula de Indiana Jones e foi um grande sucesso de bilheteria, rendendo duas continuações e até desdobramentos como O Escorpião Rei. Mas as coisas pararam de dar certo depois disso. Van Helsing, estrelado por Hugh Jackman em 2004, tentou começar uma nova franquia sobre o caçador de monstrengos, mas era ruim de doer, não rendeu o esperado e ficou por aí mesmo. O Lobisomem, de 2010 e estrelado por Benicio del Toro, não recuperou seu alto investimento. E Drácula: A História Nunca Contada, de 2014, até não arrecadou mal mas, sinceramente, sua história poderia continuar não contada, pois não faria falta. Segundo boatos, essa reinvenção do Conde Vampiro deveria ter dado início a uma série de filmes de monstros passados num mesmo universo mas, como não se saiu tão bem, os planos foram deixados de lado.

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Mas agora a Universal resolveu deixar claras suas intenções logo de cara: o novo A Múmia é o primeiro filme de um selo chamado Dark Universe (“Universo Sombrio”) que visa criar um mundo compartilhado por novas versões de seus monstros, que terão filmes separados a princípio e depois se unirão em um ou mais filmes. A inspiração, claro, são os filmes da Marvel que trouxeram ao cinema um conceito pra lá de conhecido pros fãs de quadrinhos, mas que pegou Hollywood de surpresa graças à enorme aceitação que teve. Agora todo estúdio quer um universo compartilhado pra chamar de seu: a Warner com os heróis da DC e com os monstros gigantes; a Sony com as poucas propriedades que ainda têm da Marvel; e a Paramount que parecer estar pensando em unir Transformers e G.I. Joe nas telas (quem não tem cão, caça com gato).

Tá, mas e o filme novo?Film Title: The Mummy

As boas notícias são que o pontapé inicial não faz feio e cria um monte de possibilidades interessantes para o Dark Universe. A história resgata a estrutura das outras “múmias” do estúdio, começando com flashbacks que estabelecem a premissa: aqui, no Egito antigo, a princesa Ahmanet (Sofia Boutella), ao descobrir que não será mais a herdeira do reino quando o pai morrer, decide tomar o poder por meio de alguns assassinatos e ao se aliar a um poderoso deus maligno, que ela pretende incorporar em seu amante humano através de um ritual. Mas ela é impedida a tempo e acaba mumificada e enterrada, de forma que sua maldade nunca mais se abata sobre o mundo.

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Seria um filme bem curto se, nos dias atuais, o soldado Nick Morton (Cruise), um caçador de tesouros simpático, mas inescrupuloso, não se envolvesse em um ataque no Iraque que acaba por revelar a tumba milenar de Ahmanet. Quando adentra o túmulo ao lado da arqueóloga Jenny Halsey (Anabelle Wallis, do recente Rei Arthur: A Lenda da Espada) e do amigo irritante Chris Vail (Jake Johnson, do seriado New Girl), Morton acaba por libertar Ahmanet, que logo cai de amores pelo aventureiro (é o Tom Cruise, afinal de contas!) e decide que usará o bonitão para dar forma ao maligno deus da antiguidade que tentou trazer à Terra antes e não conseguiu. Quando o sarcófago da princesa é tirado do Iraque por avião, a aeronave é atacada por centenas de corvos e cai em Londres. Morton sobrevive milagrosamente à queda do avião e descobre-se agora imortal, porque foi amaldiçoado pela soberana que, a bem da verdade, só quer seu corpinho.

The MummyComo o filme não se chamaria A Múmia se Ahmanet ficasse o tempo todo em seu sarcófago, ela logo acorda (pô, quem não quer visitar Londres?) e passa a sugar as energias de incautos pra se restabelecer fisicamente – outra vantagem é que essas vítimas se tornam escravos zumbis da princesa e a ajudam em sua missão. Para fugir da obcecada múmia, Morton e Jenny contarão com a ajuda (surpresa, surpresa… a não ser que você já tenha lido tudo por aí, então não é surpresa) do Dr. Henry Jekyll (Russell Crowe), líder de uma organização dedicada a estudar e combater monstros, chamada Prodigium – Jekyll, que aliás tem a propensão a ser dominado pela pouco simpática presença de seu alterego Edward Hyde, aparentemente será o elo entre os filmes do Dark Universe.the-mummy-2017-sofia-boutella

A crítica internacional tem execrado o filme em grande parte e a verdade é que até há motivos para isso. O roteiro é às vezes confuso e não explica muito bem elementos importantes da trama (pra que serve a imortalidade de Morton exatamente? Só pra ele escapar do acidente de avião, porque depois não parece ter mais serventia alguma e ele até corre o risco de morrer constantemente. Além do mais, que Ahmanet possa transformar em zumbis a seu serviço aqueles de quem sugou energia, tudo bem, mas porque de repente ela parece poder comandar qualquer morto?). O ritmo é tão frenético que até se torna um pouco cansativo em um momento ou outro (o filme nem parece ter um segundo ato, praticamente parte da premissa pros “finalmentes”) e há problemas de edição. Culpa, provavelmente, da pouca experiência em direção de Alex Kurtzman, mais conhecido como produtor e roteirista dos novos Star Trek, Cowboys e Aliens e Transformers, que estreia aqui no comando de uma grande produção, e do roteiro de Dylan Kussman (que tem mais trabalhos como ator), Christopher McQuarrie (colaborador de Cruise em séries como Missão Impossível e Jack Reacher) e David Koepp (de um monte de coisas, de Homem-Aranha a Jurassic Park a Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal).

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Mas é verdade também que o filme é muito divertido. É uma grande aventura de tons sombrios (afinal, “Dark Universe”, sabe?) que parece uma mistura de Missão Impossível com Indiana Jones. As sequências de ação são sempre interessantes, bem realizadas e até empolgam. O conceito da Prodigium é interessante e é bacana caçar referências a filmes antigos da Universal em seu cenário. O elenco é charmoso e simpático, com Cruise carregando quase tudo nas costas com seu carisma inegável. Há algumas boas piadas, mesmo se nem todas funcionam – e tudo bem, não é mesmo pra ter tantas piadas nesse tipo de filme. É uma história na tradição dos pulps, dos próprios filmes da Universal e dos quadrinhos de ação e terror e, como tal, funciona muito bem. Se você não se preocupar muito com os furos de roteiro the-mummy-trailer-two-01-320x180e a falta de lógica de muita coisa, é uma diversão bastante satisfatória. É pena que levaremos mais dois anos até vermos os outros exemplares do selo, com produções que já estão em andamento como O Homem Invisível com Johnny Depp e A Noiva de Frankenstein, com Javier Bardem. Claro, para que o Dark Universe continue e gere frutos vai depender de A Múmia fazer o sucesso esperado pela Universal, sendo que a previsão é que a maior parte da arrecadação venha do mercado internacional e não dos Estados Unidos.

Sinceramente, seria uma pena se o projeto todo parasse por aqui. Por isso, deem uma chance ao filme. É bem capaz que você ache esse gibizão melhor do que esperava.

Cotação:

4-pasteis

MauMaurício Muniz é jornalista, tradutor e editor de livros, revistas e HQs. Adora filmes de terror, pulp fiction e obras de cultura pop que saiam do convencional. Às vezes, seus amigos o chamam de “Múmia”, vai ver é por isso que ele gostou tanto do filme…

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