Enquanto isso… o Oscar esqueceu de Adam West. Mas nós, não!

Prestamos nossa homenagem ao eterno Batman

Por Fábio Ochôa

A cerimônia do Oscar, em 04 de março, teve seu tradicional clipe sobre os falecidos do ano. Porém, se lembraram de figurinistas e maquiadoras (nada contra nenhum profissional, o trabalho de todos é importante), esqueceram completamente de Adam West, que estrelou o icônico seriado de Batman, iniciado em 1966.  Mas aqui relembramos o ator e prestamos nossa homenagem.

Feira Divertida

Cesar Romero, com seu bigode da sorte e maquiagem ridícula branca por cima, atende o telefone antes de revelar, com voz esganiçada de Coringa, qual o seu plano da semana:

– Eu vou comer a Tia do Bátema. Huh. Huh, huh….

E, mais uma vez, a série anos 1960 entra para o imaginário de toda uma geração. Dessa vez junto com a pobre Tia Harriet desfrutando aqui, em pleno novo milênio, de uma inesperada fama.

Não existe quem tenha entrado na Internet e ainda não tenha visto Batman – Feira da Fruta, a redublagem moleque do décimo-quinto episódio do primeiro ano da série, gravada por garotos em 1982 e redescoberta em 2003. De qualquer maneira, ela é uma involuntária prova da perenidade da série, geração após geração. Até hoje, o seriado estrelado por Adam West divide os fãs: tem quem abrace o seu tom festivo e esculhambado, tem quem renegue completamente sua visão leve. Afinal, onde já se viu não tratar com seriedade mortal um assunto tão sério quanto o de milionários entediados que se vestem de mamíferos voadores para acabar com o crime?

Curiosamente, eu tinha me proposto a assistir aos 120 episódios dela para essa coluna, tentando entender o que ela realmente significou na sua época, seu legado e talvez suas qualidades ocultas, que não aparecem em uma primeira análise.

Adam West morreu no meio dessa maratona, em 09 de junho de 2017, naquelas coincidências que a vida proporciona.

Santa maluquice

Chuck Dixon, que fez bons trabalhos com o homem-morcego – infelizmente nenhum envolvendo a tia do Bátema – deu uma das definições mais certeiras sobre a serelepe série sessentista. Segundo ele, quando crianças a amamos porque é o Batman em ação com roupas coloridas, vilões psicodélicos, correria desenfreada etc. Quando adolescentes, renegamos, o que queremos é ver é o Batman sério como um manifesto. E, quando adultos, finalmente pegamos o humor proposital da coisa toda e aprendemos a gostar da série pelo que ela realmente é.

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Batman é uma série cristalizou para o grande público o que quadrinhos de super-heróis eram. Uma visão cujos resquícios lidamos até hoje. Mas o fato é que, no fim das contas, é difícil ser tão perene quanto Adam West.

É interessante pensar que a série ocorreu quase por acidente. Fizeram uma pesquisa querendo saber quais os três personagens mais populares da América.

O primeiro colocado, Superman, já estava negociado para um desastre anunciado, o musical It’s a Bird; o segundo – vejam só – Dick Tracy, também já estava negociado. Sobrou para o terceiro colocado, o nosso homem-morcego.

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Assim sendo, o produtor William Dozer resolveu ir até as fontes e leu os gibis. Ah, se osBatman 05 executivos de hoje também fizessem isso… Percebeu que era impossível levar aquilo a sério e viu que o único modo de fazer funcionar era transformar em comédia. Deu no que deu, um dos maiores fenômenos culturais dos anos 1960, uma década por si só especialmente pródiga em fenômenos culturais.

A nova abordagem proposta por Dozer rendeu algumas baixas, Eric Ambler, renomado escritor britânico de thrillers de espionagem, que trouxe todo um novo realismo ao gênero (um tanto esquecido hoje, mas um nome de peso à época), ia escrever o piloto, mas desistiu no ato após saber qual seria o tom da série. Não queria ser associado àquilo.

Não deixa de ser curioso imaginar o que poderia ter saído daí.

Para o West, meu jovem

Batman 04 - The Kini Popo Show Whorever

A atitude de Ambler foi diferente daquela de Adam West, ator mais conhecido, ou melhor, desconhecido por estrelar produções B como Robinson Crusoé em Marte (uma versão sci-fi do clássico de Daniel Defoe), o programa infantil The Kini Popo Show in Hawaii (você tem ideia da dignidade do seu trabalho quando seu coadjuvante de cena é um macaco) e uma série de comerciais para a Nestlé onde interpretava um agente secreto à lá James Bond chamado Capitão Q, motivo pelo qual Dozer enviou a West a proposta para estrelar o seriado. Com esse, digamos, rico histórico, West se interessou imediatamente Ele sabia que queria o papel ao ler no roteiro original a cena onde Batman entrava em um bar tentando não chamar a atenção. Ele achou engraçadíssimo o fato de um homem vestido de morcego tentar entrar em um bar sem ser notado.

Topou na hora.

E convenhamos, quando você nasce em uma cidade chamada Walla Walla e foi casado com uma mulher chamada Ngatokoruaimatauaia Frisbie Dawson e seu trabalho consiste em cantar Mala Mala Mala no ukelelê, acompanhado de um macaco chamado Peaches e um boneco de polvo tipo Louro José, ter senso de humor não é uma opção, é um mecanismo de sobrevivência.

Verdade seja dita, o Batman de Dozier é uma das transposições mais fiéis que os quadrinhos já viram. Os quadrinhos da época, que fique bem claro.

E o lance genial é que ela pega simplesmente todos os públicos.

Para o adulto tem o humor evidente, a sátira, o absurdo, tendo o cuidado de não colocar as risadas gravadas para as crianças não pegarem a piada, e também apela para a nostalgia dos seriados de cinema que eles viam na infância.

Para as crianças, tem a ação e Batman em uma encarnação bastante fiel a dos gibis. E, para os adolescentes, todo o clima psicodélico e hippie, com as cocotas (gíria velha ponto.com) dançando e um clima de subversão leve, onde todas as figuras de autoridade, como os policiais, são completamente patetas e ineficientes, com o Comissário Gordon chamando Batman por qualquer coisa, ou caretões comicamente simpáticos como o próprio Batman que toma leite em bar, interrompe perseguições porque o sinal está vermelho e sempre está pronto para dar dicas de segurança para crianças e pedestres.

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Esgotamento da Fórmula

Genial, se você parar para pensar bem, mesmo sendo uma fórmula bastante fácil de se esgotar em pouco tempo. Essa lógica até então inédita, de jogar para diversas audiências diferentes, fez escola. Como por exemplo nos filmes recentes da Marvel que acenam para os adultos com seu senso de humor e para crianças coma a ação desenfreada.

Como era inevitável, em três anos a fórmula cansou, mesmo avançando por um caminho progressivamente surrealista. Após a série, a carreira de West entrou em declínio, de tão marcado que ficou pelo personagem. Segue meio o clichê da via-crúcis Hollywoodiana. No auge da fama, chegou a se encontrar com o Papa Paulo VI (não trajado de Batman, que fique bem claro), visitou a Capela Sistina acompanhado de Sophia Loren e chegava a transar com oito mulheres por dia (por algum motivo qualquer, a cada três notícias sobre sua morte, duas comentaram isso). Com a TV guinando progressivamente para o realismo nos anos 70, acompanhando o cinema, não havia espaço para um ator tão marcado pelos Pow! Splash! Zing!

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Quase foi James Bond em 007 – A Serviço de Sua Majestade, mas perdeu o papel para George Lazenby, que não teve sorte muito melhor que ele. O mais perto que chegou dos holofotes depois disso foi ser cogitado para viver Thomas Wayne no Batman de Tim Burton.

Batman 01West seguiu os mesmos passos de Stan Lee, de conquistar seu público, brigar para ser levado a sério e renegar o que fez. Terminou por aceitar seu legado. Aliás, um belo legado. Emprestando a voz para Batman e coadjuvantes em diversas animações e virando figurinha carimbada nas convenções.

– A vida é cheia de ironia e absurdo – disse ele, por isso sua dificuldade de levá-la a sério.

Foi um homem que trouxe alegria via caixa luminosa para pelo menos quatro gerações de espectadores. Não é pouca coisa. Em um mundo como o nosso, poucos legados são melhores que esse.

Talvez não seja o Batman definitivo. Mas, decididamente, é o que vai ser lembrado com mais carinho.

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Fábio Ochôa trabalha como redator publicitário. Conquistou prêmios, foi citado na TV, foi diretor de criação, já saiu na Zupi, fez campanhas políticas e, mesmo assim, ainda consegue gostar das pessoas e achar este mundolegal. rabalha também como ilustrador freelance e roteirista eventual. Para saber mais acesse:  www.behance.net/fabioochoa

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3 comentários sobre “Enquanto isso… o Oscar esqueceu de Adam West. Mas nós, não!

  1. Que texto lindo e informativo, Fabio, valeu mesmo! Nem assisto mais ao Oscar (adaptei meu relógio biológico ao da esposa e da filha e levanto antes das 6AM, então sem chance de perder tempo pra ver discursinho inútil, piadinha pra americanos e comentários de vestidos), mas fiquei chateado em saber que nem lembraram do mestre Adam West. Confesso que também reneguei o seriado na minha fase Cavaleiro das Trevas e Piada Mortal são as melhores HQs do mundo” no finalzinho dos anos 80, mas depois de redescobrirem o seriado com Feira da Fruta, passei a entendê-lo e valorizá-lo. West e Ward eram rockstars, viviam em festas, pegavam todo mundo e se divertiam fazendo um seriado que parece um videoclipe para a criançada. E funcionou! Tanto que comprei as edições da HQ Batman ’66 para relembrar os bons tempos, e pretendo assistir à animação com essa estética. Batman sem Bat-repelente-de-Tubarão não existe! Abraços e parabéns mais uma vez!

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