STAR TREK: DISCOVERY e o Mistério da Seção 31

Desvendamos o passado e as origens da organização secreta que é destaque no novo seriado de Star Trek

Por Ben Santana

Como qualquer fã de Star Trek sabe, as características da Frota Estelar sempre foram a manutenção da paz, a busca do conhecimento e “descobrir novas vidas e civilizações, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve”.

Em resumo, os membros da Frota Estelar – e, é claro, da Federação – são os caras bonzinhos. Isso é mostrado ao espectador desde 1966, quando a galante tripulação do Capitão James T. Kirk singrou pela primeira vez as ondas da televisão americana.

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Claro, para funções dramáticas, alguns integrantes não tão nobres da Frota e da Federação apareciam eventualmente nas séries de Star Trek. Garth de Izar, um capitão estelar que se transformou em um carniceiro quase genocida, e o Comodoro Matt Decker, que perdeu a própria nave – e a sua sanidade – para uma máquina do juízo final, são exceções que confirmam a regra, personagens criados para deixar a história mais interessante.

Foi assim durante toda a série clássica e A Nova Geração. As exceções davam o ar de sua graça apenas para estabelecer o contraste com aqueles quase cavaleiros em armadura reluzente. E, no final do episódio, não importava que esses poucos fossem loucos ou corruptos, já que o status quo voltava ao normal e os “ideais” de Gene Roddenberry eram reforçados naquele conto moral da semana.

Tudo começou em uma estação espacial

Isso tudo iria mudar no finalzinho do século XX, em um episódio da sexta temporada de Deep Space Nine, a terceira série de Star Trek (se não contarmos, obviamente, a série animada do começo dos anos 1970). Deep Space Nine sempre foi a série mais sombria de Star Trek, então nada mais lógico que um obscuro grupo tenha sido apresentado por ali. O episódio, “Inquisition”, mostra que a Federação e a Frota Estelar não eram totalmente puras. Uma organização que operava nas sombras, sancionada pela Federação, existia desde sua criação: a Seção 31, aparentemente conhecida por algumas pessoas e negada por todos.

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Sim, as semelhanças entre a Seção 31 e outra organização da ficção científica, o Bureau 13 (de Babylon 5), são muitas. Aliás, Deep Space Nine “deve” muito a Babylon 5. Mas essa é uma história para outro dia.

Mas o que é a Seção 31? Como dizem, é fácil ser um santo no paraíso. E por que a Terra é tal paraíso no século 24? Talvez porque há alguém cuidando disso, fazendo o trabalho sujo que ninguém quer fazer… nem pensar a respeito.

O nome foi tirado do estatuto da Federação, no artigo 14, seção 31. Ali, segundo os próprios agentes da Seção 31, é estabelecido que são permitidas medidas extraordinárias em tempos de ameaças extremas. Isso inclui sabotagens em instalações inimigas, para destruir ou roubar tecnologia; guerra biológica; e até mesmo assassinatos. E, é claro, influenciar a política de outros planetas. Black Ops (operativos secretos, em missões secretas) que fazem o que julgam necessário para que a paz e a prosperidade dentro da Federação não sejam ameaçadas.

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Em “Inquisition”, o doutor Julian Bashir é convidado, por um desses agentes da Seção 31, a se unir à organização. Mas antes, para efeitos de “testar” a sua lealdade, ele é preso e interrogado. Desde o início percebemos que a Seção 31 não se acanha em fazer uso de todo e qualquer método disponível, independente de ética, sem pudores ou moralismo. E que, quando confrontada, a Frota Estelar nem nega, nem confirma a sua existência. Bashir recusa o convite, mas é convencido pelo Capitão Sisko, o responsável pela Estação Deep Space 9, a aceitá-lo, na próxima vez que tentarem recrutar o doutor. O objetivo de Sisko, claro, é, assim poder descobrir mais sobre a organização.

Como não poderia deixar de ser, vários fãs acharam que a ideia da Seção 31 feria os valores criados por Gene Roddenberry. Mas a maioria achou interessante observar como seria a existência de um lado mais sombrio do paraíso preconizado por Star Trek.

A Seção 31 voltaria a aparecer em “Inter Arma Enim Silent Leges”, da sétima temporada de Deep Space Nine. O nome do episódio é uma citação do filósofo e político romano Cícero, que pode ser traduzido como “em tempos de guerra, a lei se torna silenciosa”. No episódio vemos uma conspiração para um assassinato no Império Romulano, e a força e alcance da Seção 31. Percebemos que ela tem agentes bem colocados em todos os níveis, civis e militares, da Federação.

A terceira aparição da Seção 31 em Deep Space Nine se deu em “Extreme Measures”, já no finalzinho da série e ela se mostrou instrumental para a resolução da guerra contra os Dominions. Seria, teoricamente, o final da organização, mas o conceito era bom demais para ser abandonado.

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A tripulação da primeira Enterprise, comandada por Jonathan Archer, teve contato com a Seção 31 ainda no século 22. No episódio “Divergence”, da quarta temporada de Star Trek: Enterprise, o espectador descobre que Malcolm Reed, o chefe de segurança da nave, foi recrutado ainda jovem pela organização. Ele já não fazia parte da Seção 31 quando foi designado como tripulante da Enterprise NX-01, mas manteve contato com um dos seus agentes durante uma crise. Como percebemos, certos laços não podem ser quebrados.

Também na quarta – e melhor – temporada de Enterprise vemos um grupo xenófobo chamado Terra Prime, no episódio de mesmo nome. Esse grupo achava que a Terra era apenas para os humanos e tiveram os seus planos eugenistas frustrados por uma informação fornecida pela Seção 31. Por um preço, segundo um dos seus agentes, que seria cobrado posteriormente.

Infelizmente, não houve “posteriormente” para Enterprise, que foi cancelada logo em seguida, e pareceu que a Seção 31 ficaria dormente.

Apócrifos? Quem liga?

O conceito da Seção 31, no entanto, já atingira o estágio de ser instigante demais para ser esquecido. E não demoraria para que esse conceito chegasse aos produtos do que se convencionou chamar de “universo expandido de Star Trek”, a saber, os livros da Pocket Books – a editora que publica os títulos da série.

Marco Palmieri, o editor desse universo, vinha querendo publicar histórias envolvendo a Seção 31 desde sua estreia em Deep Space. E, entre 2001 e 2017, os livros com essa organização começaram a aparecer nas livrarias.

De início, foi lançada uma série – apesar de cada livro funcionar muito bem sozinho –, chamada, claro, de Section 31, que mostra os efeitos da Seção 31 em quatro das tripulações de Star Trek.

Em Cloak, de S. D. Perry, vamos encontrar o capitão Kirk, alguns meses depois de ter roubado a tecnologia de camuflagem do Império Romulano (no episódio “The Enterprise Incident”), que permitia que as naves desses inimigos da Federação ficassem invisíveis.

Kirk percebe que o que fizera em nome da paz estava na verdade sendo usado para fins sinistros e descobre existência da Seção 31, que, aparentemente, não responde a ninguém e não tem problema algum em matar para manter os seus segredos.

Rogue, o livro dedicado à Nova Geração, mostra a tripulação da Enterprise-E, seis meses antes da batalha contra os Borgs mostrada no filme Primeiro Contato, enfrentando uma série de conspirações em um mundo em crise. Velhos amigos se tornam inimigos graças à – é claro – Seção 31. Escrito por Andy Mangels e Michael A. Martin, o livro faz uma pergunta interessante: O que é mais importante? O melhor para a Federação, não importando o preço, ou os ideais que ela representa? Poderiam essas duas coisas ser excludentes?

Em Shadow, de Dean Wesley Smith e Kristine Kathryn Rusch, vemos que há alguém a bordo da Voyager tentando matar Sete de Nove, que conseguiu escapar do controle dos Borgs e agora faz parte da tripulação da nave. Para a Seção 31, sua existência seria um perigo potencial para a Federação. O livro mostra que os tentáculos da Seção 31 estão em todos os lugares.

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Abyss, de David Weddle e Jeffrey Lang, mostra o doutor Bashir, de Deep Space Nine, em missão para impedir um homem que quer transformar a galáxia, remoldando geneticamente os seus habitantes, da mesma forma que Khan Noonian Singh tentou nas infames Guerras Eugênicas.

A série de livros foi a mais vendida de todos os romances de Star Trek no ano de 2001. O editor Palmieri disse que o sucesso se deu graças à vontade dos leitores de ver algo diferente, a introdução – ainda que retroativamente – do “mal necessário”.

Mais recentemente, em 2014 e 2017, dois novos livros, Disavowed e Control, foram acrescentados à série. Escritos por David Mack, eles mostram a cruzada de Julian Bashir, fora da estação Deep Space Nine, para destruir a organização, mesmo que tenha que pagar um preço alto demais.

A Seção 31 apareceu também nos livros de Enterprise, que, de certa forma, continuaram a série depois de seu cancelamento. Neles vemos a presença constante da Seção 31, inclusive quando um dos personagens principais entra para a organização.

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Alguns quadrinhos da IDW também tiveram a participação da Seção 31, como Star Trek Year Four: The Enterprise Experiment (2008), uma continuação direta de “The Enterprise Incident”. Escrito por D.C. Fontana, autora de alguns dos melhores episódios da série clássica – inclusive aquele em que o quadrinho se baseou –, mostra as experiências com o sistema de camuflagem roubado por Kirk dos romulanos. E, é claro, as maquinações da Seção 31.

E Star Trek: Mission’s End (2009), de Ty Templeton e Stephen Molnar, traz um agente da organização a bordo da Enterprise.

Futuro do pretérito

Na temporada recente de Star Trek: Discovery, vemos a presença constante da Seção 31. O delta negro que a representa (emblema apresentado pela primeira vez aqui, em Discovery) está, inclusive, nos créditos de abertura da série.

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Aparentemente, os membros da Seção 31 não tiveram problemas em, por exemplo, acrescentar a seus quadros uma tirana extradimensional – a Imperadora Philippa Georgiou. Os fins, para a Seção 31, justificam os meios. Não é à toa que o canal CBS declarou, no início de 2019, que já trabalha para viabilizar uma série exclusiva da Seção 31.

Tudo isso irá mudar a percepção do fã sobre o otimismo de Gene Roddenberry? Dificilmente. Apenas acrescenta mais uma camada à já rica tapeçaria que é Star Trek. E isso é sempre muito bem-vindo.

BenBen Santana nasceu no final da Era de Prata, mas cresceu na Era de Bronze. Professor, tradutor e desocupado, vem lendo e pesquisando quadrinhos, cinema e literatura desde sempre. É trekker e não confirma se já fez parte da Seção 31. Visite seu blog em http://prataebronzecomics.blogspot.com.br

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