Crítica: PANTERA NEGRA

 

Com uma mistura de O Rei Leão e James Bond, o novo filme da Marvel demonstra que um filme de super-heróis pode ir muito além do lugar comum

Por Maurício Muniz

Chega às telas nesta semana a produção Pantera Negra (Black Panther, 2018), mais uma aventura do universo compartilhado da Marvel no cinema, desta vez (e mais uma vez) estrelada por um personagem que a grande maioria não conhece.

Dos quadrinhos…7851-2045-8666-1-fantastic-four

O Pantera Negra foi criado em 1966 pela icônica dupla Jack Kirby e Stan Lee como um personagem coadjuvante na revista do Quarteto Fantástico. Vestido de preto e dono de grandes habilidades físicas e mentais, o personagem era revelado como T’Challa, soberano da nação africana de Wakanda, que domina as reservas mundiais do metal vibranium, o mais resistente do mundo. O Pantera participou de várias aventuras ao lado de outros heróis da Marvel, teve algumas séries próprias ao longo das décadas e tem a honra de ser o primeiro super-herói negro dos quadrinhos mainstream americanos. Apesar de tudo isso, é inegável que o Pantera Negra é só mais um personagem do segundo ou terceiro escalão da Marvel.

Na falta de alguns medalhões da editora como o Quarteto Fantástico e os X-Men – cujos direitos cinematográficos pertencem à Fox –, a Disney já vinha realizando filmes com personagens secundários e terciários da Marvel. Doutor Estranho e Homem-Formiga foram bons produtos, mas nada especiais, enquanto os dois Guardiões da Galáxia se mostraram superiores até a alguns filmes dos heróis mais tradicionais da editora. Seguindo essa estratégia de usar personagens menores, a Disney colocou uma aventura do Pantera em produção antes mesmo da estreia do herói nas telas em Capitão América: Guerra Civil, de 2016. O filme foi um dos grandes sucessos do universo Marvel nas telas, com mais de US$ 1.2 bilhão arrecadado nas bilheterias e inúmeros elogios e tornou o Pantera conhecido do grande público cinematográfico.

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…para as telas

O terceiro filme do Capitão América se mostra um bom prólogo para a aventura-solo do Pantera Negra. É ali que o rei T’Chaka (John Kani), de Wakanda, é morto durante um atentado, o que leva seu filho, T’Challa (Chadwick Boseman), a vestir a tradicional roupa do protetor de seu povo para perseguir o assassino.

Quando o novo filme começa, o príncipe T’Challa prepara-se para assumir o trono de Wakanda como o sucessor de direito de seu pai. O novo soberano é amado por seus súditos e tem o apoio total de sua mãe, Ramonda (Angela Bassett); de Zuri (Forest Whitaker), um membro do governo e amigo da família;  e da irmã Shuri (Letitia Wright), um gênio científico que cria as mais incríveis armas e apetrechos para o irmão. O que o mundo não sabe sobre Wakanda é que, graças à presença do vibranium, a pequena nação africana é dona da tecnologia mais avançada do mundo, mantida em segredo para não atrair interesses inescrupulosos e perpetuar a paz interna.

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Mas isso não quer dizer que Wakanda não tenho inimigos perigosos. Um deles é Ulysses Klaue (Andy Serkis), que perdeu um braço em Vingadores: A Era de Ultron, de 2015. No passado, o criminoso já invadiu Wakanda para roubar vibranium e, no processo, matou os pais de W’Kabi (Daniel Kaluuya, de Corra!), um grande amigo e confidente de T’Challa. Quando o paradeiro de Klaue é descoberto na Coreia do Sul, o recém-empossado rei resolver realizar uma arriscada missão para capturá-lo, ao lado de suas mais fiéis aliadas: Okoye (Danai Gurira), general e líder das Dora Mijaje, um grupo de guerreiras de elite; e Nakia (Lupita Nyong’o), uma espiã que voltou a Wakanda recentemente e tem um relacionamento romântico mal resolvido com T’Challa. A missão não sai exatamente como planejada, mas traz um confronto com Klaue, que agora tem um braço capaz de emitir rajadas sônicas (como sua versão nos quadrinhos, chamada de Garra Sônica), e com um de seus aliados, Erik Killmonger (Michael B. Jordan, de Creed: Nascido para Lutar), um ex-soldado violento e astuto, que não deixa nada ou ninguém atrapalhar seus planos. Entre esses planos, está ir a Wakanda para realizar um grande plano de vingança, que irá lançar a nação na guerra e no caos.

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Boas surpresas

Esses acima, em linhas bem gerais, são a trama e os personagens principais de Pantera Negra, mas não vale falar muito do que acontece e estragar as ótimas surpresas e reviravoltas que o roteiro traz. O importante é saber que o filme é um espetáculo diferente de tudo que a Marvel apresentou até agora nas telas.

Claro, as regulamentares e competentes cenas de ação ainda estão lá. Há alguns bons confrontos físicos, correrias divertidas e uma ótima perseguição de automóveis pelas ruas de Busan, na Coreia. O clímax, repleto de suspense, é um dos mais emocionantes da última leva de filmes de super-heróis. Curiosamente, o filme nem tem tantas sequências de ação assim, mas mantém o interesse do espectador o tempo todo exatamente porque a trama e os personagens são tão bons.

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T’Challa, como um rei que assumiu a direção de um país recentemente, tem que enfrentar diversas questões morais – não apenas com relação a seus súditos, mas também sobre o relacionamento de Wakanda com o resto do mundo. Dúvidas sobre lealdade também são levantadas: é mais correto seguir um líder de direito que busca a guerra, ou manter-se fiel a um líder deposto que prefere a paz? Outro dilema que os personagens enfrentam é sobre se opor a pessoas amadas quando elas estão erradas.

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Pode-se dizer que o roteiro de Joe Robert Cole e do diretor Ryan Coogler (de Creed: Nascido para Lutar) é uma mistura de O Rei Leão com os filmes de James Bond. Tematicamente, é sobre a passagem de poder em um reino africano e a luta que o herdeiro de direito precisa empreender, ao lado de alguns amigos fiéis e a mulher que ama, contra um usurpador – tudo isso em meio a paisagens fantásticas e belos pores-do-sol. Mas também tem várias semelhanças com as aventuras de 007. Num momento, o herói sai para resgatar uma espiã que está no meio de uma enrascada. Em outro, vai até uma boate em outro país evitar a venda de um artefato que interessa a sua nação e encontra um aliado/concorrente de outra agência de inteligência – no caso, o agente da CIA, Everett Ross, interpretado por Martin Freeman, que também foi apresentado em Capitão América: Guerra Civil. E é impossível não ver o paralelo entre o Pantera e James Bond na cena em que T’Challa recebe da irmã as novas engenhocas que usará em sua próxima missão. Nos filmes do espião, outro gênio, Q, é quem entrega os apetrechos ao espião.

Outra grande atração de Pantera Negra é o personagem interpretado por Michael B. Jordan. Erik Killmonger talvez seja o vilão mais realista e complexo dos filmes da Marvel até o momento. Revoltado com a exploração dos negros e das classes menos favorecidas ao redor do mundo, ele pretende promover uma violenta revolução para mudar o status quo. Suas atitudes são reprováveis, mas o personagem suscita no espectador reflexões sobre a questão do racismo e do equilíbrio social. E faz isso de maneira mais competente, por exemplo, que o supervalorizado Corra!, concorrente ao Oscar deste ano.

O filme também é de uma beleza plástica impressionante. Desde os figurinos até os cenários, tudo é feito com esmero, respeitando as tradições e motivos africanos e acrescentando os detalhes hi-tech que cabem ao universo do personagem. Mas não é só. A sala do trono de uma tribo de Wakanda que renega os rumos modernos da nação também é criada com uma estética simples e de cair o queixo, usando lanças e bambus pendurados e pouco mais. Não me espantaria se o filme recebesse indicações ao Oscar e outros prêmios por seu figurino e cenografia.

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Evolução do gênero

Não é, ainda assim, um filme perfeito. Algumas das sequências de luta são filmadas apenas em plano americano e com cortes tão rápidos que mal dá pra ver o que está acontecendo. Algumas soluções são um pouco simplistas e convenientes demais, como toda a sequência que envolve Martin Freeman no clímax (“Precisamos de um piloto! Vejam, um piloto!”). Não há muitas piadas no filme e, das que estão lá, muitas não funcionam: Coogler não parece ter boa mão para o humor. Até a participação regulamentar de Stan Lee é ruim e burocrática, mal traz um sorriso aos lábios. O relacionamento amoroso entre Okoye e W’Kabi é mal explicado e sem apelo ou razão real de ser. E as duas sequências dos créditos não precisavam existir: a primeira ficaria melhor encaixada na conclusão normal, enquanto a última é inútil e cria apenas a dúvida de onde estava aquele personagem no resto do filme.

De qualquer maneira, com Pantera Negra, a Marvel mostra mais uma vez que uma aventura de super-heróis não é só “mocinhos enfrentam bandidos”. Elas também podem trazer discussões sociais, podem apresenetar tramas que envolvem política, podem falar de união entre as raças. Pantera Negra tem tudo isso, envolto em uma aventura onde os super-heróis ainda enfrentam os vilões e os vencem. Mas, mesmo vencendo, são modificados pelo que aprenderam. Sim, tudo aquilo que quem já lê gibis há anos, sabe. Mas que os filmes do gênero parecem esquecer muitas vezes.

Pantera Negra é um dos filmes de super-heróis mais adultos e bem engendrados em muito tempo e um motivo para agradecer que a Disney ainda não tinha em mãos o Quarteto Fantástico e os X-Men quando este filme começou a ser desenvolvido, ou ele poderia ter sido deixado de lado. Vamos torcer que a compra da Fox pelo estúdio do camundongo não tire da linha de produção as boas surpresas que os filmes com personagens do segundo ou terceiro escalão têm nos dado.

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Cotação:

4 e meio

MauMaurício Muniz é jornalista, tradutor e editor de livros, revistas e HQs. Gosta de filmes de super-heróis, até mesmo desses personagens secundários da Marvel. Agora torce por um filme dos Vingadores Centrais

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