ENTRE BALÕES: O sucesso e o fracasso de MIRACLEMAN

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Ao analisarmos as baixas vendas de Miracleman, da Marvel, algumas perguntas surgem: os “clássicos” realmente vendem? E eles são para todos?

Por Ben Santana

Miracleman, de Alan Moore, foi um dos mais importantes títulos da década de 1980. Além de ser extremamente mm2referenciado em outras obras, é seguramente o momento em que Moore se tornou o Moore que conhecemos hoje. Graças a diversos problemas com seus direitos de publicação surgidos após a falência da Eclipse Comics (um imbróglio que envolve a seminal revista inglesa Warrior, o editor Dez Skinn, Todd McFarlane, Neil Gaiman e o próprio Moore), Miracleman é o melhor título que você não leu. Ou, ao menos, boa parte desta geração não leu – e, na verdade, muitos da geração anterior também não leram, já que Miracleman nunca foi publicado em sua totalidade no Brasil.

Miracleman é, na minha opinião, a melhor obra de Moore. E dependendo do dia, a minha favorita. Mas se você me perguntasse, uns anos atrás, qual obra de quadrinhos nunca seria republicada, diria sem pensar duas vezes “Miracleman”. Entretanto, ela está ai. Publicada mensalmente em fascículos pela Marvel. Sendo encadernada em capa dura. E não vendendo nada.

Como sempre, surgiram reclamações quando a Marvel começou a publicação. Primeiro, pelo preço. A revista tem mais páginas que a versão da Eclipse, por uma razão: juntamente com as histórias de marvelmancoverMoore, são republicadas histórias do criador do personagem, o britânico Mike Anglo. E essa é a segunda reclamação. Colocar histórias extremamente datadas junto às de Moore? Bom, isso tem uma razão: foi uma exigência do próprio Moore. Porque, assim, Anglo e sua família receberiam alguma coisa por seu trabalho.

Mas não é só isso… Várias pessoas acharam Miracleman de Moore datado. Mas o negócio é que várias coisas usadas lá pela primeira vez, como a temática adulta com super-heróis, tornou-se carne de vaca depois da criação do selo Vertigo pela DC. E muitos novos leitores, tendo acesso à obra pela primeira vez, tiveram a sensação que já tinham visto tudo aquilo antes. E realmente já tinham, em outras obras que saíram após Miracleman.

É como falarmos de Cidadão Kane, de Orson Welles. Quem vê aquele filme hoje, pela primeira vez, não se impressiona. Parece apenas a história de um homem que ganhou o mundo e perdeu sua alma. E de um trenó. Só que que Cidadão Kane usou pela primeira vez, em 1941, enquadramentos, narrativa e flashbacks que se tornaram extremamente comuns desde então.

“Ah, mas Miracleman é pedante!” Não, não é. Moore, é verdade,  usa uma erudição tremenda: Nietzsche e seu überman, Jung, o I Ching, Hermann Hesse,  a ficção científica britânica. Há cenas extremamente corajosas, como a representação gráfica de um parto ou a batalha mais sangrenta já vista em páginas de quadrinhos. Mas acima de tudo, Miracleman é uma história espetacular, um exercício que mostra que, se o Superman realmente existisse, ele não seria o sujeito ao qual estamos acostumados, o escoteiro que salva gatinhos de árvore. Ele seria exatamente como Mike Moran. Isso se tivéssemos sorte, porque o poder total é sempre muito tentador e pode corromper totalmente.miracle02

Entretanto, apesar de todas as suas qualidades superlativas, Miracleman está vendendo muito mal. Se fosse qualquer outro título já teria sido descontinuado. Mas o Rato gastou uma grana nisso e vai querer algo em troca. E vejam só, se Miraclaman – a republicação mais esperada do último quarto de século – vende mal, o que falar de outros “clássicos”? Venderão bem o suficiente? Possivelmente não. Não adianta pedir, pedir e pedir que a editora tal republique aquele arco de seu personagem favorito porque eles sabem que vai ser, no mínimo, arriscado.

“Ah, eles lançam WatchmenSandman e o Cavaleiro das Trevas todo ano!” Por que será? Porque vendem. Ou pelo menos vendem bem o suficiente para que sempre estejam disponíveis (certo, Watchmen é sempre republicado porque a DC tem que fazê-lo, para evitar que os direitos revertam para Moore). Algo que devemos entender é que nenhuma editora é instituição filantrópica. Não vende? É cancelado. Ou nem mesmo é republicado.

Voltando a Miracleman, tenho lido vários leitores aqui do Brasil dizendo que estão esperando um futuro encadernado da série. Mais uma vez, se não fosse Miracleman e toda a sua batalha judicial para miracle1decidir de quem eram os direitos (direitos que foram comprados por um preço bem alto pela Disney/Marvel), eu arriscaria dizer que seria difícil sair um encadernado de um material que – novamente – não vende. Lá fora, nos EUA, eles estão saindo. Mas e aqui? Sinceramente, não tenho acesso aos números de vendas no Brasil, que, ao contrário dos EUA, são guardados como se fossem segredos de estado. Mas imaginem o seguinte cenário: se a série da Panini estiver vendendo mal, então qual a garantia que a matriz italiana vai autorizar um encadernado? Se pensarmos nisso como um negócio, vamos ver que nenhum gestor cometeria o mesmo erro duas vezes.

Existem outros leitores que dizem que não existe divulgação dos clássicos. Ou de quadrinhos, de um modo geral. Divulgação? Não vai existir, nesse mercado, propagandas das Bibliotecas Históricas Marvel durante o Jornal Nacional, sinto dizer. E quer divulgação maior que o universo cinemático da Marvel? Pois é. Só que o sujeito que vai assistir ao filme dos Vingadores no cinema,  fica entusiasmado e compra um encadernado… e encontra a fase de Steve Englehart, com uma outra formação da equipe, diferente do que ele viu na telona. Nunca mais ele vai chegar nem perto de um encadernado “clássico”. E vai falar, com razão, que as histórias mais recentes tem mais a ver com os filmes, que a edição do mês de Vingadores tem muito mais paralelos com o que ele acabou de ver.

miracle01Então, não. “Divulgação” em mídias “civis” não atrairia ninguém para esses clássicos. E os que tivessem sido atraídos sairiam correndo depois de ler dez páginas.

“Ah! Mas o filme de Watchmen serviu para impulsionar a graphic novel!”. Sim. Porque Snyder usou a graphic novel quase como um storyboard para o filme. E quem assistiu e ficou curioso, comprou a edição.

(Obviamente, o filme de Snyder é um reducionismo sem tamanho da obra de Moore e Dave Gibbons. A obra é perfeita e cheia de camadas que só funciona quando você a lê e – principalmente – relê. O filme é uma versão “massavéio” da história de Moore. É como se Michael Bay filmasse Guerra e Paz… o enfoque seria apenas nas cenas de batalhas… e possivelmente ele encaixaria algum robô gigante ali.)

Ou seja, as editoras republicam o que tem certeza que vai vender. Simples assim. Entretanto,  tivemos algumas surpresas recentemente aqui no Brasil. Arriscaram algumas reimpressões que eles tem certeza que poderiam agradar algum nicho bem específico, Mas não se enganem: se não vender o suficiente, tais títulos serão descontinuados. Ninguém gosta de perder dinheiro.

Clássicos são eternos, com certeza. Mas não são para todos. E nem precisam serClaro, gostaria, de todo o coração, que todos os fãs de quadrinhos lessem Miracleman. E todo o Quarto Mundo de Jack Kirby. E as espetaculares tiras de Dick Tracy, de Chester Gould. Pogo, de Walt Kelly. Mas sei que nenhuma delas vai agradar a todo mundo. Nem podem. Aliás, elas vão agradar a bem menos pessoas que poderiam.

Ou deveriam.

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BenBen Santana nasceu no final da Era de Prata, mas cresceu na Era de Bronze. Professor, tradutor e desocupado (quando sobra tempo), vem lendo e pesquisando quadrinhos desde sempre. Seu blog é http://prataebronzecomics.blogspot.com.br

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22 comentários sobre “ENTRE BALÕES: O sucesso e o fracasso de MIRACLEMAN

  1. Ao ler esse texto tive uma visão do povo dos mangás que sempre cobra lançamentos de clássicos do gênero, mas daí caí na mesma coisa que acontece com Miracleman: será que venderia?
    Brasil é complicado pra quadrinhos…

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  2. Ben, venho acompanhando seus comentários com admiriração e reconheço a lucidez deles.
    A única situação da qual discordo é a da divulgação. A Panini tem um departamento de marketing preguiçoso. Se é que tem um. Há um nicho a ser explorado. Com Miracleman não custaria muito caro fazer dez bonecos em tamanho natural e colocar na Livraria Cultura por exemplo.

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  3. Minha irmã depois que viu o filme do watchmen não queria ler a hq, eu insisti, porque o filme fez ela achar a historia bem idiota (não posso culpar ela), acho que não o filme do watchmen não atraiu o publico civil para as hqs, mas sim o fato de nos anos 80 ele ter saido na time como uma das maiores obras da literatura mundial (sim isso aconteceu)

    Acho que sim miracleman ainda atrai a molecada, só ver a galera comprando a hq e sim o personagem poderia funcionar em um filme, como funcionou nos quadrinhos comuns o sentinela que é praticamente uma copia do miraleman

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  4. Eu li Miracleman pela primeira vez na época da net discada onde precisava pegar cada página por vez e de forma bem lenta, era uma árdua mas satisfatória tarefa para ler aquele quadrinho que eu sabia que jamais leria em sua completitude no papel… até que se passaram mais de 10 anos e agora vejo publicado pela Panini! Felilcidade pura! Mas convenhamos, muito do que eles têm lançado como extras pode muito bem ser descartado. Não digo as histórias antigas de Mick Anglo, mas sim aquela série de esboços. Se fossem pra mostrar umas 3 ou 4 páginas ainda vá lá, mas pegando por exemplo o n.7 onde eles mostraram o último capítulo todo novamente na forma de esboços, sendo que apenas algumas páginas tiveram mudanças significativas e que serviam de curiosidade. Ou seja, acrescentam coisas demais só para aumentar o preço ao invés de então colocarem uma história curta das antigas a mais na revista, o que me pareceria mais justo.

    Em tempos, como colecionador das antigas, apreciador deste excelente material e verme consumidor que quer ter do melhor no papel, vou continuar comprando avidamente apesar dos “pesares”, mas continuo achando que os novos leitores têm bons motivos para se afastarem desse material, o que só me faz lamentar e temer que haja um cancelamento precoce.

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  5. Eu não conhecia nada de Miracleman até a Panini anunciar a revista mensal como um ‘clássico das HQs mundiais’, que finalmente seria publicado regularmente no Brasil. O que me atraiu para a revista foram os nomes de Alan Moore e Alan Davis, dois profissionais que admiro há muito tempo. Gosto do trabalho de Alan Moore desde o Monstro do Pântano, não é um dos argumentistas mais fáceis de se apreciar por ser profundo demais às vezes. O material é datado por estarmos vendo em 2015 uma publicação dos anos 80, época aonde muitas mudanças importantes dos quadrinhos aconteceram, Watchmen é um dos melhores exemplos, material que só se entende bem lendo e relendo várias vezes para enxergar nas entrelinhas e acredito que Miracleman passa pela mesma situação, além de mostrar o que acontece se um homem comum descobre que é um ser superpoderoso cujos limites estão em sua imaginação, é uma das melhores séries de herói que já vi em um bom tempo. Estou acompanhando e gostando bastante até o momento, no último volume lançado agora quando Gargunza explica que sua inspiração para criar uma família de heróis veio de um gibi barato que encontrou por acaso e que era a família Marvel, foi muito viajante. E tenho que concordar com o comentário do Júlio César, o excesso de extras de esboços é descartável, tipo de coisa que é para edições deluxe, por exemplo. Se fossem suprimidos, o preço poderia até baixar e, levando em conta a atual situação, seria uma boa idéia. Com o mercado editorial complicado que temos, que venera só aquilo que realmente conhece, torço para que seja publicado até o final.

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  6. O grande problema é que as histórias antigas, do Anglo, estão afastando os leitores. Eu mesmo desisti. A revista está caríssima, uma vez que metade dela é só esboços, histórias antigas. Para quem está interessado no material do Moore, é o quadrinho mais caro de todos os tempos. Um encadernado só com as histórias do Moore venderia bem.

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  7. O que não entendo é pq a Panini tá lançando como revista mensal em vez de encadernado com capa cartonada e papel WLC, como faz com todas as obras do selo Vertigo. Seria tão mais atrativo…

    As 7 edições publicadas até agora caberiam perfeitamente num único encadernado de 20 e poucos Reais. Seria muito mais barato e despertaria mais atenção do público. Um encadernado sempre chama a atenção na banca. Acho que foi falha da Panini.

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    • A culpa não é da Panini, Guilherme. A Marvel fez exatamente isso. Lançou em fascículos primeiramente. Aliás, as edições da Panini são idênticas as americanas. Depois encadernou em capa dura, sem o material do Anglo. E ei, bem caras.

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  8. Parabéns pela matéria, é o segundo texto seu que leio e me agrada demais.
    Infelizmente a verdade é óbvia, as editoras lançam aquilo que vende, se não vende pode ser a melhor coisa do mundo que não será lançada.
    Por isso mesmo estou garantindo as minhas mensais do Homem Milagroso, porque estou chutando que não irá rolar os encadernados, por ser um material que não chama a atenção do leitor mal informado e mais novo.

    Abraços.

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  9. Como sempre um ótimo texto. Acompanho o site e percebo a extrema qualidade nas informações e opiniões. É um papel deveras importantes informar as novas gerações não somente sobre os produtos ou obras de quadrinhos, mas também o funcionamento desse mercado. Parabéns.

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  10. É exatamente isso que me preocupa: estou comprando as revistas do Miracleman, mas sempre fico imaginando se mês que vem vai ter outra, se de repente eles cancelam por causa das baixas vendas… Eu compro na Comix Book Shop aqui em SP, têm a do mês e a do mês passado, e no caso dessa última sempre tem várias, parece até que só eu tô comprando lá, hehe…

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  11. Olha…. me perdoe a arrogância, mas no texto você diz que os números da panini Brasil são guardados a sete chaves… Não tô defendendo a empresa, sou um simples leitor (experiente 34 anos de idade, leio quadrinhos desde os 8 anos) mas de onde você tirou essa história que Miracleman não vende, ou que as vendas estão baixas. Por favor cite referências e mostre de onde você tira essas informações… Primeiro post que vejo seu e já tô com vontade de nunca mais aparecer, por causa do seu achismo… ou talvez vc seja dono de uma banca numa grande metrópole aqui no país e na sua banca não tem saída e você tá generalizando. Enfim, me perdoe qualquer coisa, pois o blog é seu e você tem todo direito de dizer o que quiser. T+

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    • Bem, o blog não é meu. É nosso. De onde tirei a ideia? De frequentar bancas (não, não sou dono de uma) e de ver Miracleman se empilhando. De muitas pessoas criticando a decisão da Panini de publicar a série EXATAMENTE da mesma forma que é publicada nos EUA e esperando um futuro encadernado.

      Não, não é achismo. E nós, do NOSSO blog, não do “meu blog” temos as nossas fontes.

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