Alan Moore vs Grant Morrison, o Combate do Século

Moore vs Morrison

A história da briga de longa data entre os dois astros dos quadrinhos, em uma violenta luta em 12 assaltos – e o que Mauricio de Sousa tem a ver com essa história?

Por Fábio Ochôa

Os Lutadores

Beeeeem-vindos ao ringue do Pastel Nerd, prezados senhores.

Deste lado do corner, temos ele, o autor de V de Vingança, Miracleman e Watchmen, o homem que reinventou os quadrinhos dos anos 1980, o adorador de Glycon, roteirista, músico (ou algo parecido com isso), escritor, poeta, dramaturgo, mago, escondido por baixo de seus 380 quilos de barba, direto das ruas escuras de Northampton, o primeiro, o único, Aaaaaalan Moooooooreeee.

Do outro lado do corner, vindo diretamente das etílicas ruas de Glasgow, o autor de Homem-Animal, Liga da Justiça e Os Invisíveis, o homem que faz magia pop, seja lá que porra é isso, o homem que não está aqui para explicar, mas para confundir, roteirista, dramaturgo, músico, escritor, o homem que já foi abduzido e tem o superpoder da visão 5D, o Tom Zé da Escócia, o primeiro, único, inimitável Graaaaaaant Morrisooooon.

Inicia a luta

Soa o gongo.

Round 1Marvel_Super-Heroes_(UK)_Vol_1_377

1986: o combate começa amigável, os adversários estão se estudando, tentando conhecer o oponente. Moore está em uma pequena convenção de quadrinhos em Londres, quando o promotor do evento pergunta se ele se importa de jantar com um amigo dele, um aspirante a roteirista de quadrinhos que era fã do seu trabalho. Moore diz que tudo bem.
O tal aspirante é Grant Morrison.
Segundo o relato de Moore, Morrison trocou algumas palavras gentis sobre o trabalho do barbudo, era muito tímido e ficou calado a maior parte do jantar. A noite acabou com Moore desejando sorte a ele.
Algum tempo depois, segundo o mesmo relato, Moore teve acesso ao que Morrison andava escrevendo para a revista 2000 AD. Moore conta que achou um pouco derivativo do que havia feito em Capitão Bretanha e Miracleman, mas tudo bem, pressupôs que um pouco mais adiante Morrison acharia seu próprio caminho.

kid-marvelman-by-bissetteRound 2
1987: iniciativa de Morrison, a tática é provocar o adversário. Em entrevistas a diversos fanzines, ele começa a se dedicar a desancar Watchmen, então a grande febre da indústria, tachando a obra de – entre outras coisas – pretensiosa, rígida e, em um momento particularmente inspirado, dizendo que ela não passa de um poema ginasial de 300 páginas.

(Eduardo Marchiori vai à loucura lá na plateia.)

Round 3
1988: chapuletada de Moore na orelha do escocês. Morrison escreve para Alan Moore pedindo sua bênção para escrever uma história de Kid Miracleman. A resposta de Moore é singela, um pequeno bilhete escrito, “Não quero que isso soe em tom de sussurro de assassino da Máfia, mas caia fora”.
Moore nega ter escrito o tal bilhete.

Round 481ssN5+Ly6L

1990: novo ataque de Morrison, em sua coluna pra revista Speakeasy, ele sugere que Moore roubou suas ideias para Miracleman, Watchmen e de seu trabalho em Superman diretamente de um desconhecido livro dos anos 1970, chamado Superfolks, de Robert Mayer.

Round 5
1996: em entrevista para a revista General, ao ser questionado sobre as recorrentes críticas de Morrison a Watchmen, Moore apenas responde que Morrison é mais velho do que aparenta. Ele propositalmente retira seis anos de vida de sua idade real, para manter a fama de “gênio prodígio” da indústria. E que isso já diz tudo sobre a seriedade com que a opinião de Morrison deve ser levada. Uia!

Round 6
Pausa.

Round 7
2011: após um longo hiato, Morrison toma uma aguinha e volta à carga, primeiro, dizendo em entrevista ao site Digital Spy que Seaguy é o seu Watchmen. Quando pediram para ele desenvolver melhor, ele afirma que Moore tem apenas um Watchmen. Já ele faz um Watchmen por semana.
Segue abaixo a foto de Seaguy, também conhecido como “O Watchmen de Grant Morrison”.

seaguy_trade_cover2

Round 8
2011: Morrison – provavelmente ainda boladinho com o comentário sobre o fato de ele esconder a idade – circula o adversário, desferindo uma série de tapas no cocoruto, mas dada a massa de pelos e cabelos que cerca Moore, é difícil 307566-99498-the-invisiblessaber onde exatamente se localiza o cocoruto dele. Em entrevista à Rolling Stone, comenta que Moore é obcecado por estupro, cada obra dele tem um momento que remete a isso, e que ele passou por 30 anos de carreira sem precisar mostrar isso. Uia. Golpe baixo.
Moore segue fingindo que ignora o adversário.

Round 9

2011: alguém andou exagerando no café. Como uma cartada final, Morrison lança o livro Supergods, desferindo ali (só para variar um pouco) diversos ataques contra Watchmen e Alan Moore, dizendo que, para uma obra que se pretende realista, a estrutura da história é rígida, que Moore não tem senso de humor e, finalmente, dizendo que apesar de viver falando mal de super-heróis, quando precisou de dinheiro Moore não pensou duas vezes em colocar o rabinho no meio das pernas e escrever heróis para a Image, segundo Morrison “o único lugar onde seu nome ainda valia alguma coisa”. Eita!

Round 10

2012: quando se achava que o combate iria acabar pela recusa de Moore em participar dele, apesar dos saltitantes esforços de Morrison, o blogueiro , crítico e escritor irlandês Pádraig Ó Méalóid escreveu uma série de artigos para o site Animal_man_19The Beat sobre a briga dos dois, e especulando possíveis começos. Em carta aberta, Morrison responde ao artigo, confirmando algumas informações, corrigindo outras.
Na resposta, Morrison contesta a originalidade de Moore, afirmando que ele copia várias ideias suas – Supremo copiaria o Homem-Animal, por exemplo – e afirma que vários elementos de Os Invisíveis foram parar em A Liga Extraordinária: Século.

Round 11
2012: e eis que Moore TAMBÉM responde ao artigo, em um extensa carta.
Entre os melhores trechos, ele diz que tem aturado por 30 anos a hostilidade de alguém que ele vê como uma espécie de banda cover do trabalho dele, chama Morrison de sanguessuga medicinal e o considera sua “herpes pessoal”, diz que ele é um indivíduo faminto por fama, mas sem o talento necessário para satisfazer suas ambições pessoais, entre zilhares de outras coisas. O problema é que, em algum ponto do processo, Moore se descontrola e começa a jogar merda em todo mundo, dizendo que a indústria é um lixo, que nada de bom foi feito nos últimos 30 anos, e todas as coisas que estão por aí são copiadas do trabalho dele.

Round 12
2012: após a furibunda resposta de Moore, a comunidade dos quadrinhos se agitou e toma as dores de Morrison. All-New Miracleman Annual 001 (2014) (Digital) (Darkness-Empire) 010aMorrison se joga no chão e se faz de vítima da história. Aproveita e corrige vários dados errados que Moore passou em seu ataque, dizendo que quando eles se conheceram, Moore era um desconhecido enquanto ele era um profissional há quatro anos, que a invasão britânica ocorreria de qualquer maneira, com ou sem Moore, portanto é injusto ele querer afirmar que tudo aconteceu por sua causa, que não é verdade que a Vertigo seja uma maneira de criar “Alan Moores em cativeiro” e que a história de que Moore foi quem recomendou Morrison para a editora Karen Berger é pura balela.

P.S.: Quase 20 anos depois da rejeição por parte de Moore, a Marvel vai publicar a história vetada de Grant Morrison para Miracleman. Mas Moore já saiu do ringue. Ninguém mais dá a mínima.

A opinião dos jurados

Ben Santana:
Moore ganha por nocaute. Fácil. Morrison é muito bom, mas não é bom como o barbudo de Northampton. A invasão Britânica poderia acontecer sim, mais cedo ou mais tarde. Mas não com a qualidade que ocorreu. Adendo: Morrison, apesar de muito bom, não é tão bom quanto, digamos, Gaiman. Ou Ennis. Ou Ellis. Se você relê Watchmen, por exemplo, percebe a quantidade de pistas que ele deixa na obra. Desde as mais sutis até as mais escancaradas. Outra… Watchmen pode ser lido em tantos níveis diferentes… desde um “whoddunit” (Morrison insiste que é apenas isso) até uma parábola sobre a guerra e sobre o ser humano. Agora, vamos pegar por exemplo Os Invisíveis (que eu gosto muito): ele joga todas as referências possíveis, mas, como dizem em inglês, “keep the cards close to the vest”. E volta e meia some com algumas delas… ou aparecem outras. Ele acha que hermetismo é igual a erudição. Não, erudição é você explicar de maneira genial o que é R’lyeh. Ou colocar John Carter, de Edgar Rice Burroughs, conversando com Gullivar Jones, de E. L. Arnold em Marte e citar Kane, de Michael Moorcock. Desculpem… me empolguei. Não vai acontecer de novo.

Maurício Muniz
Moore vence! Moore vence até Galactus, Thanos, Darkseid e Zod juntos. Se estiver com o Glycon do lado, então, não tem nem pro Ego, o Planeta Vivo.

Carlos Alberto Bárbaro
Mauricio de Sousa, por pontos. As aventuras metalinguísticas do Grant Morrison já eram praticadas por Mauricio antes mesmo do Moore nascer. E Os invisíveis perdem pro Louco, de longe.

Fábio Ochôa
Moore, com certeza. Ok, ele é o tiozão amargo e recalcado do churrasco, mas a contribuição dele para os quadrinhos serem levados a sério como mídia é incomparável. Para o bem ou para o mal, os quadrinhos modernos são filhos de Alan Moore. E até mesmo enquanto autor, o seu domínio do meio é tremendamente superior ao de Morrison, que é muita pose e pouco conteúdo. Dói um pouco dizer, afinal, Morrison fez eu voltar para os quadrinhos duas vezes, primeiro, com “O Evangelho do Coiote”, uma das coisas mais geniais que já li; segundo, com sua fase na Liga da Justiça, mas a desonestidade intelectual do autor é gritante, alguém muito mais preocupado em causar, confundir, ser hermético-cool-descolado do que em narrar uma grande história ou dizer algo válido. Morrison deveria aprender algumas coisas com Moore.

Resultado

Moore: 3 votos
Mauricio de Sousa: 1 voto
Morrison: 0 voto

Vitória de Alan Moore!

(E você, o que acha? Participe da discussão nos comentários abaixo)

OchôaFábio Ochôa trabalha como redator publicitário. Conquistou prêmios, foi citado na TV, foi diretor de criação, já saiu na Zupi, fez campanhas políticas e, mesmo assim, ainda consegue gostar das pessoas e achar este mundo um lugar legal. É um exemplo, esse rapaz. Trabalha também como ilustrador freelance e roteirista eventual. Para saber mais acesse:  www.behance.net/fabioochoa

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25 comentários sobre “Alan Moore vs Grant Morrison, o Combate do Século

  1. Excelente texto (apesar do “pretenCiosa”)! E, nessa briga, também fico com Maurício de Souza! Gosto do Morrison, mas tem horas que acho que ele mesmo se olha no espelho todas as manhãs e se superestima demais, atira para todos os lados sem saber onde acertar e, depois de atingir um alvo uma vez, proclama que tinha total controle do que estava fazendo. Vide E de Extinção, e depois aquele monte de presepada que ele batizou de Manifesto Morrison babando ovo pro filme do Singer. Continuo admirando seu trabalho, sobretudo Asilo Arkham e Homem-Animal, mas falta engolir muita cobra pra chegar na experiência vivenciada por décadas de erros e acertos do barbudão.

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  2. Bem, britânicos adoram um “lavado de roupa suja”. Concordo com praticamente tudo que foi dito pelos anteriores (menos com o rapaz que confundiu Moore com Miller) e meu voto vai para Moore. Quer queira, quer não, Morrison ainda não escreveu algo que realmente mudasse os rumos da indústria, ao passo que Moore fez isso em mais de uma ocasião. Só para fazer um comparativo breve: Moore atingiu o estrelato com Monstro do Pântano e redefiniu o gênero das revistas “adultas” da DC… e Morrison ficou por 26 ótimas edições em Homem Animal, que é para mim seu melhor trabalho (ao lado de Invisíveis), mas não chegou no nível de Moore. Invisíveis é excelente mas nunca reflexivo como um V de Vingança, por exemplo. Acredito que, em termos de relevância, A Piada Mortal bate Asilo Arkham: Se a gente presta atenção, repara que o roteiro de Morrison aqui é mediano, mas extremamente valorizado pela arte de Dave McKean, enquanto do outro lado temos um roteiro redondinho, com uma trama bacana e um artista genial chamado Brian Bolland. Ambos já deram suas escorregadas e tem seus temperamentos. Apesar de Moore ser o velho ranzinza que todos adoram malhar, ainda é capaz de mostrar um fôlego surpreendente como o vem fazendo em Providence.

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  3. Concordo com os jurados. Moore é Moore e Morrisson (que é muito bom) sempre demonstrou querer ser Moore e isso o reduz tolamente. Esperto é o Gaiman que é tão f*** quanto o barbudo e não se incomoda em assumir que o teve como mestre. Ao invés de brigar, vai tomar chá e trocar idéias psicodélicas com o cara. No demais, viva o “Louco” que sabe o quanto Watchmen é bom…

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  4. Até hoje a industria dos HQ´s se coroem por dentro , pela perda profissional do Moore , se ele um dia resolve se pelo menos fazer um comentário que estava pensando em voltar a DC a Marvel iriam se jogar aos seus pés , já Morrison ele é muito bom , mas não é o mito que se tornou o barbudo !

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  5. Moore, sem dúvida! SUPREMO(porra, pq ninguém cita Supremo?) é a melhor “história do Superman” de todos os tempos ! É a história que a DC Devia fazer com o original. ….mas não fez! Moore faz uma CRISE NAS INFINITAS TERRAS em 3 páginas (iniciais) !!!!!
    Miracleman tem a briga de MAN OF STEEL em 82! !! E a história influenciou quase tudo de bom que veio depois, nessa linha (até a aura protetora do Superman do Byrne) . Vou para, senão fico até amanhã babando o ovo do Moore!
    Ps : Concordo com quase todos, menos com o carinha do Miller, rs!

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  6. Prezados Pasteleiros, muito bom o arigo. Vcs por acaso teriam o link dos artigos do The Beat bem como das cartas de Moore e Morrison? Poderiam disponibilizar? Obrigado.

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  7. Também fico com o Moore, apesar de que o Morrisson não precisava malhar seguidamente o Moore como ele faz e acho que o Morisson não precisa ficar no pé do Moore como ele faz e para mim isso é paixão de fã mal resolvida.

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  8. Para nós, o público, pouco deve importar as rixas pessoais dos dois artistas. Ambos tem méritos e deméritos próprios em suas obras, material o suficiente para julgarmos Moore e Morrison sem a necessidade de levarmos em conta as picuinhas de um com o outro.

    Para começo de conversa, acho que o texto, em especial as avaliações finais, são muito tendenciosas. De modo geral, acho que as pessoas avaliam o Moore por conta de sua contribuição para a indústria e para a cultura pop com Watchmen e V de Vingança e relevam, ou desconhecem, todo o resto. É difícil achar alguém que sequer cite outras obras dele, e por mais que o artigo fale de Miracleman e Capitão Bretanha, acho difícil que mesmo os autores conheçam a fundo esses personagens. Eles foram pouco publicados por aqui e, mesmo lá fora, não são muito conhecidos e reconhecidos. Sobre Miracleman, acho inegável que a fase do Morrison é muito superior a do Moore, mas pode-se argumentar que isso seja uma questão de preferência pessoal, algo que falarei mais daqui a pouco.

    Sobre os “medalhões” de cada autor, devo admitir que Watchmen, e talvez V de Vingança, sejam obras superiores a qualquer coisa feita pelo Morrison até hoje. É difícil de se argumentar contra a importância e a genialidade de Watchmen, e acho feio o que o Morrison faz nesse sentido. Ao dizer que Seaguy está no mesmo nível ou em um nível superior a Watchmen, Morrison cria uma tensão desnecessária e só se envergonha. A obra tem seus próprios méritos e é brilhante de sua própria maneira, de seu jeito próprio, mas não supera Watchmen (que pra mim só não é melhor que Sandman).

    Do lado do Morrison, achei desrespeitosa a falta de comentário sobre Flex Mentallo e Zenith, além da forma quase nula com que falaram sobre Os Invisíveis, um dos melhores, senão O melhor trabalho do autor. Também não falaram sobre WE3, sobre Batman: Arkham Asylum ou Batman: RIP, para mim, histórias em pé de igualdade com A Piada Mortal do Moore. Você pode falar que também deixaram de fora uma porrada de histórias do Moore, que não cabia tudo em um texto, e eu entendo, mas se era para pegar as grandes obras de cada autor e confrontá-las, não dava pra esquecer as principais do Morrison, isso é jogar baixo e, da forma como eu enxergo, é não querer admitir que o Moore tem alguns dos pilares dos quadrinhos modernos ao seu lado, mas a obra do Morrison é maior e com mais qualidade e diversidade que a do seu oponente.

    Falei ali em cima sobre o Batman e acho que cabe mais um ponto aqui. Não comentaram sobre A Piada Mortal, uma das grandes obras do Moore, talvez porque caberia a réplica de que as histórias do Batman escritas pelo Morrison são incríveis. A Piada Mortal é sim uma das melhores histórias do personagem, mas o Morrison escreveu várias, revolucionou o personagem de dentro da série mensal, mudou paradigmas que serão carregados na cronologia e, ainda que se argumente que não é tão bom quanto a história do Moore, caberia aí a comparação, mesmo que fosse entre A Piada Mortal e Asilo Arkham, duas graphic novels que poderiam ser comparadas como pontos fora da cronologia. Não admitir que a influência do Morrison sobre o Batman é tão grande quanto a do Moore sobre o Coringa após sua história é um ponto fora, eu acredito.

    Mudando de personagem, mas mantendo o argumento, por que não comparar O Que Aconteceu ao Homem do Amanhã, uma história incrível do Moore com o Superman, com o run do Morrison com o personagem. A história do Moore é muito boa, é uma das mais lembradas com o Superman e mudou muita coisa para o personagem e para a indústria, mas All Star Superman (Grandes Astros Superman no Brasil, se não me engano) é uma história muito boa também, acredito que até superior a do Moore, e daria uma ótima discussão, pontual, sobre um personagem, mas o assunto nem é trazido à baila no texto. Essas claras oportunidades de comparação que foram desperdiçadas me incomodam, acho que o medo de se diminuir um grande autor, como Alan Moore, admitindo que seu brilhantismo foi pontual é tabu para os fãs de quadrinhos, precisamos superar isso. O cara é foda, mas não é um deus intocável e inquestionável.

    Falou-se pouco sobre Homem-Animal, onde o Morrison fez um trabalho muito superior com o personagem. O trabalho de Grant Morrison com o Homem-Animal é um dos melhores na história dos quadrinhos de todos os tempos, e em uma série mensal, pra quem ninguém dava (e ainda ninguém dá) a mínima! Pra mim, o trabalho do Morrison é a prova de um brilhantismo constante, um trabalho perene e não pontual. Desde que surgiu nos quadrinhos ele entrega pérola atrás de pérola sem deixar a peteca cair. Em Multiversity (Multiverso DC no Brasil, tá saindo agora pela PANINI, vale a pena, fica a dica) ele dá um banho em qualquer saga de qualquer editora, até mesmo nas da DC, como a Crise nas Infinitas Terras (que divide opiniões, mas moldou a indústria dos quadrinhos no seu tempo e foi revolucionária). Por que não comparar o trabalho dos dois na atualidade? Por que não comparar a visão dos dois autores? O Morrison está trabalhando com as grandes editoras, algo que o Moore abandonou faz tempo por questões ideológicas que entendo e respeito, mas depois disso o cara só publicou trabalhos razoáveis, isso quando eles foram razoáveis! Temos aí Neonomicon que é um belo peso de papel que não só não está no nível das obras do autor como também é um desrespeito ao Lovecraft e ao trabalho meticuloso que ele teve na construção de seu universo!

    Pra mim, pode-se até dizer que é uma questão de gosto pessoal (viu, falei que chegaria nesse ponto), pode-se glorificar o Moore pela sua crítica social e sua inovação e desqualificar a obra do Morrison como uma psicodelia sem sentido baseado em preferências pessoais, baseado no que se leu de cada autor, mas é inegável que, ao se escrever um texto comparando os dois, certos pontos não podem deixar de ser citados. Focar na rixa entre os autores diminui os dois e deixar de falar de obras incríveis que eles escreveram, como o Monstro do Pântano do Moore ou Flex Mentallo do Morrison, é um pecado, diminui ambos e torna a discussão pequena e sem sentido. Quero ver alguém ter peito de ler tudo que os dois escreveram e falar sério sobre os méritos e deméritos de cada um, sem se apoiar em nostalgia, senso comum, Watchmen e V de Vingança para justificar um endeusamento que não acho justificável. Quero ver alguém comparar os dois autores com Warren Ellis, Garth Ennis e Neil Gaiman, autores com backgrounds semelhantes e obras muito distintas, mas igualmente revolucionárias, influentes e críticas. Esse texto ficou enorme, peço desculpas por isso, mas queria aproveitar a brecha para fazer esse desabafo e, de certa forma, defender o autor que acho melhor, Grant Morrison, que acredito ser diminuído muitas vezes por não ter produzido obras memoráveis para o grande público, como Watchmen, mas que nem por isso é pior. Acredito em um trabalho constante, perene, que traga qualidade toda vez que um novo desafio é apresentado, que trata com igual valor qualquer personagem, que critica a sociedade, a cultura pop e o senso comum de dentro da máquina, todo mês, nas bancas e comic shops do mundo inteiro, e não num recluso que teve seus tempos de glória no passado e que é lembrado, até hoje, por trabalhos incríveis, mas que não continuaram com o passar do tempo, pelo menos não na minha visão.

    Enfim, achei o texto divertido e acompanharei essa página doravante. A crítica pode ter sido pesada, mas curti a proposta de vocês como um todo. Sou um fã apaixonado de quadrinhos e não consigo deixar de falar sobre essas coisas quando me apresentam a oportunidade.

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      • Bem lembrado, Mauricio. E mesmo assim, dizer que a fase do Gaiman foi superior a de Alan Moore beira o desacato. Principalmente se for compararmos com o vol. 03 “Miracleman: Olympus” de Moore, onde o barbudo despeja todo o seu vasto talento intelectual em seu último arco na série. Morrison é bom, mas não tem uma única obra sua (seja antiga ou atual) que possa ser comparada com Watchmen, V de Vingança, Miracleman, A Piada Mortal, Monstro do Pântano, Superman, From Hell, Supremo, Liga Extraordinária e Promethea. É pouco ou quer mais? Nem vou levar em consideração premiações porque aí já seria uma bruta sacanagem da minha parte. Só vi o nome do Morrison mesmo, uma vez, em All Star Superman. (posso estar enganado) Já o Moore… Bom, só pra finalizar essa discussão, eu vi uma entrevista do Morrison uma vez onde ele confessava que o melhor material que ele já tinha lido em sua vida, havia sido “As Aventuras de Luther Arkwright” de Bryan Talbot e, olha só, (pasmem) “V de Vingança”. Isso mesmo, pessoal…V de vingança do Alan Moore. Essa matéria saiu na Revista HQ 01 da editora Palermo (especializada em quadrinhos).

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  9. Meu voto vai para MOORE, mas por pouco. Ambos são geniais no que fazem e se igualam a poucos no meio. Morrison tem propriedade em muito que diz a respeito do barbudo, mas as vezes é tão repetitivo que fica difícil dizer se não está apenas com um sério caso de “dor de cotovelo”. De qualquer maneira, comparações a parte, ambos tem uma longa e prolífica carreira com pouquíssimos deslizes, mas meu voto vai para Moore pela maior acessibilidade de suas obras, como diria Einstein “Se você não consegue explicar algo para uma criança de seis anos, é porque não entende o que está falando”.

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  10. Faltou um rond aí no meio na longa pausa, em 1996 o Moore criou um personagem nas páginas de Supremo que era uma sátira declarada contra o Morrison, um autor pretensioso de histórias em quadrinhos que retratava as próprias aventuras (parodiando o fato de Morrison falar que Os Invisíveis era meio auto-biográfico).

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  11. Fico com Moore, mas pq ninguem comentou sobre Do Inferno? Pra mim essa é de longe a melhor hq já feita, tbm concordo que Moore tem excelentes trabalhos como Capitão Britania, Miracleman, Supremo, Tomorrow Stories, Liga Extraordinária, Lost Girls até a Voz do Fogo que é uma bela obra literária.
    Já sobre o Grant Morrison li Homem Animal que dizem ser o melhor dele e achei bem fraco, texto bem raso e umas besteiras que cortam o clima da história, não tem a mesma complexidade que as hqs de outros autores britanicos como a do barbudo.

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